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Um problema quase pessoal

Atualizado em 14 de setembro | 8:09 PM

No campo da análise do discurso, o que estaria sendo evitado pelos estudos feministas no Brasil?

O debate sobre a condição feminina, expresso nas obras literárias e na imprensa, conhece um pique na segunda metade do século XIX até os anos 20, quando emerge o movimento modernista nas artes e nas ciências sociais. A questão da mulher sai então do circuito da literatura e passa para as mãos da sociologia, da antropologia e, muito recentemente, para as da história e da psicologia.

Voltando de forma brevíssima ao século XIX, a partir dos anos 50, começa o processo urgente e inadiável de definir os contornos da nação brasileira. Os caminhos percorridos pelos discursos que imaginaram a nação trouxeram, sistematicamente, a metáfora da “maternidade republicana”, como figura fundamental, ou seja, a hiper-valorização do papel da mulher como “civilizadora” e responsável pela idéia de uma nação moderna, educada e homogênea.[1]  No caso brasileiro, evidenciam-se alguns traços peculiares.  Nos discursos de construção nacional, já é conhecido com quanto desconforto a importação das ideologias liberais conviviam  com a vigência do regime escravocrata. Por outro lado, as idéias de uma homogeneização racial, supostamente necessária para a definição de uma identidade nacional e moderna, passavam também por complicadores evidentes.  Começa a ser esboçada a estrutura da ambiguidade discursiva, que vai tornar-se progressivamente saída e limite dos discursos sobre raça e gênero na cultura brasileira. A partir dos anos 20, o modernismo surge como capaz de teorizar e operacionalizar esta ambiguidade através da imagem (até hoje hegemônica no campo das artes) de um “Brasil carnavalizante”. É a época áurea da definição de um Brasil desconhecido e moderno, e, neste debate, as mulheres silenciam ou são silenciadas.

É importante observar no design modernista da “cultura” ou da “identidade” brasileira, alguns aspectos que determinam essa ambiguidade estrutural dos discursos sobre uma mutante “identidade sem nenhum caráter” que, sem dúvida, reverberam na construção da subjetividade da mulher e do negro no Brasil:

1. Uma relação bastante problemática com o engate do presente no passado, ou mesmo uma convicção de que o passado não existe ou não tem importância, o que propicia o eterno retorno da clássica pergunta “que país é este?”.  Não hesitaria em afirmar que as representações construídas em torno da “identidade brasileira” são subsidiárias e produtoras da permanência desta dúvida com todas as vantagens e desvantagens que possa acarretar.

2. Nesta perspectiva, torna-se clara a importância relativa das narrativas fundadoras ou a eterna mobilidade no tempo e no espaço de um  projeto fundador contraditório.  Nosso passado não tem heróis nem traz à tona suas “raízes” negras ou índias, cujos traços ou marcas culturais teriam se dissipado no quadro da mestiçagem e da “democracia racial” brasileira. Os mitos da mistura racial e de uma suposta desierarquização das relações entre os sexos muito devem à proporcional valorização da amnésia histórica, que informa as diversas imaginações de Brasil, uma nação cuja identidade estaria exatamente na capacidade de adiar eternamente sua definição.

A possibilidade deste tipo de formação discursiva diz respeito às formas de organização social e política das elites brasileiras, que apontam para a recorrência  de uma identificação de tipo vertical na escala social, preferencialmente a de organização ou solidariedade de tipo horizontal em torno de objetivos ou interesses comuns entre as diversas classes, raças ou categorias profissionais às quais eu acrescentaria o evidente desconforto em relação a um confronto de caráter mais político entre os sexos. [2]  O estilo oficial da malandragem e da sedução – artifícios talvez considerados “femininos” – pode ser visto, por esta via, como “autenticamente nacional”.

