As mulheres e a exclusão cultural

Atualizado em 18 de agosto | 12:23 AM

Sei que essa mesa é sobre as omissões da mídia e os processos democráticos em épocas de eleição, mas confesso que nunca trabalhei diretamente com as questões da mídia . Sou uma telespectadora B, apaixonada por novelas, que nem se permite pensar criticamente esse universo. Meu campo original de trabalho é a literatura e arte, especialmente aquela produzida nas margens dos sistemas e mercados cultural e artístico, opções meio xiitas. Tentei explicar essa limitação para Nilcea e Lourdinha com toda a ênfase de que fui capaz mas não consegui convencê-las de quão fora d’água eu estaria nessa mesa.

Sendo assim, me sinto livre para colocar em pauta uma variável que não tem a ver diretamente com o tema proposto mas que me diz respeito de forma bem direta. Trata se da exclusão do trabalho das mulheres que produzem cultura das pautas de políticas publicas feministas encaminhadas ou defendidas junto aos candidatos e programas de governo. Mesmo meio indignada com essa relativa não priorização da arte e da cultura nas agendas das feministas, sou obrigada a reconhecer que esse silêncio não é especifico das feministas ou mesmo das políticas eleitorais.

Varias hipóteses podem ser levantadas para o caso de que a produção cultural nunca tenha sido identificada como uma área produtiva até mesmo pelas agendas feministas.

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A contribuição dos Estudos Culturais para pensar a Animação Cultural

Atualizado em 18 de agosto | 12:14 AM

Quando o Professor Victor Mello me convidou para fazer essa palestra eu aceitei imediatamente. Primeiro, porque O Victor, que agora integra o nosso quadro de pesquisadores associados e é o coordenador de atividades do nosso Programa de Pós Doutorado, é uma pessoa que eu admiro muito por seu trabalho, por sua pessoa e também porque me abriu um horizonte novo de reflexão, o do cruzamento real e mesmo visceral do mundo da cultura com o do esporte e do lazer.

Começo mencionando isso porque reconheço o preconceito gigantesco que existe entre os intelectuais de minha geração com a divisão das fronteiras disciplinares, hierarquizando-as como mais nobres ou menos nobres e, obviamente, nesse caso, colocando as chamadas menos nobres numa posição subestimada e lateral. Sinto isso tanto com a área do lazer e do esporte quanto com a minha própria área de trabalho, os Estudos Culturais, área considerada como “ pragmática”, em seu pior sentido, suja por sua coloração política e desmerecida por ser uma área com expectativa de resultados.

Portanto, conhecendo bem, e na pele, as políticas acadêmicas diante de novas áreas de conhecimento, passei a me interessar meio passionalmente sobre as lógicas disciplinares e especialmente sobre as recentes transformações nos paradigmas da produção de conhecimento assim como as transformações da produção e do consumo culturais.

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A Academia entre o local e o global

Atualizado em 18 de agosto | 12:13 AM

Palestra na UFMG, 1997.

É interessante observar a força e o ethos específicos com os quais os estudos culturais estão inserindo-se na academia latino-americana. E quando penso nisso, lembro inevitavelmente de um estimulante conceito de Edward Said (Em o Mundo, o Texto e o Crítico), que é o conceito de “affiliaton”. Refiro-me à discussão de Said sobre o horizonte das teorias viajantes, ou seja, a trajetória de uma idéia ou de uma reflexão teórica entre países e comunidades acadêmicas. Um dos pontos altos deste estudo é a proposta de Said de um exame meticuloso de “onde se afilia” a que universo simbólico ou cultural quer pertencer, ou melhor, onde melhor se sente num novo quadro cultural, a idéia imigrante. Esta ênfase na cartografia espacial de uma idéia em movimento me parece muito cara para que possamos entender a troca cultural e teórica para além do que em décadas recentes ainda definíamos como apropriações, aculturações ou mesmo transculturações. Vou reproduzir o roteiro que Said nos propõe para este exame e que se não for eficaz é, pelo menos, belíssimo. Diz ele: Primeiro há um ponto de origem, ou o que parece ser um ponto de origem, um conjunto inicial de circunstâncias onde a idéia nasceu ou fez-se discurso.

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