feminismo

O estranho horizonte da crítica feminista no Brasil

Atualizado em 14 de setembro | 7:51 PM

Trabalho realizado para o Colóquio “Celebración y Lecturas: La Critica Literária en Latinoamerica”, Ibero-Amerikanisches Institut Preussischer Kulturbesitz, Berlin, 20-24 de novembro de 1991


As teorias críticas feministas estão experimentando um momento bastante interessante. Nos países de formação saxônica, especialmente nos USA, conseguiram uma certa legitimidade acadêmica e constituem-se como uma inegável tendência dentro do mercado editorial. Muitos centros de women’s studies se formaram dentro das Universidades, desde a segunda metade dos anos 70, e seu projeto é claramente intervencionista e político-acadêmico. Na França, já o quadro é relativamente diverso. Os estudos feministas, cuja facção mais representativa e internacionalmente reconhecida é ligada à psicanálise, recusam a filiação institucional dentro das Universidades e preferem formas de organização independentes ou, pelo menos, desvinculadas da produção de acadêmica oficial.

De um modo geral, a formação desta área de conhecimento está intimamente ligada aos movimentos políticos dos anos 60, mas vai ganhar estatuto acadêmico um pouco mais tarde, no contexto da consolidação das teorias pós-estruturalistas e desconstrutivistas, cuja desconfiança sistemática em relação aos discursos totalizantes passa a ter uma posição central no debate teórico conhecido como pós-modernista.

É neste terreno – coexistindo com formações disciplinares emergentes como o novo historicismo, a história das mentalidades e os estudos pós-coloniais – que se move, e ganha prestigio, a maior parte do pensamento critico feminista internacional desenvolvido a partir da segunda metade da década de 70.

Continue lendo »

O bug do feminismo

Atualizado em 14 de setembro | 7:49 PM

Bug, literalmente, quer dizer inseto. Traz também uma forte conotação de coisa desagradável – como a barata – de onde vem o sentido metafórico que lhe é atribuído de algo pequeno mas incômodo, que embola ou que impede o funcionamento suave de uma atividade. Em inglês, sugere também  o sentido de gosto ou mania como em “he’s got the travel bug”. É ainda usado para referir germes como em “the flu bug”, expressão comum nos Estados Unidos para os vírus mutantes da gripe. Na área da informática, nomeia tanto os vírus de computador quanto defeitos de programação ou de software, daí a expressão “de-bugging” que significa limpar, restabelecer um programa. Recentemente, foi especificado como bug do milênio, ameaça de um acidente fatal na lógica do reconhecimento das datas na  rede das redes,  graças a Deus controlado a tempo.

Como estamos no final da estação dos balanços de virada de século, não quero deixar passar em branco o que poderia ser considerado como o bug do feminismo, movimento libertário que foi a grande revolução do século passado, também conhecido como o século das mulheres. Talvez por isso, ainda sob o efeito das comemorações, tenha acordado nesta manhã de janeiro do novo milênio com um astral saudosistamente militante.

Continue lendo »

Notas sobre o feminismo

Atualizado em 14 de setembro | 7:47 PM

A pergunta se existe ou não uma linguagem feminina vem povoando o universo critica as artes e letras desde o início do século. Hoje, com total clareza pode-se perceber a falácia dessa questão de conteúdo tacitamente excludente. O que existe, isso sim são estratégias, manobras, femininas para lidar com uma realidade que lhe definiu uma posição de desigualdade histórica entre homens e mulheres. Não foi por acaso que durante todo o século XX, também conhecido como o Século das Mulheres, as mulheres lutaram nas mais diversas frentes para conseguir marcar sua posição na sociedade, na cultura, na política. Foi o pique revolucionário internacional dos anos 60, com o feminismo sinalizando a entrada definitiva das mulheres na arena política e cultural, marcando uma guerra de posição, de definição de territórios, de demandas  pelo fim das diferenças entre homens e mulheres. Anos 60-70 de muita paixão e da experiência das primeiras vitórias, dos primeiros resultados concretos. Em 1975, a ONU sensibilizada pelas novas forças feministas e reconhecendo formalmente a discriminação contra a mulher, decreta a década de 1975 a 1985 como a Década Internacional da Mulher. Para nossos países da América Latina, onde os movimentos de mulheres ainda se mostravam fragmentários e incipientes, a declaração da Década foi de importância decisiva.

Continue lendo »

Matriarcas do Ceará – D. Federalina de Lavras

Atualizado em 14 de setembro | 7:46 PM

Rachel de Queiroz
Heloisa Buarque de Hollanda (*)

 

Em uma conversa sobre mulheres, feminismo e literatura chegamos às matriarcas nordestinas. Partimos da idéia tradicional da “mulher brasileira”,figura poderosa, sedutora e dona de uma linguagem corporal que desafiaria os modelos clássicos da mulher oprimida dos países metropolitanos. É uma imagem que, apesar de não corresponder necessariamente à realidade da vida social brasileira, não deixa de ter uma imensa força simbólica no nosso imaginário cultural. Procuramos então suspender qualquer juízo de valor sobre a justeza da idéia que se faz sobre a “mulher brasileira” e pensar qual seria a versão nacional correspondente à mulher européia da era vitoriana. Foi neste ponto que vieram à tona,de forma quase inesperada, os feitos e as figuras de personagens com D. Federalina deLavras, D. Bárbara de Alencar ou a mais obscura Marica Macedo até hoje lembradas e recriadas nas histórias da região do Cariri. Foram elas matriarcas semi-lendárias, proprietárias de terra e gado no interior do sertão longe das pretensões fidalgas das Casas Grandes da zona açucareira. Levavam uma vida rústica relativamente distante dos padrões culturais europeus que, na época, moldavam as sociedades do litoral nordestino. No sertão, exerciam grande poder de liderança, tendo controle total de seus feudos regionais.

Continue lendo »

Letras, armas e virtudes

Atualizado em 14 de setembro | 7:44 PM

Estas anotações foram escritas a partir de e para Miriam Moreira Leite. Agradeço à Valéria Lamego e à Lucia Nascimento Araujo pela colaboração na pesquisa.


A voga dos dicionários ou coletâneas biográficas, que se propaga especialmente na segunda metade do século XIX, no Brasil, mostra uma atenção curiosa em relação às figuras femininas. Do confinamento do lar e das tarefas domésticas a que pareciam estar destinada, as mulheres brasileiras passam a ganhar, sem explicação aparente, a notoriedade de “vultos ilustres” na história de um Brasil que começa a se pensar como nação e mais especificamente, como uma nação moderna. No rush em direção à definição dos contornos da nação brasileira e à construção de uma unidade nacional, tantas vezes experimentado e descrito pelos escritores e intelectuais como uma missão irrecusável, era necessário promover, de forma pedagógica, uma tomada de “consciência do Brasil”, através da eleição de “grandes vultos” históricos, consolidando assim uma cultura autônoma da qual pudéssemos nos orgulhar.

Um dos mais completos exemplos deste esforço para forjar uma elite intelectual nos anais da nacionalidade é o Dicionário Biográfico de Brasileiros Célebres nas Letras, Artes, Política, Filantropia, Guerra, Diplomacia, Indústria, Ciências e Caridade, Desde o Ano de 1500 até Nossos Dias, compilado por Manuel Francisco Dias da Silva e editado pela casa Laemmert em 1871.

Continue lendo »