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Vida de artista

Atualizado em 6 de outubro | 12:38 PM

Artigo publicado originalmente no Jornal do Brasil, em 13.03.1982.

 

Provavelmente, neste momento, empilhado na gráfica em montes de folhas soltas à espera de capa e com aquele genial cheiro de tinta fresca, pode-se ver o Mar de Mineiro, novo livro de Antonio Carlos de Brito — o Cacaso. O interesse e a curiosidade desse lançamento ligam-se diretamente ao fato de que Cacaso, que não é mineiro, mas “paulista” de Uberaba, talvez seja o autor que, com maior fidelidade, expressa a imagem do poeta e o sentido mais específico das conquistas da nova poesia que se firmou nos últimos 10 anos entre nós.

Sem pressa, passemos primeiro em revista sua ficha técnica: 38 anos (feitos hoje, 13 de março), desconfiado, infalivelmente acompanhado de uma grande bolsa de couro cheia de anotações, papéis e caderninhos União, formado em Filosofia pela UFRJ, professor de Letras na PUC e na UFRJ por um tempo, aluno aplicado da pós-graduação da USP também por um tempo, ensaísta dos bons, poeta (Palavra Cerzida, 1967; Grupo Escolar, 1973; Segunda Classe, com Luís Olavo Fontes, 1975; Beijo na Boca, 1975; e Na Corda Bamba, 1978), letrista parceiro de Tom Jobim, Edu Lobo, Djavan, Sueli Costa, João Donato, Nelson Angelo, Novelli & muitos outros, e, mais recentemente, compositor. Pela ficha, uma trajetória obstinada no sentido do aperfeiçoamento técnico, no drible das armadilhas (ainda que, às vezes, vantajosas) que a carreira acadêmica ou as ligações institucionais nos brindam vida a fora.

Voltando ao próximo lançamento de Mar de Mineiro, surpreendemos neste sexto livro de Antonio Carlos de Brito algumas novidades. Em primeiro lugar, ao contrário de seus últimos livros, que vinham se especializando no sentido do volume leve, de baixo custo, portátil, descartável, Mar de Mineiro compõe-se de 250 páginas de textos mais extensos, papel de alta qualidade, projeto visual classe “A” de Martha Costa Ribeiro, com fotos de Pedrinho de Moraes e ilustrações de Malena Barreto. Outra novidade, a poesia dividindo seu espaço com letras de música: Mar de Mineiro compõe-se em três partes (ou três movimentos) — “Postal” (poemas), “Papos de Anjo da Guarda” (letras de amor) e “Sete Preto” (letras do sertão, com forte sabor de cordel). Ainda que nestes últimos tempos venha cada vez mais se firmando a publicação de letras de música, não mais em folhetos-para-cantar, mas em livros onde o texto em si é valorizado como tal (e neste caso vale a pena lembrar o Asas, de Abel Silva, e o recente lançamento de Ana Terra, ambos não deixando nada a dever como excelentes poetas), Mar de Mineiro traz, para além da conjugação do poeta e do letrista, como que um ponto de chegada sintomático da sensibilidade fundamentalmente musical que sempre orientou a produção poética e mesmo a ensaística de Cacaso.

Nos bons tempos do último “surto poético”, sua poesia foi sempre conhecida como uma das mais populares, e essa popularidade, certamente, se devia menos a uma suposta facilidade de seu verso do que à musicalidade que eles continham. O que levou Cacaso, num determinado momento, a ser mesmo considerado o mais legítimo herdeiro de Vinicius de Moraes. Um desejo aliás antigo — “ser cantor de rádio” — que, já em 68, Cacaso me confessava na dedicatória de seu primeiro livro, Palavra Cerzida, ainda um verso de dicção intelectualizada e temática metafísica do então estudante de filosofia.

É assim que o teórico marxista, crítico literário e poeta A.C. Brito nos dá, em alto e bom som, algumas declarações, no mínimo curiosas. Em conversa recente, Cacaso insistia em afirmar que nunca teve especial atração por literatura, que a maioria dos romances o entediam e que, finalmente, nunca quis ser escritor. Por outro lado, a trova, a quadrinha, o longo poema rimado foram sempre sua grande fascinação. E conclui: “Meu inconsciente sempre foi musical”. É interessante também conferir o que o próprio poeta pensa como sendo o sentido mais profundo da “musicalidade”. Aqui, a música parece ser experimentada como a forma, por excelência, da liberdade. Aquela cuja prática tem a ver com intuição, com a dança, com o improviso e com a desenvoltura maior em relação aos modelos formais ou institucionais, para o autor, pré-requisitos indispensáveis à criação artística.

