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Periferias Literárias

Atualizado em 19 de agosto | 12:02 AM

Heloisa Buarque de Hollanda
Coordenação

Apresentação

As questões centro-periferia, global-local, inclusão-exclusão, e tantas outras relacionadas às novas lógicas dos processos de globalização em curso, vêm se constituindo como os problemas centrais da economia, da política e da cultura deste século XXI.

Neste quadro de preocupações, pretendo definir como objeto e campo de pesquisa deste projeto, o tema periferias literárias a partir de duas perspectivas distintas: a que vai pensar a literatura brasileira e latino americana no quadro dos novos mercados transnacionais e a que vai pensar a produção literária e artística das periferias dos grandes centros urbanos no Brasil.

Essas duas abordagens não são tão diversas ou abrangentes quanto poderiam parecer. As respostas e reações culturais emergentes nos países, digamos, “excluídos” (ou quase) dos mercados simbólicos globais não estão se mostrando muito diferentes das respostas e do ativismo artístico e social das periferias urbanas diante da cultura canônica e da cultura de mercado. O fato é que em ambos os casos, estas reações são estruturalmente críticas e inovadoras, trazendo para o centro da cena intelectual interpelações de fundo no que se refere aos modelos e valores da epistemologia e da produção artística modernas.

O momento atual é, por isso, particularmente estimulante e a análise destas manifestações em processo trazem a vantagem de experimentar possíveis modelos de reflexão mais operacionais do que aqueles, de um pensamento e de uma cultura crítica e teórica que se expressam, com certa negatividade, ao analisar a “crise dos paradigmas”. Nestas posturas, recorrentes nas análises literárias e culturais a partir da década de 1980 especialmente na Europa, o fim da história, da ideologia, o fim das funções sociais da arte e da atividade intelectuais e, sobretudo, a falta de saída teórica são quase consensuais

Por outro lado, o eixo da investigação que proponho, vem sendo um campo de pesquisa que acompanhou toda minha trajetória profissional como pesquisadora, centrada nas manifestações literárias e culturais criadas à margem do sistema e das histórias oficiais da cultura, seu poder crítico e interpelativo, bem como as respostas que geram por parte das culturas tradicionais ou centrais. Nesta nova frente de trabalho, não pretendo também abandonar a linha de pesquisa a que sempre me dediquei que é o estudo das relações de gênero e etnia, perspectiva essa que certamente estará presente no trabalho de análise e interpretação do projeto Periferias literárias.

 

Objetivo

O estudo das novas periferias literárias que vêm se redefinindo em função das lógicas dos processos de globalização neoliberal pretende enfatizar dois movimentos paralelos e complementares na formulação de respostas e enfretamentos culturais ao contexto político e econômico do século XXI . São eles: a literatura brasileira e a latino americana, no quadro da produção cultural e artística transnacional e dos mercados simbólicos globalizados, bem como a literatura e a cultura produzida na periferia das grandes cidades brasileiras e seu poder de interpelação e impacto na produção canônica e de massa.

Nesse quadro, alguns objetos de análise já foram definidos por um estudo preliminar como:

  • A questão da autoria. Diante das alterações de fundo promovidas pela internet e de seus novos modelos de divulgação e disseminação da informação e da criação cultural, as noções de autor e autenticidade, paradigmas centrais dos critérios de valor da literatura e da arte modernas. Aqui dois sintomas se oferecem mesmo à primeira vista para o analista. O primeiro, a proliferação das estratégias do “autor ausente” ou das possibilidades técnicas e retóricas de uma estética do simulacro, campo experimental bastante utilizado pela produção artística pós-moderna. O segundo, os acentuados sinais de positividade que adquirem as práticas e os recursos da criação coletiva estimulada pela criação no espaço descentralizador da internet. Mesmo fora do universo da web, é visível a diversidade de experiências da escrita e da arte coletiva que visam especificamente a discussão da idéia moderna de hipervalorização da figura autoral, agora considerada como autoritária e sobretudo duvidosa (no sentido de que toda criação é social e culturalmente gestada). O fenômeno parece se espraiar por toda a parte. Para dar só um exemplo, acabo de ler na Revista de Domingo de 19 de fevereiro de 2006, a seguinte declaração de D. Yvone Lara, do Império Serrano: “ Samba enredo de autor não existe mais. O que é importante agora é o samba de condomínio, no qual uma penca de autores junta forças para vencer”
  • Por outro lado, as atuais práticas da “pirataria criativa”, do “cut & paste” ou das “colagens” e “citações” (não autorizadas) sinalizam novas políticas estéticas de caráter agressivo e questionador, levando para áreas afins a problematização da figura jurídica e de mercado da autoria, criando movimentos como o do copyleft (que desafia o secular copyright ou direito do autor e da propriedade intelectual.

