política

Antes e depois da meia-noite

Atualizado em 27 de maio | 1:52 AM

ANTES E DEPOIS DA MEIA-NOITE

Para a professora Heloísa Buarque de Hollanda, 1968 pautou uma agenda de políticas para as minorias

Ela hospedou um dos réveillons mais comentados da história do Rio de Janeiro. Na virada de 67 para 68, a “casa do Luís e da Helô” recebeu artistas, políticos, jornalistas e socialites para uma celebração que prenunciaria a convulsão de transformações prestes a vingar no ano vindouro. Para se ter uma idéia do alvoroço que tomou conta do espaço, só naquela noite 17 casamentos foram desfeitos – inclusive o da própria anfitriã. Heloísa Buarque de Hollanda saiu dali para se consolidar como uma das mais importantes pesquisadoras de Estudos Culturais no Brasil. Para ela, que atua como professora de Teoria Crítica da Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o espírito de coletividade cultivado em 68 se manifesta na vida pulsante das periferias, motivo pelo qual ela se faz otimista quanto ao futuro.

“A revolução de 68 não aconteceu, mas acho que ela formulou uma agenda. Hoje a ecologia está na pauta nacional, as minorias têm políticas próprias pra si. Você não tem mais um projeto único. Ele implodiu e as ruínas germinam hoje em vários espaços”, afirma.

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Entrevista com Heloisa, por Luciano Trigo

Atualizado em 27 de maio | 1:33 AM

Publicado originalmente no Blog Acesso, do Instituto Votorantim.

 

Você nasceu em Ribeirão Preto. Fale um pouco sobre sua infância e a atmosfera familiar. Quais eram as conversas em casa, que lembranças foram marcantes? Houve episódios, já na adolescência, que de certa forma determinaram ou ajudaram a traçar seu futuro itinerário?

Heloisa Buarque. Minha família era um família de folhetim: Minha mãe filha de fazendeiros de Minas Gerais, meio princesa, e meio pai um plebeu baiano medico, violinista e comunista, que chega em ribeirão Preto para tentar a vida. É claro que minha mãe se apaixonou por ele. É claro que a familia dela foi contra. Ela fugiu com ele e foram felizes para sempre. Acho que nesse panorama eu tinha que acreditar na aventura e na transgressão…

Tendo vivido o sonho e a utopia dos anos 60, como você enxerga a relação da juventude hoje com a cultura e a política?

Heloisa Buarque. Acho que os jovens de hoje tem um quadro político e sobretudo econômico bem diferente do nosso e também bem mais difícil.  Nos anos 60 estávamos vivendo uma época de estabilidade econômica e mesmo de fartura, portanto o sonho era totalmente permitido. Hoje, o pesadelo do desemprego é um fato real e os jovens tem que lidar com isso.

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Entrevista com Waly Salomão

Atualizado em 15 de setembro | 12:03 PM

Por Heloisa Buarque de Hollanda

O poeta Waly Salomão é o novo Secretário Nacional do Livro integrando a nova equipe do Ministério da Cultura. Waly integra a nova equipe do Ministério da Cultura que tomou posse cantando, sugerindo uma gestão promissora pautada pelo sonho, pela catimba e pela bandeira da Imaginação no Poder.

HBH: Que você é poeta polivalente, radical e premiado eu já sei. O que me interessa agora descobrir é o Waly político, executivo, que acaba de assumir a Secretaria Nacional do Livro. Como esse personagem é muito novo para mim, vou com calma e pergunto primeiro: qual é a posição efetiva do livro e da leitura na sua vida?

WALY: Desde que me entendo por gente, o livro tem uma posição central, como se fosse um ícone dentro da casa. Ainda bem menino, me lembro de minha mãe discutindo com meus irmãos e irmãs mais velhos os dois volumes, daquela velha edição da Ed. Globo do Rio Grande do Sul, de Guerra e Paz de Tolstoi. Eles discutiam a trama dos livros e seus personagens, como se estivessem discutindo uma novela mexicana. Ana Karenina, por exemplo, era centro de conversa como se ela fosse uma personagem da Glória Perez.

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Entrevista com Paulo Lins

Atualizado em 15 de setembro | 11:47 AM

Por Heloísa Buarque de Hollanda

 

HBH: Quando você escreveu Cidade de Deus, você imaginou o sucesso e o impacto, tudo que esse livro ia render para si próprio e para o seu entorno? Você já tinha essa perspectiva, antes do livro ser lançado?

Paulo Lins: Eu tinha.  E por isso não desisti. Eu sabia, com a maior clareza, que eu estava fazendo alguma coisa que ia ser fora do normal e que ia repercutir.

HBH: Sei que você estudou Letras na UFRJ, mas com mundo literário propriamente dito, você tinha algum contato?

PL: Tinha um pouco. Nos anos 80 eu já estava nesse meio, fazia poesia, discutia com meus amigos da faculdade, portanto já dava para sacar o que ia acontecer.

HBH: Você começou a escrever esse livro ainda muito jovem, não foi?

PL: Era, quando comecei a escrever o livro eu estava na Universidade ainda, eu tinha 20 e poucos anos.

HBH: Mas eu também sei que Cidade de Deus levou anos sendo escrito.

PL: É verdade. Eu parei várias vezes, abandonei o livro por três anos, ia dar aula, batalhar a bolsa do CNPq, as verbas da Faperj, essa loucura que é a vida de estudante por aqui. 

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Conversa de amiga, lição de mestra

Atualizado em 15 de setembro | 11:46 AM

Marlyse Meyer é uma mulher bela, elegante, extremamente vaidosa e, como diagnosticou Antônio Cândido, um animal acadêmico. Quanto a isso não há dúvida. Entretanto, sua natureza acadêmica, ainda que visceral, me parece apresentar certos traços bastantes particulares que merecem um pequeno exame.  Antes de qualquer coisa, salta aos olhos de quem lê ou convive com Marlyse, sua obstinada curiosidade. Pesquisadora nata, persegue com afinco toda e qualquer pista sugerida por leituras,  documentos, fontes diversas, subtextos, conversas. Uma curiosidade intelectual com essa intensidade poderia facilmente levar e, geralmente, leva, à dispersão. Entretanto, no nosso caso, a obstinação da descoberta impede qualquer acidente de percurso. Essa curiosidade peculiar aliada à sua imensa capacidade de escuta me parece, de fato, o traço que mais define a atividade intelectual de Marlyse. Mas alguns atributos acessórios também  não são desprezíveis. E aqui eu destacaria dois fatores em especial. Uma independência intelectual ímpar, o segredo atrás do design de objetos de pesquisa aparentemente insólitos os quais batiza de altos e baixos estudos, ficção de segundo time, novelas sem fronteiras  entre outros. Um estilo de escrita ensaística pessoal e intransferível, e uma generosidade  intelectual estrutural  que lhe permitiu ter formado escola e gerado  uma respeitável linhagem de descendência acadêmica.

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