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Quem tem medo da tecnologia?

Atualizado em 10 de setembro | 7:04 PM

O tom apocalíptico diante do aparecimento de novas tecnologias tem sido, até agora, praticamente inevitável. Não seria muito diferente com a chegada definitiva da cultura digital e da comunicação virtual entre nós.

Provavelmente é por isso que a agenda atual da maioria absoluta de nossos encontros acadêmicos ou eventos culturais venha incluindo, de forma praticamente obrigatória, temas e questões sobre as possíveis conseqüências fatais do sucesso de edições on-line, do advento dos non-books ou publicações digitais, de novos hardwares como os e-books e do acelerado desenvolvimento do comércio eletrônico. Qual seria, nesse novíssimo quadro, o futuro da produção editorial impressa e do mercado livreiro presencial? E, sobretudo, quais as reais perspectivas do risco aí implicado: o fim da criação literária, do prazer da leitura linear tradicional, e, com eles, o dramático fim da cultura do livro.

Realmente, a agilidade da circulação dos produtos culturais hospedados na rede, ao lado de gêneros literários que começam a desafiar a “leitura sustentável” como no caso da hiperficção, são temas que oferecem uma pauta infinita para os críticos de cultura e os profissionais do livro.

Do ponto de vista prático ou apenas material, esse temor não parece justificar-se de imediato. Uma observação, mesmo apressada e superficial, do processo que liga a criação ao consumo literário, vai identificar o atual sistema de distribuição do livro como sendo a  caixa preta do mercado do livro. Nesse caso, é certo que mesmo as previsões mais pessimistas se ponham de acordo quanto à evidência de que o comércio eletrônico, especialmente em países de poucas livrarias e pólos de venda como o Brasil, sinaliza um horizonte de enorme potencial na agilização e barateamento na circulação de livros e, consequentemente, na promoção do consumo e do hábito da leitura.

Portanto, o que deve ser golpeado de forma significativa pelo advento das formas de comunicação eletrônicas seria, basicamente, o sistema de comercialização e divulgação do livro no qual, sérias alterações são esperadas. Pensando nessa direção, convenhamos, pelo menos para a ala dos criadores e leitores, as mudanças não se anunciam de forma totalmente má.

Fora isso, a nova mídia, como a história já nos ensinou, não deve decretar o “fim da cultura letrada”. Um pequeno esforço de memória vai nos trazer de volta a lembrança do mesmo pânico expresso pela pintura em relação ao advento da fotografia, do teatro em relação ao cinema ou do cinema em relação à televisão. Em todos os casos, de forma repetitiva, a forma de expressão ameaçada de desvalorização mostrou, de maneira surpreendentemente rápida, uma revitalização criativa e uma abertura de canais expressivos insuspeitos. Uma vez relativamente liberadas de suas funções miméticas de origem, essas mesmas formas artísticas “ameaçadas” nos surpreenderam com o surgimento e a afirmação da arte abstrata, do teatro experimental, do cinema de autor.

No nosso caso, se a história continuar se repetindo, tudo indica que bons ventos devem soprar a favor do livro impresso: uma vez liberado de sua responsabilidade enquanto veículo na transmissão da informação e da referência, o livro  não tem porque não potencializar positivamente as enormes perspectivas abertas para a criatividade editorial, que a entrada das linguagens digitais e que as novas tecnologias de armazenamento desenvolvidas pelos bancos de dados virtuais permitem.

Portanto, ao contrário das previsões pessimistas, esse momento deve ser o momento do livro.

Ainda em relação ao pânico beletrístico ou às posições tecnofóbicas que tendem a bloquear a compreensão dos fenômenos emergentes, sempre me vem à lembrança uma brilhante entrevista dada por Michel Foucault a Paul Rabinov. Foucault, analisando a invenção da chaminé e sua importância decisiva na configuração do espaço doméstico e familiar moderno nos mostra como, através da História, uma nova tecnologia sempre é criada em função de profundas transformações sócio-culturais já em curso e das novas  necessidades geradas por estas próprias transformações. Com isso Foucault dá um cheque mate no argumento tradicional do senso comum que parte do pressuposto de que as inovações tecnológicas em si promovem alterações sócio-culturais.

