Caderno B

Depois do poemão

Atualizado em 9 de setembro | 6:56 PM

Publicado originalmente no Caderno B, do Jornal do Brasil, em 13.12.1980.

 

Em meados dos anos 70, como sempre com a maior propriedade, Cacaso declarava: “Estamos todos escrevendo o mesmo poema, um poema único, um poemão.”

Havia, claramente, certos sinais no ar que a literatura captava e poetava, ainda que se evidenciassem variações no alcance crítico e lírico desse poemão.  Um sufoco, um mal-estar — substancialmente diversos do voluntarismo e da euforia da década anterior — abria, a berro e a soco, o lugar para a fala e para a urgência de se experimentar a poesia no dia-a-dia.  Aqui, não se tratava apenas da poesia com a marca suja da vida.  Percebia-se um esforço para agir e viver a definição de um cotidiano especial, descompromissado, desburocratizado e bem-humorado.  Era o que principalmente se registrava no poema síntese, instantâneo, no poema muito e qualquer coisa.  Na poesia que se experimentava a toda hora e em todo lugar.

Ainda Cacaso, dedicando a Chico Alvim:

Poesia

eu não te escrevo

eu te

vivo

e viva nós!

 

Assim, poesia e vida se casavam promovendo uma prática que, longe de ser pacífica, tentava com vigor crítico algumas respostas ao momento negro que experimentávamos. Surge, uma multidão de poetas, cria-se um público, inventa-se formas independentes de produção, distribuição e veiculação para a literatura. 

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A luta dos sufocados e o prazer dos retornados

Atualizado em 9 de setembro | 6:24 PM

Publicado originalmente no Caderno B, do Jornal do Brasil, em 13.02.1982.


Coisa estranha essa de se olhar em bloco a safra recente da literatura que se propôs contar uma certa memória política do Brasil pós-68. Ela veio vindo, primeiro como novidade absolutamente bem-vinda que respondia a uma urgência de contar – bem como de ouvir – a experiência dos nossos retornados, condenados e sufocados. Não que durante a década passada a literatura houvesse silenciado sobre essa história. Todo o trabalho de Antônio Callado, A Festa de Ivan Ângelo, Quatro Olhos de Renato Pompeu, Zero do Ignácio Loyola, Em Câmara Lenta do Tapajós, a maior parte da obra de José Loureiro, para citar apenas os que me ocorrem agora, mantiveram o espaço do romance brasileiro aberto para o registro e para o relato, no mais das vezes alegórico, dos movimentos de resistência e dos impasses políticos que marcaram a década de 70 no Brasil. Assim, a literatura em suas várias formas, talvez por ser uma área menos sensível à censura, foi, no campo da produção cultural, provavelmente, o território, por excelência, do testemunho dessa época.

Entretanto, o período pós-78, com a animação sugerida pela queda da censura prévia e pelo projeto de abertura, inaugurou uma safra literária bastante específica e circunstanciada ao momento.

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