literatura brasileira

Entrevista com Armando Freitas Filho – O poeta que navega com o instinto

Atualizado em 15 de setembro | 11:33 AM

Publicado originalmente por Heloisa Buarque de Hollanda no Prosa & Verso, d’ O Globo, em 01/11/ 2003.

Em ‘Máquina de escrever’, o criador de 63 anos reúne 13 livros lançados ao longo de 40 anos de carreira.

 

Heloisa: Armando, Máquina de escrever é um título digamos “literal” referindo  seus 40 anos ininterruptos de poesia. Convenhamos que esses 40 anos, enquanto sua máquina disparava letras e poemas, nosso panorama poético passou por uma infinidade de momentos chave, escolas, tendências, debates e algumas (ou muitas) brigas interessantes. Como hoje você diria que sua máquina de escrever atravessou esses mares?

Armando: Nadando, aprendendo a nadar quando fazia a própria travessia. A reação veio por reflexo: tendo à minha retaguarda a  geração de 45, e à minha frente as vanguardas, optei pelo nado de peito e não pelo de costas, ou por não ficar boiando, passivo, repetitivo e diluído, no remanso da tradição. Se de qualquer forma o mar “não estava para peixes”, estava agitado e desconhecido, era mais fácil e, paradoxalmente, mais difícil acompanhar os meus cúmplices e competidores e procurar o risco da minha raia, a possibilidade de minha praia.

Heloisa: Voce estaria dizendo que optou por um caminho individual?

Armando: De jeito nenhum.

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Tantos anos

Atualizado em 14 de setembro | 8:08 PM

Numa palestra recente em Montevidéu, Andreas Huyssen foi, como de costume, absolutamente didático. A figura de Huyssen nestes últimos anos vem crescendo no cenário acadêmico internacional, sem grandes saltos, mas de maneira segura e contínua. Pós-frankfurtiano convicto, Huyssen herdou de seus mestres o compromisso radical com sua época. Até agora, seus ensaios mais conhecidos tem sido uma espécie de cartografia do pensamento contemporâneo diante do advento da cultura do capitalismo tardio ou, como ele próprio prefere, da cultura pós-moderna. Mas, de algum tempo para cá, sua produção teórica parece ter afinal encontrado seu objeto “a”.  Uma reflexão que veio se fazendo através do estudo de uma nova experiência de museu, mais ligado ao consumo e ao lazer do que à preservação das tradições nacionais, que passa pela análise da irresistível “sedução da monumentalidade” (sic) evidenciada pela arquitetura e pela produção artística recentes, até que, agregando e refinando estas questões, aportou no tema atual de seu trabalho sobre a pós-modernidade: o advento de uma relação radicalmente nova com o passado. Ou melhor, a experiência da recodificação do passado como presente, que estaria começando a superar o modelo teleológico de um futuro-presente, eixo da temporalidade modernista.

Para simplificar a questão que Huyssen desenvolve com seu obstinado e complexo estilo de argumentação, vou direto à sua referência à noção de musealização do espaço contemporâneo proposta por Hermann Lubbe.

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Panorama inconclusivo sobre movimentos feministas e raciais hoje no Brasil

Atualizado em 14 de setembro | 8:04 PM

Já razoavelmente institucionalizados, os movimentos feministas e negros no Brasil ainda não conseguiram prestígio definitivo junto à opinião pública, à academia ou mesmo junto à mídia e à indústria cultural. Nunca é demais repetir que na maioria dos países da América Latina, a “novidade” das reivindicações das minorias sexuais e raciais, certamente, ainda não foram completamente absorvidas pelos discursos main stream dos debates políticos e acadêmicos. Pelo contrário, os mitos raciais e sexuais formativos do que poderia ser visto como nossas “identidades culturais”, (que só recentemente começam a ser interpeladas pelos novos fluxos democratizantes e por certos movimentos culturais, especialmente os jovens), ainda servem como estabilizadores da ambiguidade discursiva e das várias mitologias que permitiram negar a evidência de uma forte discriminação sexual e racial e ocultar, de forma surpreendentemente eficaz, os mecanismos de controle de fatores multiculturais constitutivos de nossas sociedades.

