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Programa Professor-Leitor

Atualizado em 15 de setembro | 12:27 PM

O encontro decisivo entre as crianças e os livros se produz nos bancos escolares. Quando se produz numa situação criativa, na qual o que conta é a vida e não o exercício, pode surgir o gosto pela leitura, com o qual não se nasce, pois não é um instinto. Quando se produz numa situação burocrática, quando se maltrata o livro como instrumento de exercícios (cópias, resumos, análise gramatical, etc.), sufocado pelo mecanismo tradicional “exame-julgamento”, pode nascer a técnica da leitura, não o gosto. As crianças saberão ler, mas só lerão se forem obrigadas.

Fernando Savater.

Objetivo

Transformar o professor em leitor através de um percurso pelos diversos ofícios que permitem essa transformação. São eles: ofício de platéia, de leitor, de fomentador de alunos-leitores, de produtor de conhecimento e de professor reflexivo.

 

Justificativa

Temos nos saído muito mal nos índices de leitura do SAEB – Sistema de Avaliação da Educação Básica. Nossas crianças lêem mal e pouco compreendem o que lêem. O conceito de leitura vem se modificando profundamente ao longo das últimas décadas. Se antes significava codificar e decodificar letras em sons e sons em letras, a leitura, hoje em dia, significa ser capaz de navegar nos segredos e mistérios de uma quantidade imensa de gêneros de texto – e seus respectivos contextos – , tais como, carta, requerimento, procuração, notícia, reportagem, propaganda, bilhete, cartaz, romance, conto, poema, charge, relatório, receita, lista de compra, cartão de felicitação, nota fiscal, recibo, verbete de dicionário, cheque, e-mail, crítica de cinema, artigo de opinião, classificados de jornal, mapa, roteiro turístico, guia turístico, placa de sinalização, música, paródia, livro de histórias, biografia, rótulo, entre tantos outros gêneros discursivos possíveis. E assim, ler e compreender, antes distintos, agora se implicam mutuamente. Por isso, deixou de ser tarefa para um único ano escolar e passou a requisitar, segundo Anne Marie Chartier, pelo menos três anos.

Considerando-se que parte substancial da aprendizagem escolar se dá através da leitura, temos que é essencial que o aluno saiba ler bem. As iniciativas federais, estaduais e municipais de incentivo à leitura têm incidido sobre os alunos. A posição que aqui defendemos é que são necessários programas de leitura para os professores porque é deles a responsabilidade de fomentar o gosto pela leitura. O investimento nos alunos beneficia cada aluno e isso é bom. O investimento em cada professor atingirá centenas e centenas de crianças e jovens ao longo de sua carreira docente. Esse efeito multiplicador do docente não pode ser desprezado. E não se está investindo o suficiente no professor. Seu papel social precisa recuperar a importância e a visibilidade social de que já gozou no passado e que veio se esvaziando nas últimas décadas. Se, por um lado, é bem verdade que nossos baixos índices de leitura aferidos pelo SAEB deveriam nos fazer corar diante de nossos próprios alunos – com quem fracassamos –, diante da nossa sociedade e diante do mundo, por outro lado, também é verdade que os alunos bem sucedidos são muita vez o resultado do trabalho de milhares de professores cuja dedicação chega às raias do heroísmo.

A Literatura vem retratando todas as emoções, grandezas e vicissitudes do ser humano. Toda a riqueza da nossa civilização está nela escondida, pronta para ser descoberta por todos aqueles que sabem que ali tem um tesouro. Por isso, a leitura é um direito, diz Ana Maria Machado. Por isso, os ingleses denominam seus programas de leitura pelo termo “paixão”. Enquanto um livro não se abre, não passa de um paralelepípedo. Depois de aberto, exalta as teias da nossa imaginação e nos mergulha num universo de identificações (pela semelhança) ou de surpresas (pela diferença) em relação aos personagens e aos fatos da narrativa. E, assim, pela generosidade dos que escrevem, vamos multiplicando nossas experiências e nossas visões de mundo. Por causa deles, temos a chance de viver nossas vidas bem mais apetrechados para desvendar os seus segredos e abrir-lhes novas sendas. E isso é uma demanda político-sociológica imperiosa do nosso tempo.

