literatura brasileira

Intelectuais x Marginais

Atualizado em 11 de setembro | 7:03 PM

Tradicionalmente, nós, intelectuais, sempre fomos os porta vozes das demandas populares e protagonistas dos movimentos de transformação (em casos mais otimistas, da “revolução”) social na área dos projetos artísticos e literários. Hoje, parece que alguma coisa de bastante diferente está no ar e que vamos ter que repensar, com radicalidade, nosso papel como intelectuais tanto no campo social, como no acadêmico e artístico. Falo das propostas inovadoras da cultura hip hop & de tantas outras manifestações artísticas produzidas na periferia das grandes cidades e que está marcando com força total a produção cultural desse nosso início de século. Vou observar aqui, a título de exemplo, apenas a área mais low key dessa produção que é o caso da literatura.

É também da tradição da série literária brasileira, o engajamento político e o compromisso social do escritor e, portanto, uma atenção significativa aos temas da miséria, da fome, das desigualdades sociais e, ultimamente, da violência urbana.

Com a subida da violência 1987/88, emblematicamente datada pelos arrastões no Arpoador, o interesse da classe media sobre o assunto começa a se manifestar de maneira mais clara e recorrente Em 1993, o tema da violência atinge seu ápice, só que agora a mobilização da opinião pública é produzida no sentido inverso, o da violência policial.

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A política do hip hop nas favelas brasileiras

Atualizado em 10 de setembro | 7:06 PM

Um dos fenômenos mais alarmantes desse início de século são os números da progressiva  favelização e  desemprego, muitas vezes também chamada de “humanidade excedente”, especialmente em paises em desenvolvimento. Segundo Mike Davis,  no livro The  planet of slums, um estudo bastante impressionante,  a população favelada,  aferida pelo  UN-Habitat report, cresce hoje 25.000.000 de pessoas por ano.  Este mesmo relatório avalia que os novos pobres periurbanos  e suas comunidades informais ou favelas, em 2020, chegará de 45% a 50% do total dos moradores da cidade.

Este Big Bang da pobreza urbana, parece diretamente ligado às políticas financeiras pós consenso de Washington,  quando o FMI  e o Banco Mundial usaram alavancagem da dívida para reestruturar a economia do terceiro mundo promovendo o que chamamos de a violência do “ajuste” e recuo do Estado .

No Brasil, os números não são menos dramáticos. A população que vive em favelas ou “aglomerados subnormais”  cresceu 45% nos últimos anos, três vezes mais que a média do crescimento demográfico do país. Hoje, temos  51,7 milhões de favelados,  resultado de uma trágica equação de mercado,  tornando o Brasil o país a terceira maior população favelada do mundo, atrás apenas de Índia e China.

Apesar dessas alarmantes estatísticas, é possível identificar algumas respostas muito interessantes a este cenário, sem dúvida, sombrio.

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Paixão é fundamental

Atualizado em 10 de setembro | 6:57 PM

Publicado originalmente no Jornal do Brasil, em 28/11/1981.

 

Direitos autorais, a defesa do livro nacional, a urgência de encarar os problemas da distribuição e divulgação, a relação com os editores, os subsídios estatais e até mesmo, quem sabe, a posição do escritor nas relações de produção poderão (e já não era sem tempo) povoar os tradicionais sussurros de porta de livraria.

Por sua vez, o Sindicato Dos Escritores do Rio de Janeiro, mobilizado, festeja a eleição de seu novo presidente, o cientista social e romancista Darcy Ribeiro. A escolha é no mínimo bem-vinda, pois, tendo-se em vista o caráter tradicionalmente atípico da categoria escritor no Brasil, a dupla instrumentalidade de Darcy talvez consiga a proeza de fazer avançar o debate em torno da situação concreta do escritor no campo da produção intelectual e artística. É interessante notar-se a oportunidade dessa escolha no momento em que o escritor brasileiro, como profissional, ensaia seus primeiros passos. Nesse sentido, a indicação e a eleição de Darcy me parecem sintomas expressivos de um desejo concreto de novos tempos e medidas. Para além de suas várias habilidades, Darcy Ribeiro é notoriamente conhecido como um apaixonado. Os traços que desenham sua imagem pública trazem as cores do administrador com a fé inabalável nos grandes projetos, do cientista sonhador e do romancista engajado no conhecimento da realidade brasileira.

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Observações: críticas ou nostálgicas?

Atualizado em 10 de setembro | 6:56 PM

Publicado originalmente na Revista Poesia Sempre, n. 8, ano 5, da Fundação Biblioteca Nacional, em  junho de 1997.

 

Revisitar trabalhos antigos traz sempre uma dor difusa. Ainda mais este, os 26 Poetas Hoje, que se constituiu de certa forma como minhas primeiras impressões digitais profissionais. O que será que hoje, passados 20 anos de sua publicação, eu diria sobre este trabalho?  Não escolhi organizar essa Antologia. Portanto, não foi um crime premeditado, mas seguramente um gesto inocente também não foi. Se houve uma questão que povoou, com ansiedade, toda minha trajetória profissional, foi a das relações entre política e cultura.

Estávamos no início da década de 70, uma época de grande susto e medo, na qual as universidades, o jornalismo e a produção cultural,  à imagem e semelhança do Congresso, entraram em recesso por tempo indeterminado. Da euforia Tropicalista nas artes e nas manifestações políticas, passou-se à disforia que meu amigo Zuenir Ventura, num certeiro e memorável balanço da década, definiu como o vazio cultural. Mas não é essa a história que me cabe contar nesse momento.

O que interessa é que, por volta de 1972-1973, surgiu, assim como se fosse do nada, um inesperado número de poetas e de poesia tomando de assalto nossa cena cultural, especialmente aquela freqüentada pelo consumidor jovem de cultura, cujo perfil, até então, vinha sendo definido pelo gosto da música, do cinema, dos shows e dos cartoons.

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O destino dos bons rios

Atualizado em 10 de setembro | 6:54 PM

Publicado originalmente por Heloisa Buarque de Hollanda no Caderno B, do Jornal do Brasil, em 14/05/1983.

 

A literatura (e a cultura) de resistência dos anos 70 — nossas barricadas do desejo — por volta de 1978, começa progressivamente a evidenciar uma saudável e altamente desejável tendência à “desburocratização” no que diz respeito a suas palavras de ordem e estratégias. A conquista de mercado (e a conseqüente dissolução de guetos), o desejo do diálogo amplo e irrestrito e a valorização da qualidade técnica e artística dos produtos são sintomas de um remanejamento visível no campo da produção cultural que empunhou a bandeira da contracultura e dos circuitos alternativos no período pré-abertura. Isso, entretanto, não significa que a produção independente ou marginal tenha desaparecido. A proliferação de grupos, autores e cooperativas neste sentido demonstram o contrário. Mas é importante ressaltar que a poesia marginal de hoje não se identifica com aquela que se firmou no início da década passada, marcada a ferro e fogo pela conjuntura político-social do momento e pela inquietação dos movimentos contestatários jovens e internacionais.

Retomando as sugestões da ideologia vitalista do começo do século, e mesmo radicalizando-as, os movimentos undergrounds que se definiram, no Brasil, na virada dos 60 para os 70, faziam explodir no discurso do comportamento e da produção cultural — ao som do rock e da granada — a guerrilha contra a cultura dominante em suas formas legitimadas de poder e do saber.

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