Do ponto de vista racial, é importante lembrar que, ainda hoje, pode-se verificar a clara dificuldade dos estudos sobre o negro no Brasil em distinguir a especificidade da questão racial em relação aos problemas sociais que marcam as populações de baixa renda, na sua maioria composta por indivíduos de cor negra. Em enfrentar a falta de dados para a avaliação dos índices de discriminação e desigualdades.

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Os estudos sobre mulher e literatura no Brasil: Uma primeira abordagem

Atualizado em 14 de setembro | 8:03 PM

Este trabalho foi realizado para o Seminário “Estudos sobre Mulher no Brasil – Avaliação e Perspectivas” promovido pela Fundação Carlos Chagas de 27 a 29 de novembro de 1990. Agradeço a Valéria Lamego, Lucia Nascimento Araujo e Vanessa Escobar de Andrade pelo apoio e colaboração na pesquisa e levantamento de dados e a Luzilá, Maria das Vitórias, Nadia, Rita, Rosiska e Suzana pela leitura atenta dos originais e pelas sugestões que possibilitaram este texto que tenta pensar nossos próprios limites e perspectivas.

O panorama internacional

Uma avaliação dos estudos sobre a mulher  na década de 90, em qualquer área de conhecimento, é tarefa complicada. Fala-se em pós-feminismo, pós-modernismo, fim da ideologia, e, no tema talvez mais perigoso de todos, a emergência de um pluralismo neo-liberal que tornaria totalmente anacrônicas as reivindicações tradicionais do trabalho feminista.

Antes de tentar situar estes estudos no quadro mais geral das transformações por que vem passando o pensamento acadêmico, observaria que, apesar de considerados pensamento de vanguarda pela teoria crítica  contemporânea e de terem conquistado expressiva legitimidade acadêmica, os estudos feministas ainda revelam certo ressentimento e desconforto em relação às dificuldades surgidas nas tentativas de articular sua produção teórica com os compromissos políticos e as questões centrais da militância feminista.

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O estranho horizonte da crítica feminista no Brasil

Atualizado em 14 de setembro | 7:51 PM

Trabalho realizado para o Colóquio “Celebración y Lecturas: La Critica Literária en Latinoamerica”, Ibero-Amerikanisches Institut Preussischer Kulturbesitz, Berlin, 20-24 de novembro de 1991


As teorias críticas feministas estão experimentando um momento bastante interessante. Nos países de formação saxônica, especialmente nos USA, conseguiram uma certa legitimidade acadêmica e constituem-se como uma inegável tendência dentro do mercado editorial. Muitos centros de women’s studies se formaram dentro das Universidades, desde a segunda metade dos anos 70, e seu projeto é claramente intervencionista e político-acadêmico. Na França, já o quadro é relativamente diverso. Os estudos feministas, cuja facção mais representativa e internacionalmente reconhecida é ligada à psicanálise, recusam a filiação institucional dentro das Universidades e preferem formas de organização independentes ou, pelo menos, desvinculadas da produção de acadêmica oficial.

De um modo geral, a formação desta área de conhecimento está intimamente ligada aos movimentos políticos dos anos 60, mas vai ganhar estatuto acadêmico um pouco mais tarde, no contexto da consolidação das teorias pós-estruturalistas e desconstrutivistas, cuja desconfiança sistemática em relação aos discursos totalizantes passa a ter uma posição central no debate teórico conhecido como pós-modernista.

É neste terreno – coexistindo com formações disciplinares emergentes como o novo historicismo, a história das mentalidades e os estudos pós-coloniais – que se move, e ganha prestigio, a maior parte do pensamento critico feminista internacional desenvolvido a partir da segunda metade da década de 70.

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