Por todo o exposto, o projeto que ora apresentamos volta-se para o professor. Procuraremos transformá-lo num leitor bem mais experiente e bem mais apaixonado. E, mais do que isso, o ensinaremos a fazer o mesmo com seus alunos.

População-alvo

Trabalharemos, em 2005, com 120 professores de 15 escolas da 2a CRE (Coordenadoria Regional de Educação) do Município do Rio de Janeiro, assim distribuídos: 60 professores regentes de turma de 3as e 4as séries e 60 professores de Língua Portuguesa de 5as e 6as séries. Todas as 15 escolas se situam em regiões de risco e atendem, portanto, a populações das comunidades mais necessitadas, tais como, do Chapéu Mangueira (Leme), Pavão/Pavãozinho e Ladeira Tabajara (Copacabana), Cerro-Corá e Dona Marta (Botafogo), Macaco, Borel, Formiga e São Carlos (Tijuca e adjacências) e Rocinha.

Os professores participarão do projeto por sua livre vontade, mas, depois de terem aderido, deverão se comprometer a nele se manter. Por sua participação e trabalho, os professores receberão uma bolsa de estudos.

 

Metodologia de trabalho

Serão 20 encontros quinzenais presenciais com os professores, aos sábados, de 9h00 às 13h00, nos meses de fevereiro a novembro, somados a uma grande variedade de eventos culturais de apoio realizados nas escolas em que esses professores trabalham.

O primeiro encontro será de Abertura e, no último, haverá uma Festa de Encerramento, com apresentação de trabalhos realizados pelos professores. Isso nos deixa com 18 encontros, que serão divididos em 6 módulos, cada um em torno de uma obra literária.

Trabalharemos com 6 obras de literatura, a serem escolhidas pelos membros da coordenação do projeto a partir de critérios tais como:

–    que conste daquele acervo doado às escolas pelo governo

–    que tenham sido alvo de outras manifestações, como cinema, fotografia, música, etc

–    que variem entre si de autor, temática, gênero, etc – de modo a compor, no todo, um passeio por diferentes  estilos e linguagens

No primeiro encontro, os professores receberão um kit com esses 6 livros. Será também constituída uma biblioteca com dezenas de títulos para permitir empréstimo de livros aos professores para que possam exercitar a leitura livre, descompromissada.

Para cada obra, haverá três encontros e três intervalos de 15 dias entre eles:

1o encontro um evento disparador (para todos os 120 professores), que tenha fortes conexões com o livro a ser lido, como, por exemplo, assistir a um filme ou a um espetáculo. Nesse momento, o professor está no ofício de platéia.

intervalo leitura do livro e eventos culturais nas escolas

2o encontro professores – divididos em 6 grupos de 20 – trabalham sob a liderança de um docente-monitor. No primeiro tempo desse encontro, o professor está no ofício de leitor. No segundo momento, é confrontado com o ofício de fomentador de alunos-leitores, pela vertente de planejamento.

intervalo eventos culturais nas escolas

professores trabalham com seus alunos o que planejaram com seu monitor no 2o encontro e registram sua experiência por escrito. Nesse momento, o professor executa o planejado a partir do ofício de fomentador de alunos-leitores, pela vertente de experimentação.

3o encontro professores relatam suas experiências em sala de aula, refletem sobre elas, tiram conclusões. Nesse momento, o professor está no ofício de produtor de conhecimento. Na segunda parte desse encontro, professores trocam livremente entre si suas impressões sobre livros lidos, com o objetivo de encantarem uns aos outros. Nesse momento, o professor está no ofício de leitor pelo viés da fruição.

intervalo eventos culturais nas escolas

professores reescrevem seus relatos de experiência considerando as discussões do 3o encontro. Nesse momento, o professor está no ofício de professor reflexivo.

Cada um desses ofícios se define por um conjunto de ações e é preciso ensiná-las aos professores.