O discurso modernista também se nutre deste paradigma. O modelo antropofágico, definido pelo modernismo como o traço por excelência de nossa identidade cultural, evidencia a mesma ordem de problemas. Basicamente, o gesto antropofágico é aquele que, em vez de estabelecer um confronto, prefere “deglutir a diferença”. A deglutição do “outro”, no caso tanto o discurso colonial quanto o discurso modernizador, é seguida pela opção de expelir o que “não interessa”. Num interessante trabalho, Zita Nunes coloca uma pergunta vital: “No caso da antropofagia, quem come quem? e neste banquete o que é considerado oportuno de ser expelido?”[3]  No caso da antropofagia modernista, colocada aparentemente em termos da relação colônia/metrópole, o nativo devora brava e legitimamente o agressor. O que volta a desconcertar quando pensamos em dois marcos do pensamento tropicalista, o Macunaíma de Mario de Andrade e o Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre, é que não é possível identificar em nenhum dos dois trabalhos a presença forte de um previsível marco fundacional (ou, como é comum nas obras de definição nacional, de um “phallus fundador”).  Ao contrário, é a permissividade, a  predisposição para a mistura (ainda que traga males e doenças degenerativas) e a fragilidade polimorfa que rege o mito fundador antropofágico e tropicalista. O Brasil, “deglutidor das diferenças”, é construido pelo modernismo como o reino da “cordialidade”, do calor receptivo, da predisposição “nata” para receber o “outro” e com ele se identificar. Neste mesmo caminho, reforço agora a idéia da dificuldade em estabelecer  e instrumentalizar  com clareza, até bem pouco tempo, as divergências de interesses entre classes sociais ou entre grupos etnicos ou sexuais no Brasil.

Isto me lembra uma palestra de Jean Franco, no Ciec, em 1988, sobre o filme Dona Flor & Seus Dois Maridos. Um filme considerado “autenticamente sexista e nacional”, mas revelador de um dado, no mínimo, curioso: o desinteresse flagrante pela visão frontal do nu. Teríamos assim, sugerida num dos clássicos do “inconsciente erótico brasileiro”, a evidência de uma espécie de estética do traseiro, seja masculino ou feminino, cujo sentido básico seria precisamente a ocultação do phallus. Da mesma forma, a idéia tradicional da carnavalização como identidade cultural brasileira, tendo a subversão como norma e a desordem como parâmetro, também é complicada.  O discurso carnavalizante, ainda que sentido e experimentado como de natureza liberal e progressista, não parece atrair os autores negros nem as escritoras mulheres, evidenciando, no conjunto de sua produção discursiva, um ponto de vista de gênero, de raça e de classe bastante marcado. A reversão carnavalizante ainda que possa ser avaliada como uma estratégia de resistência raramente evidencia um projeto mais radical de transformação social. A sedução e a malandragem são apenas algumas das variações das formações discursivas, que promovem a ambígua construção de uma “subjetividade brasileira” entendida como transexual e transracial. Entretanto, essa mesma agilidade malandra não tem sido instrumentalizada, pelo pensamento feminista brasileiro, no lidar com os mitos, paradigmas e com as sutilíssimas narrativas mestras de nossa suposta “identidade nacional”.

Mesmo identificando o mal estar sintomático que marca a crítica literária escrita por mulheres em relação aos discursos sobre o Brasil, tenho o palpite de que será pela via dos estudos de gênero e de raça que se responderá de uma vez por todas ao já secular enigma que insiste em manter em aberto a pergunta “Que país é este?”.


 

[1] Ver Miriam Moreira Leite. Uma Construção Enviesada: A Mulher e o Nacionalismo no Sec. XIX. (Mimeo. Trabalho apresentado no seminário “De que fala o Nacionalismo?” Ciec, UFRJ, 1989) e H. B. Hollanda. Letras, Armas e Virtudes. (Mimeo. Trabalho apresentado na V Encontro da ANPOLL, 1990)

[2] A respeito da lógica das relações de poder na sociedade brasileira são exemplares os estudos de Roberto Schwartz sobre os efeitos da ideologia do favor  ou os trabalhos sobre os rituais da malandragem e da carnavalização de Roberto da Matta.

[3] Zita Nunes. Os Males do Brasil: Antropofagia e a Questão da Raça. Série “Papéis Avulsos” n.22, Ciec/UFRJ, 1990