Rio de Janeiro

Exposição Estética da Periferia | 2005 e 2007

Atualizado em 15 de setembro | 9:44 AM

_Exposição Estética da Periferia Recife | 2007

 

Há alguns dias, o jornal londrino Times abria uma página elogiosa e dava cinco estrelas para o Show da Banda Afro Reggae que acontecera na véspera, platéia lotada, no Barbicon Center. Isso é uma pequena mostra da qualidade e do poder de difusão da estética da periferia hoje no Brasil.

O que é importante observar é que isso acontece num cenário internacional, onde  fala-se da ameaça da  “humanidade excedente” ou de uma favelização progressiva em nível global. O  relatório da Unesco Habitat demonstra que a equação excesso de população + desemprego aponta para um crescimento da população favelada mundial na proporção de  25.000.000 de pessoas por ano, desenhando um  perfil dramático de desigualdade nas nações periféricas.

Paradoxalmente, ao lado desses números inquietantes, é a cultura da periferia e seu poder de resistência e criatividade artística que vem se firmando como a grande novidade que vai marcar a cultura do século XXI.

Seja o traço forte do grafite, expressão afirmativa de arte pública, seja a música, potencializando seu poder de ligação entre o asfalto e a favela, o rap com a levada poderosa da poesia de denúncia, a vitalidade do funk  investindo no saber da festa como fator  agregador de diferenças, ou a moda, a arquitetura e o design trazendo novas soluções  para o mercado tradicional de cultura.

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A questão agora é outra

Atualizado em 10 de maio | 12:13 AM

Ferrez está na guerra há um bom tempo. Acredito que ele vem atuando desde quando o hip hop começa a ganhar essa voz rouca e forte que está ecoando na marra e com garra na cena cultural brasileira.

Nessa época, também surgia, de forma mais explicita, o interesse das classes medias pela intensificação da violência e dos confrontos policiais que se multiplicavam nas periferias urbanas. Alguns emblemáticos como, no Rio, o massacre da Candelária, com o assassinato brutal de 8 crianças das 50 que dormiam nas escadarias da Igreja por policiais, logo seguido por outro massacre não menos traumático que foi o massacre de Vigário Geral responsável pela morte de 21 inocentes também pela polícia.

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Entrevista com Lélia Coelho

Atualizado em 15 de setembro | 11:40 AM

Por Heloísa Buarque de Hollanda

Heloisa: Lélia, pelo que conheço de você, você nasceu no bairro de Santa Teresa, Rio de Janeiro, mas é mineira. Estou certa?

Lélia: Certíssima. Eu me considero mesclada. Uma híbrida! Tenho/tinha uma grande família mineira, de Varginha, Três Pontas, Campos Gerais, e uma mãe e um filho nascidos e vidrados no Rio de Janeiro. Minha infância foi um ir e vir entre a cidade grande do mar  e as cidades pequenas da montanha. Serra.

Heloisa: O mineiro era seu pai?

Lélia: Era. E muitíssimo.  “Deep Minas”. Em Minas existe uma teoria que diz que os verdadeiros mineiros são, como dizia Francisco Iglesias, do território do centro, que é o território das Minas do ouro. Isso quer dizer Ouro Preto, Mariana, Sabará, aquela região toda, com exceção de Diamantina, que fica mais para cima. Mas eu sei por experiência própria que o sul é, também  tão Minas profunda quanto o território do centro. Ainda não consegui descobrir todas as outras variantes. Minas sempre começa tarde para os seus aprendizes. Mas, resumindo, quando  entrei na adolescência e comecei a discernir melhor as coisas, podendo tomar distância para analisá-las, me vi sempre muito fascinada  pelo cotidiano das metáforas mineiras, intrínsecas, oblíquas.

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O declínio do efeito “Cidade Partida”

Atualizado em 11 de setembro | 7:08 PM

Publicado originalmente na Revista Carioquice, n. 1, ano I, em abr/mai/jun de 2004.


“O funk carioca é a atitude de soltar o corpo ao escracho, reinventar o ridículo para transformá-lo em estilo, conforme um texto quase manifesto que defende a sua índole libertária”

Foi admirando o Paço Imperial, visto da perspectiva da Praça XV, que me veio à cabeça um dado precioso para a compreensão do perfil cultural do Rio de Janeiro. Se hoje, o Paço é um centro cultural ativo, contemporâneo e, sobretudo, múltiplo, houve um dia que, deixando de ser a Casa dos Governadores, foi transformado, às pressas, no Paço Real tornando-se o cenário de um fato tão anacrônico como significativo. Foi no Paço que se instalou, em estado de emergência, D. João VI, a família real e aproximadamente 18 mil pessoas entre empregados e membros da corte portuguesa. Ou seja: num momento em que as colônias portuguesas e espanholas exercitavam seu direito de rebelião e conflito contra o jugo dos colonizadores europeus, no Rio de Janeiro em plena Praça XV, oferecíamos abrigo à corte portuguesa que chegava às pressas, fugida, pedindo asilo a seus súditos, formatando na comunidade local estranhos sistemas de hierarquia e de articulação entre culturas, valores e poderes.

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Conexões

Atualizado em 10 de setembro | 7:10 PM

O grande exotismo identitário do Brasil, o mito da democracia racial, transborda para bem além da clássica afirmação de uma hipotética ausência do racismo entre nós. Na realidade, esse mito invade outras áreas de conflito social como as relações de gênero e as relações entre classes sociais sob o signo de uma estrutural cordialidade, aquilo que vem do coração. Esse mito pode ter várias leituras e, ao longo dos anos, foi aplaudido, abominado, execrado, amado. Hoje a academia e certos segmentos dos movimentos sociais começam a compreender este consenso, de acento lusitano colonial, mais do que como uma verdade, mas como uma certa estratégia de unir politicamente um país tão extenso e multicultural, cortado por raças e classes convivendo secularmente em extrema desigualdade. Estratégia ainda de enfrentamento do império colonizador português que, numa circunstância  inédita e quase-cômica da História colonial latino americana, acuado,  vem se asilar na colônia fugindo de Napoleão Bonaparte.  Ou seja, o antagonismo e as tensões entre a colônia e a metrópole, entre o colonizador poderoso e o colonizado rebelde, que escreve a história dos séc. XIX e XX,  entre nós, conheceu uma estranha especificidade. A corte portuguesa, acuada, pede asilo em terras brasileiras. Não é difícil imaginar , nesse quadro perverso, as possíveis inversões das lógicas de dominação que permeiam a política e a cultura brasileiras.

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