Lição que Cacaso decidiu cumprir à risca tanto no percurso do poeta e do letrista quanto no do professor e ensaísta. Em 1974, Grupo Escolar, integrante da histórica “Coleção Frenesi”, já mostrava sinais evidentes do trabalho no sentido da desburocratização e do descarrego na atitude do poeta com a poesia. Dizia, então em “Cartilha”: “Preciso / da palavra que me vista não / da memória do susto / mas da véspera do trapezista”. Daí para fechar o foco nas relações entre arte e vida, não se passou muito tempo: Segunda Classe, Beijo na Boca e Na Corda Bamba, todos da Coleção “Vida de Artista”, coordenada pelo próprio Cacaso, tematizam basicamente o compromisso ferrenho com o descompromisso e com a disponibilidade, chave mestra da estética do poeta.

Em Beijo na Boca, lírica amorosa (que revela vasta experiência e rara sabedoria), evidencia-se o procedimento básico dessa estética. Como observa Clara Alvim, num também sabidíssimo pós-facio: “Na maioria dos poemas de Beijo na Boca, não há afirmação que se fixe como derradeira: dos títulos ao último verso, instaura-se um movimento de contínuo desmentir-se, e parece que a grande luta se trava entre o fazer e o não fazer o poema, entre o destruir e o resistir à destruição da sinceridade ou da seriedade — de conteúdo e de expressão. A autoria e o poema mesmo se fazem e se escondem no atiçar a luta não só de estilos, mas de paródias contra paródias”.

Ainda interessante observar-se que a teimosia de Cacaso pela indefinição é sua melhor arma e estratégia, não só poética mas também no sentido de definir o lugar e a função do artista no mundo moderno. Em Na Corda Bamba, um minilivrinho de bolso, a insistência na articulação entre o fazer poético e o descompromisso como prática política é particularmente sensível. O poema que dá título ao livro, dedicado a Chico Alvim, esclarece: “Poesia eu não te escrevo / eu te/ vivo/ E viva nós!” (não esquecendo que, pelo efeito do título “na corda bamba”, a opção de viver poeticamente contém alta dose de perigo e instabilidade). Ou, ainda em “Vida e Obra” do mesmo livro: “Você sabe o que Kant dizia? / que se tudo desse certo no meio também / daria no fim dependendo da idéia que se / fizesse de começo / E depois — para ilustrar — saiu dançando um / fox- trote”.

É nesta pista de dança que, ao falar de sua formação, Cacaso fecha questão sobre sua principal influência artística, “D Wanda, minha mãe, que não é artista e que me levou a acreditar na disponibilidade do espírito como predisposição básica da criação. O que marca meu caminho é exatamente essa predisposição que aprendi muito cedo e da qual não abro mão. Foi assim que estudei para o vestibular de agronomia e fiz filosofia. Que abandonei minha carreira universiária, que não suportei os relatórios da Fapesp e dissolvi minha tese em ensaios. Que ainda batalho para dissolver também meu lado professor. O que se firmou realmente como profissão para mim foi a disponibilidade”.

É importante ainda que se perceba que a intransigência de Cacaso acerca da disponibilidade do artista não se constitui apenas em “atitude poética”, mas em uma avaliação política da função social do intelectual e do artista nos dias de hoje. A possibilidade de criação e a desenvoltura crítica parecem ser vistas na razão direta do desengajamento institucional, acadêmico e mesmo literário. A figura errante do poeta — hoje tema quente do debate sobre a permanência de mitos românticos na produção cultural pós-moderna — é experimentada “na vida e obra” de Cacaso, entretanto, com forte malícia e ironia, não fosse o poeta um expert na arte do perigoso jogo dos contrários. O descompromisso sistemático que o autor exige como pré-requisito indispensável à criação revela-se logo consequente e inevitável auto-compromisso diante da responsabilidade por essa mesma criação, como consciência do papel da liberdade no complicado contexto social dos tempos modernos. Há uma gota de sangue na aparentemente odara profissão de fé do poeta, Um Homem Sem Profissão: “Já que estava à-toa resolvi fazer um poema / agora faço pra ficar à-toa”.

Como há também um longo caminho entre o trabalhoso bordado filosófico de a Palavra Cerzida e o “primitivo” universo musical que traz o sertão, a infância e o amor rimado, num espaço de impossível localização no mapa que é esse Mar de Mineiro.