Zuenir Ventura

Antes e depois da meia-noite

Atualizado em 27 de maio | 1:52 AM

ANTES E DEPOIS DA MEIA-NOITE

Para a professora Heloísa Buarque de Hollanda, 1968 pautou uma agenda de políticas para as minorias

Ela hospedou um dos réveillons mais comentados da história do Rio de Janeiro. Na virada de 67 para 68, a “casa do Luís e da Helô” recebeu artistas, políticos, jornalistas e socialites para uma celebração que prenunciaria a convulsão de transformações prestes a vingar no ano vindouro. Para se ter uma idéia do alvoroço que tomou conta do espaço, só naquela noite 17 casamentos foram desfeitos – inclusive o da própria anfitriã. Heloísa Buarque de Hollanda saiu dali para se consolidar como uma das mais importantes pesquisadoras de Estudos Culturais no Brasil. Para ela, que atua como professora de Teoria Crítica da Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o espírito de coletividade cultivado em 68 se manifesta na vida pulsante das periferias, motivo pelo qual ela se faz otimista quanto ao futuro.

“A revolução de 68 não aconteceu, mas acho que ela formulou uma agenda. Hoje a ecologia está na pauta nacional, as minorias têm políticas próprias pra si. Você não tem mais um projeto único. Ele implodiu e as ruínas germinam hoje em vários espaços”, afirma.

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O declínio do efeito “Cidade Partida”

Atualizado em 11 de setembro | 7:08 PM

Publicado originalmente na Revista Carioquice, n. 1, ano I, em abr/mai/jun de 2004.


“O funk carioca é a atitude de soltar o corpo ao escracho, reinventar o ridículo para transformá-lo em estilo, conforme um texto quase manifesto que defende a sua índole libertária”

Foi admirando o Paço Imperial, visto da perspectiva da Praça XV, que me veio à cabeça um dado precioso para a compreensão do perfil cultural do Rio de Janeiro. Se hoje, o Paço é um centro cultural ativo, contemporâneo e, sobretudo, múltiplo, houve um dia que, deixando de ser a Casa dos Governadores, foi transformado, às pressas, no Paço Real tornando-se o cenário de um fato tão anacrônico como significativo. Foi no Paço que se instalou, em estado de emergência, D. João VI, a família real e aproximadamente 18 mil pessoas entre empregados e membros da corte portuguesa. Ou seja: num momento em que as colônias portuguesas e espanholas exercitavam seu direito de rebelião e conflito contra o jugo dos colonizadores europeus, no Rio de Janeiro em plena Praça XV, oferecíamos abrigo à corte portuguesa que chegava às pressas, fugida, pedindo asilo a seus súditos, formatando na comunidade local estranhos sistemas de hierarquia e de articulação entre culturas, valores e poderes.

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Literatura Marginal

Atualizado em 11 de setembro | 7:05 PM

No quadro que estamos tratando aqui, ou seja, a cultura como exemplo de resistência e produção de novos sentidos políticos em países em desenvolvimento inseridos no contexto da globalização, a literatura também mostra algumas propostas e mudanças estruturais no sentido de sua criação e divulgação. Nestes casos, a própria noção de cultura, e por tabela a de literatura, é forçada a repensar seus parâmetros e até mesmo, – o que mais interessante -, sua função social.

É neste sentido que reafirmo que as características e as estratégias das expressões artísticas vindas das periferias vêm surpreendendo como a grande novidade deste início de século com o desejo de responder ao acirramento da intolerância racial e às taxas crescentes de desemprego provenientes dos quadros econômicos e culturais globalizados.

A literatura também não ficou imune a estes novos inputs. É da tradição da série literária brasileira, uma atenção significativa aos temas da miséria, da fome, das desigualdades sociais e, ultimamente, da violência urbana. E, como já mencionei anteriormente, é da nossa tradição cultural, o engajamento político e o compromisso social do intelectual, neste caso, do escritor. Nesse sentido, um detalhe interessante no conjunto de nossa produção literária é o fato de que, ao contrário de nossos irmãos latino-americanos, nunca tivemos o testemonio como gênero literário.

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Intelectuais x Marginais

Atualizado em 11 de setembro | 7:03 PM

Tradicionalmente, nós, intelectuais, sempre fomos os porta vozes das demandas populares e protagonistas dos movimentos de transformação (em casos mais otimistas, da “revolução”) social na área dos projetos artísticos e literários. Hoje, parece que alguma coisa de bastante diferente está no ar e que vamos ter que repensar, com radicalidade, nosso papel como intelectuais tanto no campo social, como no acadêmico e artístico. Falo das propostas inovadoras da cultura hip hop & de tantas outras manifestações artísticas produzidas na periferia das grandes cidades e que está marcando com força total a produção cultural desse nosso início de século. Vou observar aqui, a título de exemplo, apenas a área mais low key dessa produção que é o caso da literatura.

É também da tradição da série literária brasileira, o engajamento político e o compromisso social do escritor e, portanto, uma atenção significativa aos temas da miséria, da fome, das desigualdades sociais e, ultimamente, da violência urbana.

Com a subida da violência 1987/88, emblematicamente datada pelos arrastões no Arpoador, o interesse da classe media sobre o assunto começa a se manifestar de maneira mais clara e recorrente Em 1993, o tema da violência atinge seu ápice, só que agora a mobilização da opinião pública é produzida no sentido inverso, o da violência policial.

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Entrevista para Zuenir Ventura

Atualizado em 19 de agosto | 6:01 PM

– Você , que foi ícone daqueles tempos, como ficou depois que a festa acabou?

HB: Eu não fui ícone nada. Você é que inventou isso, que criou esse personagem, que, aliás, adorei e vivo dele! Mas quem inventou foi você.

– Mas, enfim, como você ficou depois de 68?

HB: Fiquei com a herança. Acho que o que 68 deu pra gente foi uma alforria, uma energia_ não sei se o nome é utopia _ uma vontade quase obsessiva de que as coisas acontecessem e, sobretudo, mudassem. Não é difícil conferir como, em muitos,  casos essa energia ainda está ativa. Existe um teórico americano muito bom, o Fredric Jameson, que, como nós padece da orfandade das utopias dos anos 60, que procura identificar para onde foi essa superinflação de energias da nossa geração. Uma primeira coisa , que não é dele, mas que ´é muito interessante é que , pelo menos na academia, muitos inconformados com a perda daquele momento eufórico, que participaram na New Left Review, da nova esquerda, dos movimentos sociais que emergiram  pós 60, foram se abrigar numa disciplina nova, muito interessante nesse sentido de abrigo possível da academia de esquerda, que são os Estudos Culturais, especialmente em sua corrente saxônica.

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