Os Profissionais e suas Funções

 

Funções da Coordenação Pedagógico-Administrativa

 

A Coordenação Pedagógico-Administrativa do Programa Professor-Leitor seria exercida pela Linha Mestra Consultoria Psicopedagógica e compõe-se das seguintes funções:

participar da seleção, juntamente com a equipe cultural, dos 6 livros em torno dos quais girarão os 6 módulos;

contribuir para a seleção dos (cerca de) 250 livros de literatura que comporão o acervo da biblioteca;

participar de encontros sistemáticos com a equipe cultural;

selecionar e treinar os monitores;

indicar nome e perfil do assessor especialista em literatura-cultura e do assessor em leitura;

organizar o processo de captação e de inscrição dos professores;

manter contato com a Direção de todas as escolas participantes do projeto-piloto para acompanhar os experimentos dos professores nas suas respectivas unidades e para monitorar sua presença e produção de registros;

planejar suporte para os professores que necessitem de apoio para escritura de seus relatos de experiência;

criar estrutura e metodologia de trabalho que assegurem a transformação do professor em leitor, o que significa construir cada um dos ofícios pelo qual passará, quais sejam: ofício de platéia, de leitor, de fomentador de alunos-leitores, de produtor de conhecimento e de professor reflexivo;

elaborar, em conjunto com os monitores e com os assessores-especialistas, o planejamento pedagógico de cada módulo;

promover, coordenar e gerenciar os encontros semanais de estudo, de debates e de leituras com os monitores, fazendo-os passar pelos mesmos processos que deverão disparar e coordenar junto aos professores;

administrar a realização pedagógica de cada módulo (selecionar, formatar, xerocar, apostilar e distribuir os materiais a serem utilizados pelos professores);

manter ata dos encontros com os monitores;

manter registro das atividades dos monitores junto aos professores;

orientar os relatos de experiência dos professores e monitorar sua produção;

contribuir, dentro de sua especialidade, para o planejamento e produção do evento cultural disparador  de cada módulo;

quando o evento cultural disparador for realizado por artistas, encontrar com eles para se debater a melhor maneira de, através de sua apresentação, contribuírem para o foco central desse programa;

contribuir, dentro de sua especialidade, para o planejamento e produção dos eventos culturais que acontecerão nas escolas participantes do projeto-piloto;

contribuir, dentro de sua especialidade, para a edição da publicação que conterá os relatos das experiências que terão sido realizadas;

–        elaborar e realizar tudo isso tendo em mente a multiplicabilidade do projeto-piloto para quantitativos bem maiores.

 

Funções do Monitor

 

participar dos encontros semanais dos monitores (as tardes de 4a feira) para planejamento, estudo e debates;

orquestrar os 20 sábados (ver calendário anexo) de encontro com os 20 professores do seu grupo;

–        manter uma prática de estudo e de leitura em casa (cerca de 4-6 horas semanais);

implicar-se na aprendizagem dos 20 professores do seu grupo;

–        envidar todos os esforços para que os 20 professores do seu grupo mantenham suas responsabilidades: de freqüência e pontualidade, de realização de experimentos e de produção de registros desses experimentos;

providenciar suporte para os professores que apresentarem dificuldade na escrita de seus relatos de experiência;

fazer dos 20 professores do seu grupo uma equipe de cooperação profissional.

 

Perfil do Monitor

 

–        é um leitor experiente e apaixonado

–        tem autonomia de pensamento

–        tem reconhecida competência docente em escola como educador e não como aulista

–        tem disponibilidade e desejo de estudar

–        sabe escrever e ensinar a escrever “relato de experiência” ou tem disposição para aprendê-lo

–        tem experiência de transgressão, ousadia e brincadeira pedagógicas na sala de aula

–        é sensível, tem boa escuta e boa percepção do outro

–        trabalha muito bem em equipe

tem disponibilidade para trabalhar em janeiro (para planejar o 1o módulo)

precisa disponibilizar todas as tardes de 4a feira, 20 sábados (de fevereiro e dezembro) e mais algum tempo de estudo e de leitura ao longo de 2005

Além disso, cada monitor deve ter uma característica especial que enriqueça a equipe. Por exemplo, pelo menos um deve ser:

–          professor de Língua Portuguesa

–          professor da rede municipal de educação

–          artista experiente ou especialista em arte-educação

–          professor de outra matéria que não Língua Portuguesa

–          professor com experiência em trabalho colaborativo