anos 70

Marginais, alternativos, independentes

Atualizado em 11 de setembro | 7:07 PM

Publicado originalmente no Caderno B, do Jornal do Brasil, em 19.09.1981.


Não sei bem se por coincidência ou provocação, a literatura emergente da última década vem insistindo, obstinadamente, em se nomear, num primeiro momento, como marginal e alternativa e, desde algum tempo, como independente. Ainda que se possa notar nessa mudança certos sintomas de reavaliação daquilo que seria o papel da poesia, a ênfase no eixo da autonomia de sua prática parece permanecer como ponto de honra no que diz respeito aos novos poetas 70/80.

Nas mais variadas circunstâncias, a definição das noções alternativa-marginal-independente vem carregada de sentido objetivo: o controle total da produção e a distribuição do trabalho de poesia, o que traria consigo, entre várias vantagens, como uma maior liberdade de criação, aquela de procurar redefinir o espaço e o alcance social da literatura. Entretanto, à revelia da evidente clareza do argumento, invariavelmente, mal se ouve a “colocação” dos novos poetas, instala-se uma incontrolável confusão: ” qual a poesia que não é independente?”; “Carlos Drummond de Andrade não seria o maior de nossos marginais?”; “Qual literatura que, em seu sentido profundo, não se revela alternativa?”. Nada de estranho na confusão, se levarmos em conta que, pelo menos desde Platão, o poeta é visto e sentido como excluído da República.

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Observações: críticas ou nostálgicas?

Atualizado em 10 de setembro | 6:56 PM

Publicado originalmente na Revista Poesia Sempre, n. 8, ano 5, da Fundação Biblioteca Nacional, em  junho de 1997.

 

Revisitar trabalhos antigos traz sempre uma dor difusa. Ainda mais este, os 26 Poetas Hoje, que se constituiu de certa forma como minhas primeiras impressões digitais profissionais. O que será que hoje, passados 20 anos de sua publicação, eu diria sobre este trabalho?  Não escolhi organizar essa Antologia. Portanto, não foi um crime premeditado, mas seguramente um gesto inocente também não foi. Se houve uma questão que povoou, com ansiedade, toda minha trajetória profissional, foi a das relações entre política e cultura.

Estávamos no início da década de 70, uma época de grande susto e medo, na qual as universidades, o jornalismo e a produção cultural,  à imagem e semelhança do Congresso, entraram em recesso por tempo indeterminado. Da euforia Tropicalista nas artes e nas manifestações políticas, passou-se à disforia que meu amigo Zuenir Ventura, num certeiro e memorável balanço da década, definiu como o vazio cultural. Mas não é essa a história que me cabe contar nesse momento.

O que interessa é que, por volta de 1972-1973, surgiu, assim como se fosse do nada, um inesperado número de poetas e de poesia tomando de assalto nossa cena cultural, especialmente aquela freqüentada pelo consumidor jovem de cultura, cujo perfil, até então, vinha sendo definido pelo gosto da música, do cinema, dos shows e dos cartoons.

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O declínio da autoria na web & nas artes

Atualizado em 10 de setembro | 6:51 PM

Curiosamente, o tema a teatralidade do humano – ainda que, no mais das vezes, refira-se à práticas artísticas e comportamentais que atravessam a História, encontra um terreno fértil nas práticas artísticas e comunitárias  da web.

Aqui, ela vem em diálogo direto e intenso com as novas práticas identitárias e autorais no ambiente www e seu reflexo na criação off line.

Não fosse assim, a cultura do século XXI não seria tão profundamente marcada pela abertura de um  debate radical acerca da questão da autoria.

Voltando um pouco no tempo, é interessante lembrar que o surgimento da noção de autoria, tal como a experimentamos hoje, vem mais ou menos sincronizada com o ascenso do individualismo e da economia de mercado  pós Revolução Francesa. É nesse momento que surgem as primeiras leis reguladoras da propriedade intelectual como a inglesa copyright e a francesa droit d’auteur. Ainda que com pequenas distinções, ambas geraram um debate forte que já naquela época reforçava os dois eixos do problema: o direito do indivíduo  x o interesse público. O direito do autor, bem como seu corolário a importância da autoria, é, portanto, um direito relativamente novo, que surge gerando polêmicas e cujo DNA sinaliza conflitos de base.

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Modes & Moods

Atualizado em 10 de setembro | 6:46 PM

A ficção brasileira encontrava-se em seu apogeu, sua idade do ouro, o que os americanos poderiam chamar de alto modernismo quando começa a desestabilizar-se tanto pelos primeiros sinais de uma mudança de paradigma na sensibilidade e na produção cultural em sentido mais geral quanto pelas mudanças políticas que a primeira metade da década de 60 trouxe para o cenário brasileiro. A primeira mudança que eu chamaria de forma provisória de inícios de uma sensibilidade pós-moderna, ou seja, o Quarup – virada ainda acreditava em uma saída a guerrilha urbana ainda que herói já seja bastante fragilizado. Fragmentado etc.

O cruzamento da curva da crise do pensamento moderno com o estado de excepcionalidade institucional e uma “modernidade” que nunca deu certo (Darcy Ribeiro, hoje Helio Jaguaribe etc. é um discurso quase que equivalente ao “país do futuro” ou o do “absurdo” tropicalista ao qual o pensamento de esquerda quer por ordem cf Schwartz.) A questão do fanatismo religiosa pm e sua conexão com as tradições de macumba de nossas raízes.

Outro ponto interessante é como intervém sempre nos momento de definição a “desordem da barbárie” para fazer frente ao pensamento organizado “colonial”. Modelo antropofágico até hoje hegemônico resistirá â demanda da pós-modernidade?

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Duas poéticas, dois momentos

Atualizado em 9 de setembro | 7:02 PM

Publicado originalmente em Portuguese Literary & Cultural Studies 4/5, Brazil 2000 2001 – A Revisionary History of Brazilian Literature and Culture, Spring/Fall 2000, University of Massachussetts Dartmouth/ Universidade do Estado do Rio de Janeiro.


Pretendo examinar aqui a poesia jovem emergente em dois momentos específicos da cena cultural e política brasileira, ambos identificados como momentos de colapso ou pelo menos, de decréscimo, da liberdade e da qualidade da criação artística. É o caso da poesia marginal – produzida nos anos 70 em plena vigência da ditadura militar – e o de uma nova estética do rigor, como vem sendo caracterizada a poesia produzida nos anos 90 sob a mais recente forma de ditadura, a ditadura exercida pela lógica do consumo e dos processos de globalização.

Inicio meus comentários pela poesia marginal que, de forma desconcertante, se tomarmos em conta a recepção negativa desta geração de poetas na época, termina entrando para o cânone como a expressão, por excelência, da poética dos anos 70 no Brasil.

O que hoje chamamos de poesia marginal foi, digamos, um acontecimento cultural ou, melhor, um “surto” poético  (para evitar a palavra movimento que sinaliza a idéia de um projeto homogêneo e programático), um “surto” que, por volta  de 1972-1973,  teve um impacto significativo na cena cultural do silêncio determinado pela censura e pela violência da repressão militar no Brasil.

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