anos 80

Marginais, alternativos, independentes

Atualizado em 11 de setembro | 7:07 PM

Publicado originalmente no Caderno B, do Jornal do Brasil, em 19.09.1981.


Não sei bem se por coincidência ou provocação, a literatura emergente da última década vem insistindo, obstinadamente, em se nomear, num primeiro momento, como marginal e alternativa e, desde algum tempo, como independente. Ainda que se possa notar nessa mudança certos sintomas de reavaliação daquilo que seria o papel da poesia, a ênfase no eixo da autonomia de sua prática parece permanecer como ponto de honra no que diz respeito aos novos poetas 70/80.

Nas mais variadas circunstâncias, a definição das noções alternativa-marginal-independente vem carregada de sentido objetivo: o controle total da produção e a distribuição do trabalho de poesia, o que traria consigo, entre várias vantagens, como uma maior liberdade de criação, aquela de procurar redefinir o espaço e o alcance social da literatura. Entretanto, à revelia da evidente clareza do argumento, invariavelmente, mal se ouve a “colocação” dos novos poetas, instala-se uma incontrolável confusão: ” qual a poesia que não é independente?”; “Carlos Drummond de Andrade não seria o maior de nossos marginais?”; “Qual literatura que, em seu sentido profundo, não se revela alternativa?”. Nada de estranho na confusão, se levarmos em conta que, pelo menos desde Platão, o poeta é visto e sentido como excluído da República.

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Literatura Marginal

Atualizado em 11 de setembro | 7:05 PM

No quadro que estamos tratando aqui, ou seja, a cultura como exemplo de resistência e produção de novos sentidos políticos em países em desenvolvimento inseridos no contexto da globalização, a literatura também mostra algumas propostas e mudanças estruturais no sentido de sua criação e divulgação. Nestes casos, a própria noção de cultura, e por tabela a de literatura, é forçada a repensar seus parâmetros e até mesmo, – o que mais interessante -, sua função social.

É neste sentido que reafirmo que as características e as estratégias das expressões artísticas vindas das periferias vêm surpreendendo como a grande novidade deste início de século com o desejo de responder ao acirramento da intolerância racial e às taxas crescentes de desemprego provenientes dos quadros econômicos e culturais globalizados.

A literatura também não ficou imune a estes novos inputs. É da tradição da série literária brasileira, uma atenção significativa aos temas da miséria, da fome, das desigualdades sociais e, ultimamente, da violência urbana. E, como já mencionei anteriormente, é da nossa tradição cultural, o engajamento político e o compromisso social do intelectual, neste caso, do escritor. Nesse sentido, um detalhe interessante no conjunto de nossa produção literária é o fato de que, ao contrário de nossos irmãos latino-americanos, nunca tivemos o testemonio como gênero literário.

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Professando as Letras: Identidades em construção

Atualizado em 10 de setembro | 7:02 PM

Em 1972, ou seja, há quase trinta anos atrás, Mikhail Bakhtin de certa forma previa, o que hoje é referido por muitos como a crise da área de Letras e que prefiro chamar de uma atual e saudável flexibilização teórica e metodológica nestes estudos.

Bakhtin referia-se à situação da pesquisa literária na União Soviética no início da década de 70, e lamentava duramente a falta de articulação entre os estudos literários e os problemas mais gerais da sociedade, denunciando a ausência de empenho, por parte dos pesquisadores, na identificação de novas áreas ou fenômenos significantes no campo praticamente ilimitado da produção literária.

Avaliando estes impasses, Bakhtin observa que a ênfase que, por longo tempo, vinha sendo dada à definição das especificidades da literatura, terminou por preterir as questões da interdependência das várias áreas da produção cultural. A ausência de articulações mais concretas entre a literatura e o contexto global da cultura de uma dada época, de certa forma estaria promovendo a marginalização da própria idéia de literatura.

Bakhtin chama ainda a atenção para a flutuação histórica das fronteiras das áreas da produção cultural e observa que sua vida mais intensa e produtiva sempre ocorre nas fronteiras de suas áreas individuais e não nos espaços onde estas áreas tornam-se encerradas em sua própria especificidade.[1]

Na década de 80, a área de Letras começa a responder com mais nitidez às demandas das transformações sociais que vão marcar o final do século XX.

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O destino dos bons rios

Atualizado em 10 de setembro | 6:54 PM

Publicado originalmente por Heloisa Buarque de Hollanda no Caderno B, do Jornal do Brasil, em 14/05/1983.

 

A literatura (e a cultura) de resistência dos anos 70 — nossas barricadas do desejo — por volta de 1978, começa progressivamente a evidenciar uma saudável e altamente desejável tendência à “desburocratização” no que diz respeito a suas palavras de ordem e estratégias. A conquista de mercado (e a conseqüente dissolução de guetos), o desejo do diálogo amplo e irrestrito e a valorização da qualidade técnica e artística dos produtos são sintomas de um remanejamento visível no campo da produção cultural que empunhou a bandeira da contracultura e dos circuitos alternativos no período pré-abertura. Isso, entretanto, não significa que a produção independente ou marginal tenha desaparecido. A proliferação de grupos, autores e cooperativas neste sentido demonstram o contrário. Mas é importante ressaltar que a poesia marginal de hoje não se identifica com aquela que se firmou no início da década passada, marcada a ferro e fogo pela conjuntura político-social do momento e pela inquietação dos movimentos contestatários jovens e internacionais.

Retomando as sugestões da ideologia vitalista do começo do século, e mesmo radicalizando-as, os movimentos undergrounds que se definiram, no Brasil, na virada dos 60 para os 70, faziam explodir no discurso do comportamento e da produção cultural — ao som do rock e da granada — a guerrilha contra a cultura dominante em suas formas legitimadas de poder e do saber.

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Ceder a vez, ceder a voz

Atualizado em 9 de setembro | 6:37 PM

Dezembro, mês de balanço. Se o balanço econômico do ano foi de susto, na área da poesia temos, pelo menos, uma boa surpresa: a Editora Brasiliense fecha o ano com um gol de letra, comprando o passe de Francisco Alvim. Com cinco livros publicados de forma independente, com circuito reduzido, má divulgação e péssima distribuição, Chico Alvim conseguiu a proeza de ser reconhecido como a grande revelação da poesia dos anos 70. Se, em algum lugar como conferências, simpósios, salas de aula ou festas, alguém fizer aquela aborrecida e inevitável pergunta, “afinal, no meio desse surto, quem é que vai ficar?”, e se essa pergunta se referir ao possível sucessor dos grandes nomes da poesia brasileira contemporânea, aconselho a sábia e segura resposta: Chico Alvim.

Chico estréia em 1968, com Sol dos cegos, livro que já trazia clara a definição e o timbre da preocupação central de sua poesia – a extrema vulnerabilidade das relações e dos sentimentos no quadro da sociedade moderna. Em 1974, publica Passatempo, na Coleção Frenesi. Estávamos, então, em pleno boom poético alternativo, e essa coleção, pioneira, trouxe o interesse da publicação conjunta, do livro produzido e realizado sob o controle do autor e do traço de uma linguagem informal que fala do dia-a-dia e que vinha “descarregar” um certo “padrão autoral”consagrado no terreno da produção poética.

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