Me parece ser esse embate um dos pontos mais significativos da arte e da literatura produzida sob a égide dos mercados globalizados e da disseminação dos fluxos de informação e criação possibilitados pelo ambiente da internet. A ele pretendo dedicar grande parte deste projeto. (((NOVAS FORMAS COLETIVAS DE NARRATIVAS SEJAM DIRETAS (Cabeça de Porco ou lit. blogueiros) OU INDIRETAS (Cidade partida, literatura de Luiz Rufatto e Marçal Aquino)))) CONHECIMENTO COMPARTILHADO

  • A função social da arte. Se na modernidade a arte assumiu um forte papel crítico da sociedade burguesa, hoje a produção cultural não parece mais comprometida com este papel. Segundo os teóricos apocalípticos, a arte e a literatura hoje se vêm cada vez mais confinadas aos critérios do mercado e aos modelos globalizados da produção cultural. Aparentemente, não temos mais lugar nem para a produção do criador genial que desafia a ordem estética, nem do rebelde que imprime negatividade crítica à obra de arte, nem mesmo para o experimentalismo das vanguardas e seu impulso tão demolidor quanto inovador. O panorama cultural globalizado parece apenas permitir a atuação do “autor global”, aquele que se identifica com a demanda do mercado local e/ou transnacional e se amolda segundo as regras do patrocínio ou do consumo. Os tempos de transgressão e de invenção radicais no campo das artes e das letras, ao que tudo indica, já vão longe na História.

Mas uma pergunta permanece no ar. Para onde terão ido as energias propulsoras da revolução estética modernista da invenção cultural e política que marcou a criação artística do século XX? Ou mesmo para onde se deslocaram as forças rebeldes dos anos 60 que colocaram a imaginação no poder?

Ainda num primeiro mapeamento de material para pesquisa, a novíssima produção cultural da periferia aponta certas pistas irrecusáveis. A observação das políticas estéticas que conformam tanto as manifestações do movimento hip hop, quanto da literatura marginal (que não se confunde com a chamada literatura marginal dos anos 70) ou do conhecimento orgânico como é conhecido a produção intelectual vinda destes movimentos, mostram um alto grau de originalidade política e cultural e mesmo de agressividade crítica que merece ser estudado em profundidade. (Colocar aqui algo do Boaventura na questão contra hegemônica e o É preciso ter direito de ser diferente… (Boaventura)

Junto com o exame das alterações em curso na própria noção de função social da arte, e, de certa forma como corolário desta, O papel do intelectual.

Ao lado dessas questões definidas numa primeira aproximação com o que estou chamando de periferias literárias mas que, na realidade, extrapolam o campo do especificamente literário, pretendo estudar detidamente os novos canais de enfrentamento e de mútuo impacto entre as culturas periféricas (sejam aquelas produzidas pelas regiões ou países periféricos ou aquelas produzidas nas comunidades culturais à margem e, portanto, “excluídas” das grandes metrópoles brasileiras).

Ou seja, o efeito destas reações e respostas nas novas modulações paradigmáticas da cultura canônica do século XXI.

O SONHO NAO ACABOU. APENAS PASSOU A SER PATROCINADO.

Apoio CNPq e FAPERJ

MAR/2007 a FEV/2010