literatura brasileira

Matriarcas do Ceará – D. Federalina de Lavras

Atualizado em 14 de setembro | 7:46 PM

Rachel de Queiroz
Heloisa Buarque de Hollanda (*)

 

Em uma conversa sobre mulheres, feminismo e literatura chegamos às matriarcas nordestinas. Partimos da idéia tradicional da “mulher brasileira”,figura poderosa, sedutora e dona de uma linguagem corporal que desafiaria os modelos clássicos da mulher oprimida dos países metropolitanos. É uma imagem que, apesar de não corresponder necessariamente à realidade da vida social brasileira, não deixa de ter uma imensa força simbólica no nosso imaginário cultural. Procuramos então suspender qualquer juízo de valor sobre a justeza da idéia que se faz sobre a “mulher brasileira” e pensar qual seria a versão nacional correspondente à mulher européia da era vitoriana. Foi neste ponto que vieram à tona,de forma quase inesperada, os feitos e as figuras de personagens com D. Federalina deLavras, D. Bárbara de Alencar ou a mais obscura Marica Macedo até hoje lembradas e recriadas nas histórias da região do Cariri. Foram elas matriarcas semi-lendárias, proprietárias de terra e gado no interior do sertão longe das pretensões fidalgas das Casas Grandes da zona açucareira. Levavam uma vida rústica relativamente distante dos padrões culturais europeus que, na época, moldavam as sociedades do litoral nordestino. No sertão, exerciam grande poder de liderança, tendo controle total de seus feudos regionais.

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Rachel – Introdução

Atualizado em 14 de setembro | 7:40 PM

Rachel de Queiroz  é considerada uma das mais importantes escritoras brasileiras do século XX. Deixou 7 romances, todos aclamados pela crítica, inúmeras  traduções de autores clássicos, peças de teatro, livros infanto-juvenis e memorialistas. Teve sua obra adaptada para o cinema e para a televisão com grande sucesso. Foi ainda a primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras.

Dona de tanto prestígio e reconhecimento literário, entretanto, quando Rachel era perguntada sobre sua atividade nas letras, ela não hesitava e respondia: “Antes de mais nada, sou uma jornalista”. Essa era sua atividade regular, com a qual sobrevivia financeiramente e, através da qual situava-se, muitas vezes com grande coragem, no espaço público.

Rachel iniciou sua carreira como jornalista, ainda muito jovem, com apenas 17 anos, como colaboradora do jornal O Ceará, e é aí que publica sua primeira incursão na literatura, um romance em folhetim intitulado  História de Um Nome. Ao longo da vida,  foi colaboradora regular  em inúmeros jornais e periódicos como Diário de Notícias, O Jornal, Última Hora, Jornal do Comércio, O Estado de São Paulo e a revista O Cruzeiro.

Sobre sua atividade como jornalista conta:  “ Trabalhei na reportagem e na redação de O Ceará e do jornal O Povo.

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O ethos Rachel

Atualizado em 14 de setembro | 6:47 PM

O melhor é por logo os pingos nos is. Rachel de Queiróz, nossa romancista maior, tem hoje uma fortuna crítica reduzida e razoavelmente inexpressiva em relação à posição que ocupa na história da literatura nacional.

Hoje em dia, pouco se escreve sobre seu valor especificamente literário, sobre sua competência na economia da linguagem, expertise que lhe permitiu introduzir uma escrita sóbria, rigorosa, anti-barroca, avessa à qualquer demagogia no moderno romance nordestino. Por que não existem estudos suficientes sobre este seu lugar tão particular no modernismo brasileiro? Ou mesmo agora,  mais recentemente, quando entram em voga os estudos sobre gênero e feminismo nas letras, por que são minimizados sua escrita libertária, seu pioneirismo enquanto escritora mulher, enquanto uma  profissional stricto senso?

Observo uma inexatidão em minha declaração inicial.  Na verdade, a timidez na recepção crítica da obra de Rachel é recente e mesmo contrasta com o espantoso sucesso do lançamento de O quinze. Publicado em Fortaleza em 1930,  este romance, escrito por uma jovem desconhecida de apenas 19 anos, teve uma enorme repercussão em âmbito nacional e explodiu saudado por críticos do porte de Alceu Amoroso Lima,  Augusto Frederico Schmidt, Artur Mota. Daí pra frente, um exame mesmo superficial da trajetória de Rachel de Queiróz vai evidenciar a consolidação da carreira fulminante de um autêntico “fenômeno literário”  como a ela costumavam se referir a crítica e o jornalismo que cobre o período 1930-1960.

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Marginais, alternativos, independentes

Atualizado em 11 de setembro | 7:07 PM

Publicado originalmente no Caderno B, do Jornal do Brasil, em 19.09.1981.


Não sei bem se por coincidência ou provocação, a literatura emergente da última década vem insistindo, obstinadamente, em se nomear, num primeiro momento, como marginal e alternativa e, desde algum tempo, como independente. Ainda que se possa notar nessa mudança certos sintomas de reavaliação daquilo que seria o papel da poesia, a ênfase no eixo da autonomia de sua prática parece permanecer como ponto de honra no que diz respeito aos novos poetas 70/80.

Nas mais variadas circunstâncias, a definição das noções alternativa-marginal-independente vem carregada de sentido objetivo: o controle total da produção e a distribuição do trabalho de poesia, o que traria consigo, entre várias vantagens, como uma maior liberdade de criação, aquela de procurar redefinir o espaço e o alcance social da literatura. Entretanto, à revelia da evidente clareza do argumento, invariavelmente, mal se ouve a “colocação” dos novos poetas, instala-se uma incontrolável confusão: ” qual a poesia que não é independente?”; “Carlos Drummond de Andrade não seria o maior de nossos marginais?”; “Qual literatura que, em seu sentido profundo, não se revela alternativa?”. Nada de estranho na confusão, se levarmos em conta que, pelo menos desde Platão, o poeta é visto e sentido como excluído da República.

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Literatura Marginal

Atualizado em 11 de setembro | 7:05 PM

No quadro que estamos tratando aqui, ou seja, a cultura como exemplo de resistência e produção de novos sentidos políticos em países em desenvolvimento inseridos no contexto da globalização, a literatura também mostra algumas propostas e mudanças estruturais no sentido de sua criação e divulgação. Nestes casos, a própria noção de cultura, e por tabela a de literatura, é forçada a repensar seus parâmetros e até mesmo, – o que mais interessante -, sua função social.

É neste sentido que reafirmo que as características e as estratégias das expressões artísticas vindas das periferias vêm surpreendendo como a grande novidade deste início de século com o desejo de responder ao acirramento da intolerância racial e às taxas crescentes de desemprego provenientes dos quadros econômicos e culturais globalizados.

A literatura também não ficou imune a estes novos inputs. É da tradição da série literária brasileira, uma atenção significativa aos temas da miséria, da fome, das desigualdades sociais e, ultimamente, da violência urbana. E, como já mencionei anteriormente, é da nossa tradição cultural, o engajamento político e o compromisso social do intelectual, neste caso, do escritor. Nesse sentido, um detalhe interessante no conjunto de nossa produção literária é o fato de que, ao contrário de nossos irmãos latino-americanos, nunca tivemos o testemonio como gênero literário.

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