Diz Foucault: “Mesmo que seja evidente que as técnicas têm influência direta na formação de novos comportamentos e novas culturas, é impossível admitir-se que esta mesma técnica tenha se desenvolvido caso não estivesse já correndo transformações nos processos e estratégias das relações humanas que apontassem nesta direção”.[1]

Como curiosidade e fechando o foco apenas na área da literatura, vou trazer alguns exemplos de transformações já evidentes no espaço literário e que mostram uma certa homologia com as lógicas das novas tecnologias e das estratégias mais recentes da produção sob a égide do consumo.

Para isso, o mais prudente é suspender temporariamente os parâmetros de interpretação que normalmente lançamos mão e que talvez não dêem mais conta do panorama atual que vem sendo identificado como pós-moderno.

Portanto, deixarei de lado critérios como a noção de qualidade literária ou estética, de inovação formal, de série literária, de estilos, movimentos e tantos outros até pouco tempo “intocáveis” pela crítica. Proponho-me apenas a identificar alguns estranhamentos que, cada vez mais, venho me confrontando em minha atividade crítica.

O primeiro é a inédita pluralidade vozes que se firmou nesta última década.  Dicções étnicas, etárias, regionais, definidas por preferências sexuais, políticas, de classe, comportamento, “atitude”, e mais uma gama infinita de posicionalidades, mostram não apenas a vitória política das minorias mas também um fato novo e de insofismável importância: entram agora em cena a presença de novas competências e saberes definindo outros códigos e valores no circuito da criação e circulação dos produtos literários.

Por outro lado, parece que artistas e escritores, afinados com a dinâmica do novo mercado de cultura, começam também a criar e a atender a demandas segmentadas desse mercado, o que deve certamente democratizar a fruição e o consumo da literatura de forma mais ampla.

Não há dúvida que há uma certa consonância entre estas formas mais plurais de produção literária com os modelos ativos de difusão do consumo de massa, no qual as novas estratégias de mercado são marcadas pela percepção de que a homogeneização da oferta não pode mais predominar, cedendo o lugar à uma busca bastante específica e clara da diversificação da produção e do consumo.

Como diagnosticou Fredric Jameson,[2] assitimos hoje a uma inédita culturalização das práticas artísticas, ou seja, a ampliação de seu raio de consumo através da abertura de espaços culturais não formais e da emergência de novos hábitos sociais e comportamentais. Neste ponto, não há como evitar uma pergunta capciosa: não estaria também a própria função social da arte num momento de transformação estruturalmente radical?

Outra dificuldade que venho encontrando, de forma bastante freqüente, é a quase falência de um parâmetro crítico até hoje bastante importante: o valor decisivo do caráter oposicional ou radicalmente inovador para a avaliação positiva de uma obra literária.

Ao contrário, o que hoje vemos vigorar é o prestígio da habilidade em articular dados ou procedimentos, digamos, já conhecidos da tradição literária ou política-cultural. Assim, a exemplo da voga atual de um procedimento como a “citação”, podemos perceber como o que seria hoje experimentado como o “novo” é, na realidade, a invenção de formas criativas de articular, refuncionalizar ou mesmo clonar informações de estilo, linguagem ou – para não deixar de lado a palavra da moda – de “conteúdo”, disponíveis no atuais acervos de referências.

Esse procedimento nos remete inevitavelmente a uma lógica quase museográfica.

É o que alguns teóricos chamam de advento de uma nova musealização, entendida como um fenômeno cultural de amplo espectro que abrange desde o súbito prestígio dos museus na cidade pós-moderna, da mania com o restauro de monumentos e centros urbanos, da voga das memórias, biografias ou de obras literárias com forte acento erudito, referencial e de recuperação histórica, até a obsessão com o aumento da capacidade dos bancos de dados e de seus hard disks.

