literatura marginal

A questão agora é outra

Atualizado em 10 de maio | 12:13 AM

Ferrez está na guerra há um bom tempo. Acredito que ele vem atuando desde quando o hip hop começa a ganhar essa voz rouca e forte que está ecoando na marra e com garra na cena cultural brasileira.

Nessa época, também surgia, de forma mais explicita, o interesse das classes medias pela intensificação da violência e dos confrontos policiais que se multiplicavam nas periferias urbanas. Alguns emblemáticos como, no Rio, o massacre da Candelária, com o assassinato brutal de 8 crianças das 50 que dormiam nas escadarias da Igreja por policiais, logo seguido por outro massacre não menos traumático que foi o massacre de Vigário Geral responsável pela morte de 21 inocentes também pela polícia.

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Heloisa Buarque de Hollanda e o longo caminho da academia para as periferias

Atualizado em 28 de outubro | 11:38 AM

Publicado originalmente por Angelo Mendes Corrêa no Verbo21, em outubro 2010.


Paulista de Ribeirão Preto, ainda pequena Heloísa Buarque de Hollanda transferiu-se para o Rio de Janeiro com a família. Lá cursou a graduação em Letras na Pontifícia Universidade Católica (PUC/RJ) e o mestrado e doutorado em Teoria da Literatura na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na Columbia University, em Nova York, fez pós-doutorado na mesma área. Em 2009, após mais de quatro décadas de intensas atividades na UFRJ, aposentou-se na condição de livre-docente. De forma paralela à docência e à pesquisa, atuou como jornalista, com passagem pelo Jornal do Brasil; radialista, na Rádio MEC; apresentadora de televisão, na TVE/RJ; diretora do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro e editora, dirigindo a Aeroplano, voltada para projetos editoriais alternativos, além de ter sido a organizadora da importante antologia 26 Poetas Hoje, em 1976, que significou verdadeiro marco na história recente da literatura brasileira. Nesta entrevista , além de relembrar os momentos mais marcantes de sua prolífica e ímpar trajetória , contou sobre sua paixão mais recente: a Universidade das Quebradas.

Fato que muitos desconhecem é que você nasceu em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo.

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Literatura Marginal

Atualizado em 11 de setembro | 7:05 PM

No quadro que estamos tratando aqui, ou seja, a cultura como exemplo de resistência e produção de novos sentidos políticos em países em desenvolvimento inseridos no contexto da globalização, a literatura também mostra algumas propostas e mudanças estruturais no sentido de sua criação e divulgação. Nestes casos, a própria noção de cultura, e por tabela a de literatura, é forçada a repensar seus parâmetros e até mesmo, – o que mais interessante -, sua função social.

É neste sentido que reafirmo que as características e as estratégias das expressões artísticas vindas das periferias vêm surpreendendo como a grande novidade deste início de século com o desejo de responder ao acirramento da intolerância racial e às taxas crescentes de desemprego provenientes dos quadros econômicos e culturais globalizados.

A literatura também não ficou imune a estes novos inputs. É da tradição da série literária brasileira, uma atenção significativa aos temas da miséria, da fome, das desigualdades sociais e, ultimamente, da violência urbana. E, como já mencionei anteriormente, é da nossa tradição cultural, o engajamento político e o compromisso social do intelectual, neste caso, do escritor. Nesse sentido, um detalhe interessante no conjunto de nossa produção literária é o fato de que, ao contrário de nossos irmãos latino-americanos, nunca tivemos o testemonio como gênero literário.

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A política do hip hop nas favelas brasileiras

Atualizado em 10 de setembro | 7:06 PM

Um dos fenômenos mais alarmantes desse início de século são os números da progressiva  favelização e  desemprego, muitas vezes também chamada de “humanidade excedente”, especialmente em paises em desenvolvimento. Segundo Mike Davis,  no livro The  planet of slums, um estudo bastante impressionante,  a população favelada,  aferida pelo  UN-Habitat report, cresce hoje 25.000.000 de pessoas por ano.  Este mesmo relatório avalia que os novos pobres periurbanos  e suas comunidades informais ou favelas, em 2020, chegará de 45% a 50% do total dos moradores da cidade.

Este Big Bang da pobreza urbana, parece diretamente ligado às políticas financeiras pós consenso de Washington,  quando o FMI  e o Banco Mundial usaram alavancagem da dívida para reestruturar a economia do terceiro mundo promovendo o que chamamos de a violência do “ajuste” e recuo do Estado .

No Brasil, os números não são menos dramáticos. A população que vive em favelas ou “aglomerados subnormais”  cresceu 45% nos últimos anos, três vezes mais que a média do crescimento demográfico do país. Hoje, temos  51,7 milhões de favelados,  resultado de uma trágica equação de mercado,  tornando o Brasil o país a terceira maior população favelada do mundo, atrás apenas de Índia e China.

Apesar dessas alarmantes estatísticas, é possível identificar algumas respostas muito interessantes a este cenário, sem dúvida, sombrio.

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Viva Favela

Atualizado em 19 de agosto | 4:59 PM

Julho de 2007

 

1 – Qual a importância política da chamada Literatura Marginal?

R: É enorme. A nossa tradição literária ou, melhor, nossa “missão” como autores  literários,  como diz Antonio Cândido, sempre foi a de falar pelos “pobres” de mostrar um engajamento com a questão social. Existe até um livro importante do crítico Roberto Schwartz chamado O Pobre na Literatura Brasileira. Portanto como tema, a periferia sempre foi um eixo literário importante. Mas agora, pela primeira vez, desde de Carolina Maria de Jesus, temos realmente uma literatura feita pelos sujeitos dessa periferia, com uma grande força literária e com forte impacto político.

 

2 – Desde o lançamento de Cidade de Deus, como você acha que os círculos literários estão reagindo ao movimento?

R: Os círculos literários são vários na realidade. O da academia e Universidades reagem um pouco, discutindo seu valor literário propriamente dito. Mas também esse aspecto reativo da Universidade a qualquer manifestação nova ou não “classificada” sempre acontece. Com honrosas exceções, como a de Roberto Schwartz, o grande incentivador e responsável pela publicação de Cidade de Deus. O círculo dos críticos aceitaram razoavelmente bem e o círculo dos editores está ainda meio temeroso. Paulo Lins, por ter sido um best seller, conquistou seu lugar no mercado.

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