De que se fala quando se fala de raça no Brasil?

Atualizado em 18 de agosto | 12:58 AM

A noção de “raça” sempre se constituiu numa categoria central, de importância chave para o encaminhamento da reflexão em torno da estrutura das relações sociais no Brasil. A especificidade da configuração social brasileira – marcada pelo intenso entrecruzamento de populações cultural e geograficamente diversas, aspectos que a noção de “raça” vai articular – certamente reforça a importância desta noção para o debate intelectual brasileiro.

Desde pelo menos meados do século XIX, momento em que a sociedade escravocrata começa a experimentar os primeiros sinais de uma crise histórica que resultaria tanto na Abolição quanto na Proclamação da República, o pensamento social brasileiro dedica boa parte de sua energia à análise da configuração sócio-cultural da sociedade brasileira? (a “questão racial”?). Se num primeiro momento, é o “escravo” que está em questão, pouco a pouco, emerge o negro enquanto categoria racial colocada pela própria necessidade de controle social das populações recém-libertas. Por sua vez, as representações idealizadas do índio como um dos símbolos centrais no processo de construção da identidade nacional, em oposição ao colonizador europeu e à situação de opressão das populações escravas que perdurou até o final do século XIX, dão lugar à identificação cada vez mais sistemática de uma “raça” negra como um dos eixos fundamentais na constituição “miscigenada” da sociedade brasileira moderna.

Continue lendo »


Debates – Literatura e Internet

Atualizado em 18 de agosto | 12:57 AM

Fico feliz de dar início a essa série de debates sobre literatura e leitura e para tanto escolhi o tema que anda mais me inquietando e atraindo ao mesmo tempo tanto pela novidade quanto pelas questões que coloca.

É o caso da chegada da Internet de forma definitiva em nossas vidas e corações.

Se é bom ou se é mal é bobagem e mesmo perda de tempo indagar. O fato é que a Internet veio e veio para ficar e o melhor é a gente tirar o melhor partido disso possível.

E, para tirar partido de alguma coisa, nada melhor do que se informar cuidadosamente a respeito.

Uma primeira pergunta neste sentido vai ser a inevitável: é verdade que a Internet realmente já se constitui como um canal importante para a literatura ou isso é apenas uma fantasia de poucos privilegiados?

Fui então buscar os números. E eles são surpreendentes.

Segundo a 4ª Pesquisa Internet Brasil, feita pelo Ibope em junho deste ano, o Brasil tem hoje 3 milhões de internautas.

Nos últimos seis meses, mais de 700 mil brasileiros aderiram à Internet, elevando o número de usuários para 3,3 milhões no país, ou 9% da população. Em relação a dezembro de 1998, quando foi feita a última pesquisa, o índice de crescimento atingiu 32%, mantendo o país dentro do ranking das dez nações que mais utilizam a Web no mundo.

Continue lendo »


Novos Sujeitos e Movimentos Sociais na Sociedade Contemporânea

Atualizado em 18 de agosto | 12:56 AM

Para esta palestra, escolhi o ponto “número um” do Edital deste Concurso, intitulado “Novos Sujeitos e Movimentos Sociais na Sociedade Contemporânea”. No Memorial, procurei me afastar das formas do relato heróico autobiográfico tradicional e explorar minha experiência no quadro das tensoes que configuram o campo da produção intelectual e artística. Permanecendo na mesma trilha, vou comentar alguns problemas teóricos, políticos e institucionais que percebo no meu cotidiano, enquanto parte integrante dos “novos sujeitos” de que trata esta palestra. Existem ainda outras razoes que me levaram a escolher este tema. Em primeiro lugar, não escondo um certo fascínio pela dinâmica de um contínuo remapeamento nos conceitos chave desta discussão como a noção de “identidade”, “diferença” e “alteridade”. Em segundo, porque a própria legitimidade política destas questões no campo acadêmico brasileiro, ainda é problemática e fragilizada. É especialmente este último aspecto, o da inserção política deste debate na Universidade, que pretendo desenvolver aqui com mais cuidado.

Volto ao título do ponto “número um”. Diz ele: “novos sujeitos e movimentos sociais na sociedade contemporânea (no singular)”. Passo, portanto a entender que a questão que este ponto sugere, ao articular explicitamente a noção de novos sujeitos com aquela de movimentos sociais, diz respeito ao que se convencionou chamar de “novos sujeitos históricos”, especialmente na França e nos Estados Unidos, a partir da intensificação dos movimentos de descolonização das colônias francesas por volta de 1957, a independência de Gana, a agonia do Congo e a vitória da revolução argelina em 1962.

Continue lendo »


AS FRONTEIRAS MÓVEIS DA LITERATURA

Atualizado em 18 de agosto | 12:53 AM

Num seminário sobre museus, falar sobre literatura é meio estranho. Entretanto, pensei em trazer esse assunto aqui não apenas porque os museus estão cada vez mais interdisciplinares e abertos à cidade e aos influxos culturais contemporâneos, mas também porque me parece que a dificuldade que a literatura enfrenta hoje para definir suas fronteiras é um sintoma comum à toda a produção artística e cultural no quadro do capitalismo tardio e dos processos de globalização.

Neste panorama ( ao qual poderemos voltar mais tarde se houver interesse de vocês) , a noção de cultura, e por tabela a de literatura, é forçada a repensar seus parâmetros e até mesmo, – o que mais interessante- , sua função social.

É nesse contexto sócio-econômico de grande mudanças paradigmáticas que o século XXI desenha seu espaço para a produção cultural e para as novas formas de resistência política e cultural.

Nesse espaço, as características e as estratégias das expressões artísticas vindas das periferias das grandes cidades vêm surpreendendo como a grande novidade deste início de século com o desejo de responder ao acirramento da intolerância racial e às taxas crescente de desemprego provenientes dos quadros econômicos e culturais globalizados.

A cultura da periferia distingue-se das demais formas culturais (sejam elas de massa , popular ou de elite, para usar a classificação clássica da modernidade) por agregarem novas metas para a criação e evidenciarem formas próprias de organização do trabalho artístico, subvertendo assim os objetivos – digamos “contemplativos” – da arte e da literatura modernas.

Continue lendo »


Arte e Qualidade de Vida (Centro Cultural Castelo Branco)

Atualizado em 18 de agosto | 12:52 AM

Em primeiro lugar, quero agradecer o convite para participar deste encontro e justificar minha rapidez em aceitar este convite. Além de admirar o trabalho de Regina há muito tempo, fiquei absolutamente fascinada com o entusiasmo e a paixão com que ela me falou sobre seu novo projeto aqui no Centro Cultural Castelo Branco. Portanto, quero dizer que é com muita alegria que venho hoje aqui tentar pensar, junto com vocês, algumas questões sobre as relações entre a arte, a cultura, e a vida nas cidades nos dias de hoje.

Como há pouco mostrou Ilana, a idéia de cultura é múltipla e variável através dos diferentes tempos e contextos sociais e históricos. Portanto, como não sou antropóloga, pego a dica da Ilana e vou tentar pensar os projetos culturais de duas gerações e as transformações por que vem passando uma noção hoje fundamental que é a nocão de cidade.

Começo pela cultura. É curioso o fato de que, nestes últimos meses, comece a surgir na imprensa, na moda e no movimento editorial, um certa volta dos anos 60 e 70, décadas que estavam relegadas a um relativo esquecimento até bem pouco tempo. Parecia que o mundo tinha dado um salto definitivo e que o heroismo dos anos 60 ou o impulso alternativo da década de 70 tinham se perdido de vez na poeira da história.

Continue lendo »