literatura brasileira

Entrevista com Raimundo Carrero

Atualizado em 15 de setembro | 11:49 AM

Por Heloísa Buarque de Hollanda

 

Heloisa – Raimundo, de onde é que você veio com tanta garra?

Raimundo Eu nasci em 30 de dezembro de 47 numa cidade chamada Salgueiro, no sertão de Pernambuco, sertãozão, o sertão mais distante.

Heloisa E foi lá que você descobriu a literatura?

Raimundo Foi eu tinha um irmão mais velho que era ator de circo e um intelectual seríssimo. Ele me deixou uma biblioteca inteira  debaixo dos balcões da loja de  roupas e chapéu de meu pai.. E eu fui descobrindo que , debaixo dos balcões, haviam muitos livros. Eu só não podia levar os livros para casa porque quando meu irmão voltasse, os livros deveriam estar lá.  E eu ficava horas lendo Zé Lins, Graciliano, Ibsen, Shakespere, Bernard Shaw.

Heloisa Aí você começou a escrever logo?

Raimundo – Comecei sim, comecei escrever usando os papeis lá da loja. A solidão do sertão é muito grande, é uma solidão bem diferente da solidão daqui. É uma solidão cheia de sol, de silêncio, mas muito pegajosa, muito pesada. A solidão da cidade grande é sombria, cinzenta, a do sertão é pesada, eu chamo de solidão oca. Parece que dentro a solidão tem outra solidão.

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Entrevista com Paulo Lins

Atualizado em 15 de setembro | 11:47 AM

Por Heloísa Buarque de Hollanda

 

HBH: Quando você escreveu Cidade de Deus, você imaginou o sucesso e o impacto, tudo que esse livro ia render para si próprio e para o seu entorno? Você já tinha essa perspectiva, antes do livro ser lançado?

Paulo Lins: Eu tinha.  E por isso não desisti. Eu sabia, com a maior clareza, que eu estava fazendo alguma coisa que ia ser fora do normal e que ia repercutir.

HBH: Sei que você estudou Letras na UFRJ, mas com mundo literário propriamente dito, você tinha algum contato?

PL: Tinha um pouco. Nos anos 80 eu já estava nesse meio, fazia poesia, discutia com meus amigos da faculdade, portanto já dava para sacar o que ia acontecer.

HBH: Você começou a escrever esse livro ainda muito jovem, não foi?

PL: Era, quando comecei a escrever o livro eu estava na Universidade ainda, eu tinha 20 e poucos anos.

HBH: Mas eu também sei que Cidade de Deus levou anos sendo escrito.

PL: É verdade. Eu parei várias vezes, abandonei o livro por três anos, ia dar aula, batalhar a bolsa do CNPq, as verbas da Faperj, essa loucura que é a vida de estudante por aqui. 

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Conversa de amiga, lição de mestra

Atualizado em 15 de setembro | 11:46 AM

Marlyse Meyer é uma mulher bela, elegante, extremamente vaidosa e, como diagnosticou Antônio Cândido, um animal acadêmico. Quanto a isso não há dúvida. Entretanto, sua natureza acadêmica, ainda que visceral, me parece apresentar certos traços bastantes particulares que merecem um pequeno exame.  Antes de qualquer coisa, salta aos olhos de quem lê ou convive com Marlyse, sua obstinada curiosidade. Pesquisadora nata, persegue com afinco toda e qualquer pista sugerida por leituras,  documentos, fontes diversas, subtextos, conversas. Uma curiosidade intelectual com essa intensidade poderia facilmente levar e, geralmente, leva, à dispersão. Entretanto, no nosso caso, a obstinação da descoberta impede qualquer acidente de percurso. Essa curiosidade peculiar aliada à sua imensa capacidade de escuta me parece, de fato, o traço que mais define a atividade intelectual de Marlyse. Mas alguns atributos acessórios também  não são desprezíveis. E aqui eu destacaria dois fatores em especial. Uma independência intelectual ímpar, o segredo atrás do design de objetos de pesquisa aparentemente insólitos os quais batiza de altos e baixos estudos, ficção de segundo time, novelas sem fronteiras  entre outros. Um estilo de escrita ensaística pessoal e intransferível, e uma generosidade  intelectual estrutural  que lhe permitiu ter formado escola e gerado  uma respeitável linhagem de descendência acadêmica.

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Entrevista com Luiz Rufato

Atualizado em 15 de setembro | 11:43 AM

Por Heloisa Buarque de Hollanda


HBH: Quando penso em você, penso na cidade de São Paulo. Você nasceu lá?

Luiz Ruffato. Não, eu sou da melhor cidade de Minas, Cataguases. Mas a minha mineiridade é muito relativa, porque, na verdade, os meus avós maternos vieram da Itália no final do século XIX, e os meus avós paternos de Portugal. Então minha mãe e meu pai nem brasileiros são. E eles saíram de Rodeiro e Guidoval, ou seja, da roça, e foram pra Cataguases porque não tinham nenhuma perspectiva de vida na cidade deles. E em Cataguases eles construíram a família.

HBH. Eles faziam o quê?

Rufatto. A minha mãe era lavadeira. Ela era  analfabeta e meu pai semi-analfabeto. Com o tempo, ele virou protestante e começou a ler a Bíblia. Apesar de minha mãe ser muito católica, meu pai circulou por algumas igrejas pentecostais até optar pela  presbiteriana. Tivemos então, alem da experiiência da leitura em casa,  a convivência com culturas bem diferentes.

HBH. Você eram muitos irmãos?

Ruffato. Não. Éramos três. O meu irmão mais velho formou-se no Senai e foi trabalhar na CONFORJA, uma das maiores metalúrgicas da América Latina em Diadema. Mas logo ele voltou para Cataguases, não agüentou ficar longe da família.

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Entrevista com Beatriz Resende

Atualizado em 15 de setembro | 11:34 AM

Por Heloisa Buarque de Hollanda

 

Heloisa – Quando e por que você, crítica literária ferrenha, aderiu aos estudos culturais e aos temas considerados como menos nobres pela academia?

Beatriz Resende – Os Estudos Culturais são justamente o viés, o olhar, a “atividade”, ou o desejo, como diz Frederic Jameson, através dos quais as manifestações culturais e artísticas não canônicas se incorporam aos estudos e pesquisas realizados nas Universidades.

Creio que, desde o Mestrado, quando estudei a literatura de Lima Barreto, nos anos 80 ainda considerado um autor “menor”, a literatura “off Brodway” já me interessava. Depois, no Doutorado, com o Lima já voltando à cena, preferi trabalhar com as crônicas e o estupendo Diário do Hospício. Aí percebi que não podia ficar só nos estudos literários, tinha que ler e investigar tudo que dizia respeito à cidade, ao Rio de Janeiro dos anos 10, 20. E mais, que era impossível trabalhar estes textos sem pensar na questão de raça no Brasil, na discriminação imposta aos pobres e aos loucos. Depois de defender a tese de Doutorado, em89, me juntei ao grupo que pesquisava questões de gênero e raça no CIEC. Criamos, depois, o PACC – Programa Avançado de Cultura Contemporânea – na UFRJ, especialmente dedicado aos Estudos Culturais.

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