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Pós-Feminismo

Atualizado em 14 de setembro | 8:07 PM

Em tempos de globalização, descentralização dos fluxos da economia da informação e, sobretudo, de prevalência das lógicas do consumo,  entra em cena uma variável que atinge de forma irreversível os modelos teóricos dos estudos cujo eixo são as noções de “diferença”.

De fato, a sociedade do consumo, entre outras alterações profundas nos paradigmas modernos, nos apresenta uma novidade inesperada: ao invés dos processos de massificação e homogeneização, característicos do modo de produção capitalista, surgem agora as estratégias da diversificação como a bandeira por excelência da nova lógica das sociedades de consumo. Como potencializar então, neste novo panorama, as políticas da diferença?

Nesse quadro, uma entre as várias questões que se colocam para os estudos e para as práticas políticas feministas é a pergunta sobre como as novas gerações estão experimentando e lidando com as conquistas feministas do velho século XX, também conhecido como o século das mulheres?

Do ponto de vista rigorosamente pessoal, me inquieta de forma insistente a pergunta: valeu a pena a luta feminista à qual minha geração dedicou-se com tanto empenho?

Na realidade, a trajetória das lutas em torno das discriminações da “diferença” não foi sempre a mesma. Apenas como lembrete, é importante registrar a variedade de táticas e contra-ataques das políticas feministas nesse passado recentíssimo. Nos anos 60, diria, prestando o devido tributo à Gramsci, que o feminismo atuou no diapasão de uma “guerra de posição”. Ou seja, seus esforços voltaram-se prioritariamente para a marcação de território, para a demanda agressiva da “igualdade” entre os sexos. Já nos anos 70/80, época na qual o pluralismo pós-moderno começa a dar o tom, assistimos, ainda apud Gramsci, a uma “guerra de manobra”, ou, melhor dizendo, a um claro movimento de valorização da “diferença” como importante elemento de negociação social e cultural e, particularmente,  elemento vital de interpelação da episteme totalizante da modernidade e seus discursos falo/etnocêntricos.  É a época de ouro do debate teórico feminista. É a época, como diria Jean Franco, na qual as mulheres partem para uma de suas mais importante conquistas: o direito de interpretar.

Hoje, na virada do milênio, sente-se uma certa insegurança quanto à vitalidade e quanto às perspectivas de inovação da produção teórica e artística de caráter feminista. O mais sensato é procurar esta resposta na nova produção cultural das mulheres  a partir dos anos 90. Fico, nessas primeiras impressões, com duas áreas que me são particularmente caras: a poesia e as artes visuais.

Antes de mais nada, é importante registrar que as novas produtoras de arte e literatura recusam qualquer forma de identificação com as “antigas” (sic) lutas e demandas feministas. Quando muito se dizem pós feministas,  termo que eu rejeitaria instintivamente, se não tivesse percebido naquele momento que, além não prescindir da idéia de feminismo em sua própria nomeação, a noção de pós-feminismo poderia vir a ser um bom atalho para a criação de novas perspectivas para se examinar o feminismo a partir de um locus diferenciado.

Tomo como campo para algumas observações iniciais, a obra de Claudia Roquette Pinto, poeta, e de Marcia X, Rosana Palazyan, Cristina Salgado e Ana Miguel, artistas plásticas.

Claudia Roquette é dona de um texto surpreendente.

Caminhando em profunda sintonia, ainda que em sentido inverso ao de Ana Cristina César, ícone da poesia feminina dos anos 70, Claudia nos oferece um texto de incrível densidade poética e rigor no trato com a linguagem, no qual não mais se percebe o jogo prismático de espelhos e a impostação ácida da sedução que caracterizou a grande novidade da intervenção subversiva das mulheres no reino da poesia,  como é o caso da poética de Ana C.  É curioso observar que  a investigação radical e recorrente dos jogos das várias “subjetividades femininas” – campo de pesquisa por excelência da crítica literária feminista – não se constitui mais como preocupação no novo ethos pós feminista dos anos 90. O que se percebe na obra de Claudia é, ao contrário, uma clara refuncionalização de sentidos e uma inclinação visceral em olhar não para dentro de si, mas para fora, para o mundo, em situar-se, em mapear com precisão o território onde se encontra sem abandonar (e talvez até radicalizando) sua perspectiva de gênero. E o que a poeta vê é a violência modulada em várias claves: na clave erótica, na familiar, na amorosa, na social.

De forma bastante curiosa, este ethos é também a chave da produção na área das artes visuais produzidas pelas mulheres na virada do milênio.  O processo de reciclagem de acervos materiais e simbólicos e as formas de ressignificação de ícones modernos parecem ser os procedimentos centrais na nova estética feminina. Nesse caso, como na poesia de Claudia Roquette, temas pesados e extremamente violentos são tratados através da utilização de materiais frágeis e tradicionalmente domésticos como docinhos, balas, bonecas ou imagens de contos infantis, bem como os clássicos instrumentos de sedução feminina como meias de seda, pérolas ou alfinetes. Apenas como amostragem eu citaria a  série “Sorrisos”, “As Meninas” ou “Nuas” de Cristina Salgado,  como as obras: Sapatinho só com dedo indicador ferro e massa acrílica; “Série Nuas” massa acrílica, anéis; Sapato, massa acrílica, ferro; do olhar lucidamente microscópico de Ana Miguel como ocorre nas obras “O sentimento dos docinhos ante seu destino” em papel japonês, ; “I love you”  instalação em cetim, veludo, crochet e mecanismos de som e movimento que reproduzem teias de aranha com unhas ponteagudas, “As flores também ficam instáveis e podem ferir” diabólico jardim feito em estrutura de metal, veludo, alfinetes e apoio sonoro) , “O amor é uma droga pesada” instalação também com som e movimento feita com olhos de boneca, fazenda, agulhas, pérolas e crochet) , Rosana Palazyan que narra a partir de quase iluminuras histórias de violência, assassinato, estupro imprimindo e desenhando sobre suportes como santinhos de primeira comunhão, roupas de bebê, fronhas, fitas, nylon. É ainda notável nesse sentido a releitura em bordados complexos e detalhados de histórias infantis emblemáticas como Cinderela ou Chapeuzinho Vermelho. Marcia X:  “Os Kaminha Sutrinhas”, madeira pintada, tecido e bonecos eletrônicos, “Fabrica Fallus” objetos estimulação sexual,  “Panqueca” suporte ela mesma vira doce coberta de leite condensado e confeitos coloridos.