BRASIL

Entrevista com Heloisa, por Luciano Trigo

Atualizado em 27 de maio | 1:33 AM

Publicado originalmente no Blog Acesso, do Instituto Votorantim.

 

Você nasceu em Ribeirão Preto. Fale um pouco sobre sua infância e a atmosfera familiar. Quais eram as conversas em casa, que lembranças foram marcantes? Houve episódios, já na adolescência, que de certa forma determinaram ou ajudaram a traçar seu futuro itinerário?

Heloisa Buarque. Minha família era um família de folhetim: Minha mãe filha de fazendeiros de Minas Gerais, meio princesa, e meio pai um plebeu baiano medico, violinista e comunista, que chega em ribeirão Preto para tentar a vida. É claro que minha mãe se apaixonou por ele. É claro que a familia dela foi contra. Ela fugiu com ele e foram felizes para sempre. Acho que nesse panorama eu tinha que acreditar na aventura e na transgressão…

Tendo vivido o sonho e a utopia dos anos 60, como você enxerga a relação da juventude hoje com a cultura e a política?

Heloisa Buarque. Acho que os jovens de hoje tem um quadro político e sobretudo econômico bem diferente do nosso e também bem mais difícil.  Nos anos 60 estávamos vivendo uma época de estabilidade econômica e mesmo de fartura, portanto o sonho era totalmente permitido. Hoje, o pesadelo do desemprego é um fato real e os jovens tem que lidar com isso.

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Um problema quase pessoal

Atualizado em 14 de setembro | 8:09 PM

No campo da análise do discurso, o que estaria sendo evitado pelos estudos feministas no Brasil?

O debate sobre a condição feminina, expresso nas obras literárias e na imprensa, conhece um pique na segunda metade do século XIX até os anos 20, quando emerge o movimento modernista nas artes e nas ciências sociais. A questão da mulher sai então do circuito da literatura e passa para as mãos da sociologia, da antropologia e, muito recentemente, para as da história e da psicologia.

Voltando de forma brevíssima ao século XIX, a partir dos anos 50, começa o processo urgente e inadiável de definir os contornos da nação brasileira. Os caminhos percorridos pelos discursos que imaginaram a nação trouxeram, sistematicamente, a metáfora da “maternidade republicana”, como figura fundamental, ou seja, a hiper-valorização do papel da mulher como “civilizadora” e responsável pela idéia de uma nação moderna, educada e homogênea.[1]  No caso brasileiro, evidenciam-se alguns traços peculiares.  Nos discursos de construção nacional, já é conhecido com quanto desconforto a importação das ideologias liberais conviviam  com a vigência do regime escravocrata. Por outro lado, as idéias de uma homogeneização racial, supostamente necessária para a definição de uma identidade nacional e moderna, passavam também por complicadores evidentes. 

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Panorama inconclusivo sobre movimentos feministas e raciais hoje no Brasil

Atualizado em 14 de setembro | 8:04 PM

Já razoavelmente institucionalizados, os movimentos feministas e negros no Brasil ainda não conseguiram prestígio definitivo junto à opinião pública, à academia ou mesmo junto à mídia e à indústria cultural. Nunca é demais repetir que na maioria dos países da América Latina, a “novidade” das reivindicações das minorias sexuais e raciais, certamente, ainda não foram completamente absorvidas pelos discursos main stream dos debates políticos e acadêmicos. Pelo contrário, os mitos raciais e sexuais formativos do que poderia ser visto como nossas “identidades culturais”, (que só recentemente começam a ser interpeladas pelos novos fluxos democratizantes e por certos movimentos culturais, especialmente os jovens), ainda servem como estabilizadores da ambiguidade discursiva e das várias mitologias que permitiram negar a evidência de uma forte discriminação sexual e racial e ocultar, de forma surpreendentemente eficaz, os mecanismos de controle de fatores multiculturais constitutivos de nossas sociedades.

Do ponto de vista racial, é importante lembrar que, ainda hoje, pode-se verificar a clara dificuldade dos estudos sobre o negro no Brasil em distinguir a especificidade da questão racial em relação aos problemas sociais que marcam as populações de baixa renda, na sua maioria composta por indivíduos de cor negra. Em enfrentar a falta de dados para a avaliação dos índices de discriminação e desigualdades.

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Os estudos sobre mulher e literatura no Brasil: Uma primeira abordagem

Atualizado em 14 de setembro | 8:03 PM

Este trabalho foi realizado para o Seminário “Estudos sobre Mulher no Brasil – Avaliação e Perspectivas” promovido pela Fundação Carlos Chagas de 27 a 29 de novembro de 1990. Agradeço a Valéria Lamego, Lucia Nascimento Araujo e Vanessa Escobar de Andrade pelo apoio e colaboração na pesquisa e levantamento de dados e a Luzilá, Maria das Vitórias, Nadia, Rita, Rosiska e Suzana pela leitura atenta dos originais e pelas sugestões que possibilitaram este texto que tenta pensar nossos próprios limites e perspectivas.

O panorama internacional

Uma avaliação dos estudos sobre a mulher  na década de 90, em qualquer área de conhecimento, é tarefa complicada. Fala-se em pós-feminismo, pós-modernismo, fim da ideologia, e, no tema talvez mais perigoso de todos, a emergência de um pluralismo neo-liberal que tornaria totalmente anacrônicas as reivindicações tradicionais do trabalho feminista.

Antes de tentar situar estes estudos no quadro mais geral das transformações por que vem passando o pensamento acadêmico, observaria que, apesar de considerados pensamento de vanguarda pela teoria crítica  contemporânea e de terem conquistado expressiva legitimidade acadêmica, os estudos feministas ainda revelam certo ressentimento e desconforto em relação às dificuldades surgidas nas tentativas de articular sua produção teórica com os compromissos políticos e as questões centrais da militância feminista.

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O estranho horizonte da crítica feminista no Brasil

Atualizado em 14 de setembro | 7:51 PM

Trabalho realizado para o Colóquio “Celebración y Lecturas: La Critica Literária en Latinoamerica”, Ibero-Amerikanisches Institut Preussischer Kulturbesitz, Berlin, 20-24 de novembro de 1991


As teorias críticas feministas estão experimentando um momento bastante interessante. Nos países de formação saxônica, especialmente nos USA, conseguiram uma certa legitimidade acadêmica e constituem-se como uma inegável tendência dentro do mercado editorial. Muitos centros de women’s studies se formaram dentro das Universidades, desde a segunda metade dos anos 70, e seu projeto é claramente intervencionista e político-acadêmico. Na França, já o quadro é relativamente diverso. Os estudos feministas, cuja facção mais representativa e internacionalmente reconhecida é ligada à psicanálise, recusam a filiação institucional dentro das Universidades e preferem formas de organização independentes ou, pelo menos, desvinculadas da produção de acadêmica oficial.

De um modo geral, a formação desta área de conhecimento está intimamente ligada aos movimentos políticos dos anos 60, mas vai ganhar estatuto acadêmico um pouco mais tarde, no contexto da consolidação das teorias pós-estruturalistas e desconstrutivistas, cuja desconfiança sistemática em relação aos discursos totalizantes passa a ter uma posição central no debate teórico conhecido como pós-modernista.

É neste terreno – coexistindo com formações disciplinares emergentes como o novo historicismo, a história das mentalidades e os estudos pós-coloniais – que se move, e ganha prestigio, a maior parte do pensamento critico feminista internacional desenvolvido a partir da segunda metade da década de 70.

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