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Vida literária na web

Atualizado em 11 de setembro | 7:11 PM

Há algo de anacrônico no temor de que a chegada da Internet venha golpear ou mesmo substituir o livro e, seu efeito colateral, o prazer da leitura linear tradicional. Anacrônico, mas parece que inevitável. Olhando para trás, esse script é velho e se reapresenta por ocasião do anúncio de toda e qualquer inovação tecnológica. Como não usamos jurisprudência nesses casos e experimentamos o susto e sua intensidade como se fosse pela primeira vez, essa obstinada recorrência merece ser considerada não como um problema real, mas como um saudável e provavelmente necessário rito de passagem. Talvez seja por isso mesmo que, hoje em dia, não haja seminário ou encontro que se preze no qual o tema não volte com um desconcertante frescor.

Na realidade, nestes debates, o sabor de déjà vu torna um pouco entediantes tanto os argumentos dos tecnofóbicos quanto aqueles dos tecnoaficcionados.  Mas deixando fetichismos à parte, a circulação intensa da cultura hospedada na rede, o advento das edições on-line, dos non-books ou publicações digitais, de novos hardwares como os e-books e o sucesso irreversível do comércio eletrônico, ao lado de gêneros literários que começam a desafiar a “leitura sustentável”  como no caso da novíssima hiperficção, são temas que oferecem uma pauta infinita para a reflexão dos críticos de cultura e dos profissionais do livro.

Deixo por hoje de lado as experiências hipertextuais e as sombrias perspectivas da cultura do livro, provisoriamente confiante de que o milênio que se aproxima nos trará a boa surpresa de uma convivência cordial entre a cultura do papel e a cultura eletrônica e, apenas para abrir o assunto, vou observar o que se passa no meu território predileto na web, que é o território da poesia.

No Cadê, a maior ferramenta de busca do país, em novembro de 1999, estão registrados 702 sites de poesia hospedados na rede. Ainda que a variedade desses sites seja desorientante, é relativamente possível distinguir-se a natureza destes sites no ambiente imprevisível da www. Em primeiro lugar, como seria de se esperar, não é a poesia canônica que se hospeda preferencialmente neste ambiente. Há exceções como o site de Carlos Drummond, ou os casos adoráveis de algumas raras homepages como a de Manuel Bandeira ou Ferreira Gullar, que à moda do que acontece com os ídolos do showbusiness, são sites feitos e mantidos por admiradores ou fans. Mas essa não é a norma. Daí, uma primeira e apressada constatação: a web é de enorme utilidade para poetas que não têm disponíveis meios de produção e divulgação e cuja pretensão parece ser apenas “ter um lugar ao sol” como declara literalmente a homepage do grupo Caox da periferia carioca. Ou é o caso de poetas que se articulam sem ter muito em comum a não ser o desejo de estabelecer um canal para a distribuição de seu trabalho. São sites que reúnem poetas de várias tendências e partes do país, como o Anel de Poesia, o MPB (Muita Poesia Brasileira), o BLOCO de Leila Miccolis, ou mesmo o Jornal de Poesia de Soares Feitosa, que além de colocar 2.000 poetas on-line, oferece no link “Fofocas & Maldades” a atração extra de cadastrar e estimular as mal-humoradas polêmicas publicadas nos jornais e suplementos, e que, como todos sabemos, alimentam a sintomatologia mais profunda de nossa veia poética nativa. É portanto a ampliação do espaço da fala poética e – por que não? – de suas mazelas e demandas o primeiro ganho da poesia na web.

O interessante é que enquanto transformações profundas se anunciam nas relações autor-leitor, na noção de autoria, na questão da propriedade intelectual, ou mesmo no experimentalismo com os recursos digitais como é o caso da (bela) poesia em movimento de Carlos Vogt, as políticas literárias tendem a reproduzir a esfera pública presencial. A web parece se oferecer como o espaço ideal para a amplificação das denúncias de desigualdades e afirmação de identidades contra-hegemônicas como no caso da poesia negra, da contestação ruidosa dos funkeiros e rappers, dos erótico-engajados, ou do notável número de sites de poesia lésbica, um vigor que não encontra, nem de longe, correspondência na cena poética brasileira off line. O que leva a uma outra apressada constatação: o novo espaço cibernético, seus links poéticos e sua indução para uma contínua transmutação de subjetividades que se repete em cada escolha de loggins, senhas pessoais, homepages ou na multiplicidade de encenações exibidas diariamente nos palcos dos chats, sinaliza a liberação iminente de uma explosiva demanda reprimida de energias identitárias. 2.000 promete!