anos 1970

Impressões de Viagem – CPC, vanguarda e desbunde | download

Atualizado em 15 de setembro | 11:13 PM

impressoes

Após dez anos fora de catálogo, a Aeroplano Editora relança Impressões de viagem, de Heloisa Buarque de Hollanda. O livro, editado pela primeira vez em 1980, chega à sua quinta edição. Uma percepção refinada da reviravolta na cultura nacional que contém temas que “a universidade brasileira ainda não absorveu ou está absorvendo com dificuldade”, como explica Zuenir Ventura nas orelhas do livro.

As “impressões” dão conta do período final da década de 50 até a queda do Ato Institucional n° 5, em dezembro de 1978. Em sua viagem, a autora investiga três momentos recentes da produção cultural brasileira: a arte revolucionária do Centro Popular de Cultura (CPC), o Tropicalismo e sua censura à intelligentzia de esquerda, a proximidade com os canais de massa e o desbunde, arte marginal do início dos anos 70, alternativa à produção e veiculação do mercado.

Talvez a extrema proximidade com seu objeto de estudo pudesse atrapalhar no diagnóstico da cultura nos anos 60/70. Mas Heloisa consegue com habilidade manter-se isenta criticamente e enriquecer o trabalho com sua experiência vivenciada. Como afirma Silviano Santiago em texto inédito na quarta capa, a leitura de Impressões de Viagem é moderna e deve ser feita de forma crítica para que, lendo o passado, o presente possa ser melhor esclarecido.

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Marginais, alternativos, independentes

Atualizado em 11 de setembro | 7:07 PM

Publicado originalmente no Caderno B, do Jornal do Brasil, em 19.09.1981.


Não sei bem se por coincidência ou provocação, a literatura emergente da última década vem insistindo, obstinadamente, em se nomear, num primeiro momento, como marginal e alternativa e, desde algum tempo, como independente. Ainda que se possa notar nessa mudança certos sintomas de reavaliação daquilo que seria o papel da poesia, a ênfase no eixo da autonomia de sua prática parece permanecer como ponto de honra no que diz respeito aos novos poetas 70/80.

Nas mais variadas circunstâncias, a definição das noções alternativa-marginal-independente vem carregada de sentido objetivo: o controle total da produção e a distribuição do trabalho de poesia, o que traria consigo, entre várias vantagens, como uma maior liberdade de criação, aquela de procurar redefinir o espaço e o alcance social da literatura. Entretanto, à revelia da evidente clareza do argumento, invariavelmente, mal se ouve a “colocação” dos novos poetas, instala-se uma incontrolável confusão: ” qual a poesia que não é independente?”; “Carlos Drummond de Andrade não seria o maior de nossos marginais?”; “Qual literatura que, em seu sentido profundo, não se revela alternativa?”. Nada de estranho na confusão, se levarmos em conta que, pelo menos desde Platão, o poeta é visto e sentido como excluído da República.

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Observações: críticas ou nostálgicas?

Atualizado em 10 de setembro | 6:56 PM

Publicado originalmente na Revista Poesia Sempre, n. 8, ano 5, da Fundação Biblioteca Nacional, em  junho de 1997.

 

Revisitar trabalhos antigos traz sempre uma dor difusa. Ainda mais este, os 26 Poetas Hoje, que se constituiu de certa forma como minhas primeiras impressões digitais profissionais. O que será que hoje, passados 20 anos de sua publicação, eu diria sobre este trabalho?  Não escolhi organizar essa Antologia. Portanto, não foi um crime premeditado, mas seguramente um gesto inocente também não foi. Se houve uma questão que povoou, com ansiedade, toda minha trajetória profissional, foi a das relações entre política e cultura.

Estávamos no início da década de 70, uma época de grande susto e medo, na qual as universidades, o jornalismo e a produção cultural,  à imagem e semelhança do Congresso, entraram em recesso por tempo indeterminado. Da euforia Tropicalista nas artes e nas manifestações políticas, passou-se à disforia que meu amigo Zuenir Ventura, num certeiro e memorável balanço da década, definiu como o vazio cultural. Mas não é essa a história que me cabe contar nesse momento.

O que interessa é que, por volta de 1972-1973, surgiu, assim como se fosse do nada, um inesperado número de poetas e de poesia tomando de assalto nossa cena cultural, especialmente aquela freqüentada pelo consumidor jovem de cultura, cujo perfil, até então, vinha sendo definido pelo gosto da música, do cinema, dos shows e dos cartoons.

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O declínio da autoria na web & nas artes

Atualizado em 10 de setembro | 6:51 PM

Curiosamente, o tema a teatralidade do humano – ainda que, no mais das vezes, refira-se à práticas artísticas e comportamentais que atravessam a História, encontra um terreno fértil nas práticas artísticas e comunitárias  da web.

Aqui, ela vem em diálogo direto e intenso com as novas práticas identitárias e autorais no ambiente www e seu reflexo na criação off line.

Não fosse assim, a cultura do século XXI não seria tão profundamente marcada pela abertura de um  debate radical acerca da questão da autoria.

Voltando um pouco no tempo, é interessante lembrar que o surgimento da noção de autoria, tal como a experimentamos hoje, vem mais ou menos sincronizada com o ascenso do individualismo e da economia de mercado  pós Revolução Francesa. É nesse momento que surgem as primeiras leis reguladoras da propriedade intelectual como a inglesa copyright e a francesa droit d’auteur. Ainda que com pequenas distinções, ambas geraram um debate forte que já naquela época reforçava os dois eixos do problema: o direito do indivíduo  x o interesse público. O direito do autor, bem como seu corolário a importância da autoria, é, portanto, um direito relativamente novo, que surge gerando polêmicas e cujo DNA sinaliza conflitos de base.

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Modes & Moods

Atualizado em 10 de setembro | 6:46 PM

A ficção brasileira encontrava-se em seu apogeu, sua idade do ouro, o que os americanos poderiam chamar de alto modernismo quando começa a desestabilizar-se tanto pelos primeiros sinais de uma mudança de paradigma na sensibilidade e na produção cultural em sentido mais geral quanto pelas mudanças políticas que a primeira metade da década de 60 trouxe para o cenário brasileiro. A primeira mudança que eu chamaria de forma provisória de inícios de uma sensibilidade pós-moderna, ou seja, o Quarup – virada ainda acreditava em uma saída a guerrilha urbana ainda que herói já seja bastante fragilizado. Fragmentado etc.

O cruzamento da curva da crise do pensamento moderno com o estado de excepcionalidade institucional e uma “modernidade” que nunca deu certo (Darcy Ribeiro, hoje Helio Jaguaribe etc. é um discurso quase que equivalente ao “país do futuro” ou o do “absurdo” tropicalista ao qual o pensamento de esquerda quer por ordem cf Schwartz.) A questão do fanatismo religiosa pm e sua conexão com as tradições de macumba de nossas raízes.

Outro ponto interessante é como intervém sempre nos momento de definição a “desordem da barbárie” para fazer frente ao pensamento organizado “colonial”. Modelo antropofágico até hoje hegemônico resistirá â demanda da pós-modernidade?

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