literatura

O destino dos bons rios

Atualizado em 15 de setembro | 12:00 PM

Publicado originalmente por Heloisa Buarque de Hollanda, no Caderno B, do Jornal do Brasil, em  14/05/1983.

 

A literatura (e a cultura) de resistência dos anos 70 — nossas barricadas do desejo — por volta de 1978, começa progressivamente a evidenciar uma saudável e altamente desejável tendência à “desburocratização” no que diz respeito a suas palavras de ordem e estratégias. A conquista de mercado (e a conseqüente dissolução de guetos), o desejo do diálogo amplo e irrestrito e a valorização da qualidade técnica e artística dos produtos são sintomas de um remanejamento visível no campo da produção cultural que empunhou a bandeira da contracultura e dos circuitos alternativos no período pré-abertura. Isso, entretanto, não significa que a produção independente ou marginal tenha desaparecido. A proliferação de grupos, autores e cooperativas neste sentido demonstram o contrário. Mas é importante ressaltar que a poesia marginal de hoje não se identifica com aquela que se firmou no início da década passada, marcada a ferro e fogo pela conjuntura político-social do momento e pela inquietação dos movimentos contestatários jovens e internacionais.

Retomando as sugestões da ideologia vitalista do começo do século, e mesmo radicalizando-as, os movimentos undergrounds que se definiram, no Brasil, na virada dos 60 para os 70, faziam explodir no discurso do comportamento e da produção cultural — ao som do rock e da granada — a guerrilha contra a cultura dominante em suas formas legitimadas de poder e do saber.

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Entrevista com JB Stuart Hall

Atualizado em 15 de setembro | 11:59 AM

Entrevista feita por Heloisa Buarque de Hollanda (professora da UFRJ e diretora da Aeroplano Editora e Consultoria) e Liv Sovik (professora da UFRJ e organizadora do livro de Stuart Hall,  Da Diáspora: identidades e mediações culturais, Editora UFMG, 2003) .

 

Stuart Hall é hoje, no Brasil, um reconhecidíssimo nome da cultura acadêmica. Um dos fundadores da polêmica “pós-disciplina”, os Estudos Culturais, Hall dirigiu o histórico Centro de Birmingham em seu período mais quente e produtivo.  Jamaicano, vive na Inglaterra desde 1951  onde é conhecido como um intelectual engajado nos debates sobre as dimensões político –culturais da globalização, a política nacional e os movimentos anti-racistas. Tem dois livros publicados no Brasil: Identidades culturais na Pós-Modernidade e Da diáspora: identidades e mediações culturais.

Nesta entrevista, Hall fala sobre  o impacto de sua condição de imigrante jamaicano  em sua produção intelectual, como nasceram os Estudos Culturais, porque não se preocupa em publicar livros, as perspectivas do engajamento do intelectual hoje e como ainda é possível se trabalhar criticamente a globalização.

Você deixou a Jamaica ainda como estudante e hoje é um dos intelectuais mais importantes da Inglaterra. Imagino que esse deslocamento da colônia para a metrópole tenha marcado seu pensamento e atuação profissional.

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Entrevista com Raimundo Carrero

Atualizado em 15 de setembro | 11:49 AM

Por Heloísa Buarque de Hollanda

 

Heloisa – Raimundo, de onde é que você veio com tanta garra?

Raimundo Eu nasci em 30 de dezembro de 47 numa cidade chamada Salgueiro, no sertão de Pernambuco, sertãozão, o sertão mais distante.

Heloisa E foi lá que você descobriu a literatura?

Raimundo Foi eu tinha um irmão mais velho que era ator de circo e um intelectual seríssimo. Ele me deixou uma biblioteca inteira  debaixo dos balcões da loja de  roupas e chapéu de meu pai.. E eu fui descobrindo que , debaixo dos balcões, haviam muitos livros. Eu só não podia levar os livros para casa porque quando meu irmão voltasse, os livros deveriam estar lá.  E eu ficava horas lendo Zé Lins, Graciliano, Ibsen, Shakespere, Bernard Shaw.

Heloisa Aí você começou a escrever logo?

Raimundo – Comecei sim, comecei escrever usando os papeis lá da loja. A solidão do sertão é muito grande, é uma solidão bem diferente da solidão daqui. É uma solidão cheia de sol, de silêncio, mas muito pegajosa, muito pesada. A solidão da cidade grande é sombria, cinzenta, a do sertão é pesada, eu chamo de solidão oca. Parece que dentro a solidão tem outra solidão.

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Entrevista com Paulo Lins

Atualizado em 15 de setembro | 11:47 AM

Por Heloísa Buarque de Hollanda

 

HBH: Quando você escreveu Cidade de Deus, você imaginou o sucesso e o impacto, tudo que esse livro ia render para si próprio e para o seu entorno? Você já tinha essa perspectiva, antes do livro ser lançado?

Paulo Lins: Eu tinha.  E por isso não desisti. Eu sabia, com a maior clareza, que eu estava fazendo alguma coisa que ia ser fora do normal e que ia repercutir.

HBH: Sei que você estudou Letras na UFRJ, mas com mundo literário propriamente dito, você tinha algum contato?

PL: Tinha um pouco. Nos anos 80 eu já estava nesse meio, fazia poesia, discutia com meus amigos da faculdade, portanto já dava para sacar o que ia acontecer.

HBH: Você começou a escrever esse livro ainda muito jovem, não foi?

PL: Era, quando comecei a escrever o livro eu estava na Universidade ainda, eu tinha 20 e poucos anos.

HBH: Mas eu também sei que Cidade de Deus levou anos sendo escrito.

PL: É verdade. Eu parei várias vezes, abandonei o livro por três anos, ia dar aula, batalhar a bolsa do CNPq, as verbas da Faperj, essa loucura que é a vida de estudante por aqui. 

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Conversa de amiga, lição de mestra

Atualizado em 15 de setembro | 11:46 AM

Marlyse Meyer é uma mulher bela, elegante, extremamente vaidosa e, como diagnosticou Antônio Cândido, um animal acadêmico. Quanto a isso não há dúvida. Entretanto, sua natureza acadêmica, ainda que visceral, me parece apresentar certos traços bastantes particulares que merecem um pequeno exame.  Antes de qualquer coisa, salta aos olhos de quem lê ou convive com Marlyse, sua obstinada curiosidade. Pesquisadora nata, persegue com afinco toda e qualquer pista sugerida por leituras,  documentos, fontes diversas, subtextos, conversas. Uma curiosidade intelectual com essa intensidade poderia facilmente levar e, geralmente, leva, à dispersão. Entretanto, no nosso caso, a obstinação da descoberta impede qualquer acidente de percurso. Essa curiosidade peculiar aliada à sua imensa capacidade de escuta me parece, de fato, o traço que mais define a atividade intelectual de Marlyse. Mas alguns atributos acessórios também  não são desprezíveis. E aqui eu destacaria dois fatores em especial. Uma independência intelectual ímpar, o segredo atrás do design de objetos de pesquisa aparentemente insólitos os quais batiza de altos e baixos estudos, ficção de segundo time, novelas sem fronteiras  entre outros. Um estilo de escrita ensaística pessoal e intransferível, e uma generosidade  intelectual estrutural  que lhe permitiu ter formado escola e gerado  uma respeitável linhagem de descendência acadêmica.

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