1968

Antes e depois da meia-noite

Atualizado em 27 de maio | 1:52 AM

ANTES E DEPOIS DA MEIA-NOITE

Para a professora Heloísa Buarque de Hollanda, 1968 pautou uma agenda de políticas para as minorias

Ela hospedou um dos réveillons mais comentados da história do Rio de Janeiro. Na virada de 67 para 68, a “casa do Luís e da Helô” recebeu artistas, políticos, jornalistas e socialites para uma celebração que prenunciaria a convulsão de transformações prestes a vingar no ano vindouro. Para se ter uma idéia do alvoroço que tomou conta do espaço, só naquela noite 17 casamentos foram desfeitos – inclusive o da própria anfitriã. Heloísa Buarque de Hollanda saiu dali para se consolidar como uma das mais importantes pesquisadoras de Estudos Culturais no Brasil. Para ela, que atua como professora de Teoria Crítica da Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o espírito de coletividade cultivado em 68 se manifesta na vida pulsante das periferias, motivo pelo qual ela se faz otimista quanto ao futuro.

“A revolução de 68 não aconteceu, mas acho que ela formulou uma agenda. Hoje a ecologia está na pauta nacional, as minorias têm políticas próprias pra si. Você não tem mais um projeto único. Ele implodiu e as ruínas germinam hoje em vários espaços”, afirma.

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Novas políticas estéticas – primeiras observações

Atualizado em 10 de setembro | 6:48 PM

De uns tempos para cá, provavelmente pela urgência com que se apresenta para nós, teóricos e críticos de cultura,  a compreensão das novas lógicas e dos novos paradigmas que marcaram essa virada de século, olho para trás com enorme curiosidade. No caso do tema deste seminário, os marginais, o mercado  e a atitude como forma de expressão artística,  que tem sido por longos anos meu objeto de estudos preferencial, a curiosidade se intensifica.

Comecei a me interessar pelos poetas, cineastas e artistas marginais, nos anos 1970, com um viés bastante contextualizado. Naquele momento, percebi como irrecusável examinar a atitude marginal tanto frente ao mercado, frente ao cânone artístico moderno e ainda como uma resposta criativa ao silêncio imposto pela ditadura militar, especialmente após o chamado “golpe dentro do golpe” de 1968.

Ao lado da atuação no cotidiano experimentada como forma de prática artística, outros pontos de interpelação ao status quo chamavam a atenção. Era a novidade radical das políticas do comportamento como forma de fazer política e cultura – um nicho descoberto e desenvolvido pela “geração AI5”, ou seja, a geração que entrou para a cena social e cultural durante a vigência severa da censura imposta pelo regime de governo pós-1964.

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Entrevista para Zuenir Ventura

Atualizado em 19 de agosto | 6:01 PM

– Você , que foi ícone daqueles tempos, como ficou depois que a festa acabou?

HB: Eu não fui ícone nada. Você é que inventou isso, que criou esse personagem, que, aliás, adorei e vivo dele! Mas quem inventou foi você.

– Mas, enfim, como você ficou depois de 68?

HB: Fiquei com a herança. Acho que o que 68 deu pra gente foi uma alforria, uma energia_ não sei se o nome é utopia _ uma vontade quase obsessiva de que as coisas acontecessem e, sobretudo, mudassem. Não é difícil conferir como, em muitos,  casos essa energia ainda está ativa. Existe um teórico americano muito bom, o Fredric Jameson, que, como nós padece da orfandade das utopias dos anos 60, que procura identificar para onde foi essa superinflação de energias da nossa geração. Uma primeira coisa , que não é dele, mas que ´é muito interessante é que , pelo menos na academia, muitos inconformados com a perda daquele momento eufórico, que participaram na New Left Review, da nova esquerda, dos movimentos sociais que emergiram  pós 60, foram se abrigar numa disciplina nova, muito interessante nesse sentido de abrigo possível da academia de esquerda, que são os Estudos Culturais, especialmente em sua corrente saxônica.

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Portal Conexão Professor – Secretaria da Educação do Rio de Janeiro

Atualizado em 19 de agosto | 4:46 PM

1 – Gostaria de saber, agora passados quarenta anos, como a senhora vê o ano de 68, todos os acontecimentos e a sua importância para a história do Brasil.

Acho que 1968 marcou sobretudo a descoberta da alteridade. E, neste sentido, sua contribuição foi fundamental e até hoje ecoa na política e na produção intelectual e artística do Brasil.

2 – A senhora coordenou um projeto sobre a cultura alternativa durante o regime militar. Poderia falar um pouco sobre ele?

Eu me dediquei durante os anos da ditadura às várias  manifestações culturais alternativas que, naquele período, eram chamadas de “marginais”. Meu interesse por essa faixa de produção foi porque, sendo à margem do sistema e não se identificando diretamente com as ideologias da esquerda tradicional,  essa produção foi de certa forma “poupada” pela censura, ainda que, eventualmente, tenha tido sérios problemas com a repressão.  Assim talvez a cultura alternativa tenha sido uma das poucas áreas da produção cultural que pode se expressar com um certo grau de liberdade e tenha conseguido escrever o testemunho que se chamou a geração AI5.  Foi isso que me atraiu na cultura alternativa produzida durante o período do regime militar e que me estimulou a prosseguir com um grande entusiasmo atravessando aqueles tempos chamados de “vazio cultural”.

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Entrevista para Cintia Lima

Atualizado em 19 de agosto | 4:44 PM

 A poesia chamada marginal é poesia para quem a aceita como poesia, mas, por sua própria definição, situa-se à margem e, por isso mesmo, fora da literatura. Na realidade, é essa a visão de literatura marginal de alguns teóricos, mas o que gostaríamos que você explicasse se sua visão sobre o assunto diverge ou simplesmente consolida essa definição.

R: Não entendo a literatura marginal como “fora da literatura” e sim como uma produção literária “fora do sistema editorial” aqui entendido como o circuito tradicional de distribuição e comercialização do mercado livreiro, o que, na realidade, é o projeto explícito do grupo.  A dicção, na época, definida pelos próprios marginais como “anti-literária” refere-se não à literatura em geral ( vários, inclusive , referem-se à suas filiações modernistas, especialmente identificados com Manuel Bandeira e , em segundo lugar, com Carlos Drummond)

Para muitos, a década de 70 foi considerada a década do “vazio cultural”, alucinações: para outros, anos de revisões e ampliações. Gostaríamos de saber a sua percepção desses famosos anos 70 e uma definição sua para essa expressão “vazio cultural”.

Quando Zuenir Ventura batizou os primeiros anos da década de 1970 como vazio cultural, com muita propriedade, ele referia-se ao esvaziamento dos quadros de professores nas universidades, de intelectuais e artistas ativos no período pré-68, todos em exílio compulsório, voluntário ou presos.

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