Entrevista com Charles Peixoto sobre Cacaso

Atualizado em 15 de setembro | 11:36 AM

Depois de um grande jejum editorial, temos de volta a poesia de Antonio Carlos de Brito, o Cacaso.  Mesmo inaccessível por mais de 15 anos, a obra de Cacaso não desapareceu do nosso panorama poético. Ao contrário, imbatível, sua presença nos idos da década de 70 continua sendo uma forte referência para os poetas da geração 80/90 mantendo, como nos velhos tempos do “sufoco”, seu papel de aglutinador e de mentor da produção poética emergente. Cacaso foi um personagem totalmente particular numa hora em que a poesia foi eleita como a forma de expressão predileta da geração que experimentou au grand complet o peso dos anos de chumbo. Poeta tempo integral, letrista, principal articulador e teórico da poesia marginal, Cacaso reaparece hoje em Lero lero, volume que reúne sua obra completa. A conversa que se segue é com Charles Peixoto, o Charles, a quem Cacaso dedicou ironicamente o poema, “Natureza Morta” referindo a poética-instântanea dos marginais. Autor de Creme de Lua, Perpétuo Socorro e Coração de Cavalo, consideradas obras primas da poesia marginal, o codinome “Charles Peixoto” encobre estrategicamente um sobrenome ilustre no território da letras, Carlos Ronald de Carvalho, portanto, neto do famoso poeta modernista. Desafiando suas origens, Charles foi um malcriadíssimo poeta marginal de primeira hora, integrando o grupo Nuvem Cigana e mais tarde o Vida de Artista, já em companhia de Cacaso.

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Entrevista com Beatriz Resende

Atualizado em 15 de setembro | 11:34 AM

Por Heloisa Buarque de Hollanda

 

Heloisa – Quando e por que você, crítica literária ferrenha, aderiu aos estudos culturais e aos temas considerados como menos nobres pela academia?

Beatriz Resende – Os Estudos Culturais são justamente o viés, o olhar, a “atividade”, ou o desejo, como diz Frederic Jameson, através dos quais as manifestações culturais e artísticas não canônicas se incorporam aos estudos e pesquisas realizados nas Universidades.

Creio que, desde o Mestrado, quando estudei a literatura de Lima Barreto, nos anos 80 ainda considerado um autor “menor”, a literatura “off Brodway” já me interessava. Depois, no Doutorado, com o Lima já voltando à cena, preferi trabalhar com as crônicas e o estupendo Diário do Hospício. Aí percebi que não podia ficar só nos estudos literários, tinha que ler e investigar tudo que dizia respeito à cidade, ao Rio de Janeiro dos anos 10, 20. E mais, que era impossível trabalhar estes textos sem pensar na questão de raça no Brasil, na discriminação imposta aos pobres e aos loucos. Depois de defender a tese de Doutorado, em89, me juntei ao grupo que pesquisava questões de gênero e raça no CIEC. Criamos, depois, o PACC – Programa Avançado de Cultura Contemporânea – na UFRJ, especialmente dedicado aos Estudos Culturais.

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Entrevista com Armando Freitas Filho – O poeta que navega com o instinto

Atualizado em 15 de setembro | 11:33 AM

Publicado originalmente por Heloisa Buarque de Hollanda no Prosa & Verso, d’ O Globo, em 01/11/ 2003.

Em ‘Máquina de escrever’, o criador de 63 anos reúne 13 livros lançados ao longo de 40 anos de carreira.

 

Heloisa: Armando, Máquina de escrever é um título digamos “literal” referindo  seus 40 anos ininterruptos de poesia. Convenhamos que esses 40 anos, enquanto sua máquina disparava letras e poemas, nosso panorama poético passou por uma infinidade de momentos chave, escolas, tendências, debates e algumas (ou muitas) brigas interessantes. Como hoje você diria que sua máquina de escrever atravessou esses mares?

Armando: Nadando, aprendendo a nadar quando fazia a própria travessia. A reação veio por reflexo: tendo à minha retaguarda a  geração de 45, e à minha frente as vanguardas, optei pelo nado de peito e não pelo de costas, ou por não ficar boiando, passivo, repetitivo e diluído, no remanso da tradição. Se de qualquer forma o mar “não estava para peixes”, estava agitado e desconhecido, era mais fácil e, paradoxalmente, mais difícil acompanhar os meus cúmplices e competidores e procurar o risco da minha raia, a possibilidade de minha praia.

Heloisa: Voce estaria dizendo que optou por um caminho individual?

Armando: De jeito nenhum.

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Um problema quase pessoal

Atualizado em 14 de setembro | 8:09 PM

No campo da análise do discurso, o que estaria sendo evitado pelos estudos feministas no Brasil?

O debate sobre a condição feminina, expresso nas obras literárias e na imprensa, conhece um pique na segunda metade do século XIX até os anos 20, quando emerge o movimento modernista nas artes e nas ciências sociais. A questão da mulher sai então do circuito da literatura e passa para as mãos da sociologia, da antropologia e, muito recentemente, para as da história e da psicologia.

Voltando de forma brevíssima ao século XIX, a partir dos anos 50, começa o processo urgente e inadiável de definir os contornos da nação brasileira. Os caminhos percorridos pelos discursos que imaginaram a nação trouxeram, sistematicamente, a metáfora da “maternidade republicana”, como figura fundamental, ou seja, a hiper-valorização do papel da mulher como “civilizadora” e responsável pela idéia de uma nação moderna, educada e homogênea.[1]  No caso brasileiro, evidenciam-se alguns traços peculiares.  Nos discursos de construção nacional, já é conhecido com quanto desconforto a importação das ideologias liberais conviviam  com a vigência do regime escravocrata. Por outro lado, as idéias de uma homogeneização racial, supostamente necessária para a definição de uma identidade nacional e moderna, passavam também por complicadores evidentes. 

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Tantos anos

Atualizado em 14 de setembro | 8:08 PM

Numa palestra recente em Montevidéu, Andreas Huyssen foi, como de costume, absolutamente didático. A figura de Huyssen nestes últimos anos vem crescendo no cenário acadêmico internacional, sem grandes saltos, mas de maneira segura e contínua. Pós-frankfurtiano convicto, Huyssen herdou de seus mestres o compromisso radical com sua época. Até agora, seus ensaios mais conhecidos tem sido uma espécie de cartografia do pensamento contemporâneo diante do advento da cultura do capitalismo tardio ou, como ele próprio prefere, da cultura pós-moderna. Mas, de algum tempo para cá, sua produção teórica parece ter afinal encontrado seu objeto “a”.  Uma reflexão que veio se fazendo através do estudo de uma nova experiência de museu, mais ligado ao consumo e ao lazer do que à preservação das tradições nacionais, que passa pela análise da irresistível “sedução da monumentalidade” (sic) evidenciada pela arquitetura e pela produção artística recentes, até que, agregando e refinando estas questões, aportou no tema atual de seu trabalho sobre a pós-modernidade: o advento de uma relação radicalmente nova com o passado. Ou melhor, a experiência da recodificação do passado como presente, que estaria começando a superar o modelo teleológico de um futuro-presente, eixo da temporalidade modernista.

Para simplificar a questão que Huyssen desenvolve com seu obstinado e complexo estilo de argumentação, vou direto à sua referência à noção de musealização do espaço contemporâneo proposta por Hermann Lubbe.

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