Finalmente, fecho meu foco no universo digital,  reduto máximo da informação e da memória, e também um novíssimo reduto de circulação que se abre para a produção cultural,  que é o espaço plural e ingovernável da internet. Espaço esse que vem mostrando um crescimento inesperado na América Latina.  Estima-se, por exemplo, que o número de usuários da internet na América Latina aumenta 33% anualmente e que os 12.7 milhões de usuários em 2001 passarão à 24.3 milhões em 2003.[3]

Os índices mostram também que ainda que a maioria dos sites sejam na área de negócios e economia, as páginas de artes, música e literatura começam a aumentar de forma acelerada, mudando o perfil dos usuários da rede e definindo novos hábitos e comportamentos especialmente entre os grupos jovens. É o caso, por exemplo, dos cybercafés, refúgios que se transformaram numa solitária e concorrida forma de socialização, especialmente das tribos jovens à procura de parceiros e aventuras virtuais. Portanto, um fenômeno nada desprezível.

Mas não quero fugir aqui do campo específico das letras e dos sintomas de mudança que venho percebendo no espaço e no tecido cultural da literatura.

Resumindo, até agora comentei a pluralidade de vozes e dicções multiculturais que vem surgindo e produzindo texturas polifônicas e descentralizadas nas linguagens e expressões literárias e artísticas.  Observei também a evidência de um culturalização que amplia o consumo e a fruição dos produtos culturais através de inovações no uso de canais e mídias diversificadas e através dos comportamentos gerados pelas novas estratégias de produção e consumo segmentados. A propósito, nesta linha, nunca é bom esquecer a erosão já irreversível dos limites entre cultura “alta” e cultura de “massa” na criação contemporânea de ponta.

E, afinal, apontei uma alteração radical no trato com a tradição. A obsessão pelo novo, traço fundamental da cultura moderna, dá lugar ao jogo com os elementos da tradição, sua clonagem, sua refuncionalização. O museu, a valorização da memória, a referência histórica, o mundo contido no banco de dados passam de bode expiatório da modernidade à matéria prima por excelência da criatividade pós-moderna.

Por que então o universo descentralizado e referencial por excelência da web é percebido como um universo de alto risco e não como a viabilização tecnológica da estrutura fractal que já informa o universo simbólico 2000?

Não é difícil ver a emergência, no ambiente da internet, de um grande número de novos autores, grupos jovens, de funkeiros e rapppers, ou de autores não tão jovens, mas que se articulam apenas para divulgar sua produção sem ter muito em comum a não ser o desejo de estabelecer um canal eficaz e barato para a distribuição de seu trabalho.

É claro que a cultura da internet não vai deixar de imprimir sua marca na nova produção textual. E a mais imediata e atraente, deve ser exatamente no coração de uma liason dangeureuse que é a relação autor/leitor.

Não é difícil prever que, no novo espaço cibernético, essa relação vai se tornar, de certa forma, incontrolável, pois, na rede, o leitor é levado a operar de forma múltipla em seu encontro com um texto. Neste caso, o prognóstico mais realista é o de que o leitor saia linkando partes do texto do autor que está consultando, ou apenas lendo, com partes de novos textos que estejam real ou virtualmente sinalizados em sua “bússola particular”. Junto com essa observação um pouco desconfortável, vem outra mais dolorosa: a de que provavelmente o prestígio e a legitimidade do mito da autoria, um dos maiores encantos e fontes de prazer do intelectual moderno, anda correndo sérios riscos.

Realmente, as transformações que se anunciam para nós, literatos e simpatizantes, não são poucas e até  podem ser terríveis para alguns, mas quem sabe também possam ser altamente atraentes para aqueles que queiram investir nas novas formas e negociação e de transformação textual que andam nos rondando neste início de milênio.


 

[1] Michel Foucault. “Espaço e Poder – Entrevista a Paul Rabinov” in Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no. 23, 1994.  pgs.  139-145

[2] Jameson, Fredric. “Periodizando os anos 60” in H. B. Hollanda (org.) Pós Modernismo e Política. Ed. Rocco, 1989.

[3] http://www.nua.ie/surveys/index.cgi?f=VS&art_id=905354870&rel=true