Tantos anos

Atualizado em 14 de setembro | 8:08 PM

Numa palestra recente em Montevidéu, Andreas Huyssen foi, como de costume, absolutamente didático. A figura de Huyssen nestes últimos anos vem crescendo no cenário acadêmico internacional, sem grandes saltos, mas de maneira segura e contínua. Pós-frankfurtiano convicto, Huyssen herdou de seus mestres o compromisso radical com sua época. Até agora, seus ensaios mais conhecidos tem sido uma espécie de cartografia do pensamento contemporâneo diante do advento da cultura do capitalismo tardio ou, como ele próprio prefere, da cultura pós-moderna. Mas, de algum tempo para cá, sua produção teórica parece ter afinal encontrado seu objeto “a”.  Uma reflexão que veio se fazendo através do estudo de uma nova experiência de museu, mais ligado ao consumo e ao lazer do que à preservação das tradições nacionais, que passa pela análise da irresistível “sedução da monumentalidade” (sic) evidenciada pela arquitetura e pela produção artística recentes, até que, agregando e refinando estas questões, aportou no tema atual de seu trabalho sobre a pós-modernidade: o advento de uma relação radicalmente nova com o passado. Ou melhor, a experiência da recodificação do passado como presente, que estaria começando a superar o modelo teleológico de um futuro-presente, eixo da temporalidade modernista.

Para simplificar a questão que Huyssen desenvolve com seu obstinado e complexo estilo de argumentação, vou direto à sua referência à noção de musealização do espaço contemporâneo proposta por Hermann Lubbe.

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Pós-Feminismo

Atualizado em 14 de setembro | 8:07 PM

Em tempos de globalização, descentralização dos fluxos da economia da informação e, sobretudo, de prevalência das lógicas do consumo,  entra em cena uma variável que atinge de forma irreversível os modelos teóricos dos estudos cujo eixo são as noções de “diferença”.

De fato, a sociedade do consumo, entre outras alterações profundas nos paradigmas modernos, nos apresenta uma novidade inesperada: ao invés dos processos de massificação e homogeneização, característicos do modo de produção capitalista, surgem agora as estratégias da diversificação como a bandeira por excelência da nova lógica das sociedades de consumo. Como potencializar então, neste novo panorama, as políticas da diferença?

Nesse quadro, uma entre as várias questões que se colocam para os estudos e para as práticas políticas feministas é a pergunta sobre como as novas gerações estão experimentando e lidando com as conquistas feministas do velho século XX, também conhecido como o século das mulheres?

Do ponto de vista rigorosamente pessoal, me inquieta de forma insistente a pergunta: valeu a pena a luta feminista à qual minha geração dedicou-se com tanto empenho?

Na realidade, a trajetória das lutas em torno das discriminações da “diferença” não foi sempre a mesma. Apenas como lembrete, é importante registrar a variedade de táticas e contra-ataques das políticas feministas nesse passado recentíssimo.

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Perspectivas para a criação de uma rede

Atualizado em 14 de setembro | 8:06 PM

A questão da criação de uma rede entre núcleos de estudo sobre a mulher envolve duas questões historica e teoricamente importantes no quadro da trajetória do pensamento feminista  as quais, ainda que não eu não me sinta capaz de desenvolvê-las agora, achei que deveria, pelo menos, levantá-as. São elas, a tradição da estratégia da formação de redes na história da praxis feminina e a questão polêmica da institucionalização do pensamento e das teorias feministas. Não vou analisá-las aqui, mas apenas observar o sentido que estas questões tem e tiveram no debate teórico feminista.

Em primeiro lugar a idéia de rede. É comovente que estejamos aqui, na USP, em 1991, retomando a preocupação absolutamente central das primeiríssimas atividades e estratégias das mulheres, feministas ou não. Recentemente fiz uma avaliação da minha área de estudos – letras – e, procurando, na prática literária feminina, os antecendentes da reflexão feminista sobre literatura, ou seja, a formação deste saber, me deparei com a evidência de que mais estrutural do que um possível interesse pela literatura,foi o interesse pela sobrevivência, circulação, disseminação e registro do pensamento e da atividade literária feminina. E esse é exatamente o nosso tema de hoje.

O exame da imprensa feminina do sec.

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Panorama inconclusivo sobre movimentos feministas e raciais hoje no Brasil

Atualizado em 14 de setembro | 8:04 PM

Já razoavelmente institucionalizados, os movimentos feministas e negros no Brasil ainda não conseguiram prestígio definitivo junto à opinião pública, à academia ou mesmo junto à mídia e à indústria cultural. Nunca é demais repetir que na maioria dos países da América Latina, a “novidade” das reivindicações das minorias sexuais e raciais, certamente, ainda não foram completamente absorvidas pelos discursos main stream dos debates políticos e acadêmicos. Pelo contrário, os mitos raciais e sexuais formativos do que poderia ser visto como nossas “identidades culturais”, (que só recentemente começam a ser interpeladas pelos novos fluxos democratizantes e por certos movimentos culturais, especialmente os jovens), ainda servem como estabilizadores da ambiguidade discursiva e das várias mitologias que permitiram negar a evidência de uma forte discriminação sexual e racial e ocultar, de forma surpreendentemente eficaz, os mecanismos de controle de fatores multiculturais constitutivos de nossas sociedades.

Do ponto de vista racial, é importante lembrar que, ainda hoje, pode-se verificar a clara dificuldade dos estudos sobre o negro no Brasil em distinguir a especificidade da questão racial em relação aos problemas sociais que marcam as populações de baixa renda, na sua maioria composta por indivíduos de cor negra. Em enfrentar a falta de dados para a avaliação dos índices de discriminação e desigualdades.

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Os estudos sobre mulher e literatura no Brasil: Uma primeira abordagem

Atualizado em 14 de setembro | 8:03 PM

Este trabalho foi realizado para o Seminário “Estudos sobre Mulher no Brasil – Avaliação e Perspectivas” promovido pela Fundação Carlos Chagas de 27 a 29 de novembro de 1990. Agradeço a Valéria Lamego, Lucia Nascimento Araujo e Vanessa Escobar de Andrade pelo apoio e colaboração na pesquisa e levantamento de dados e a Luzilá, Maria das Vitórias, Nadia, Rita, Rosiska e Suzana pela leitura atenta dos originais e pelas sugestões que possibilitaram este texto que tenta pensar nossos próprios limites e perspectivas.

O panorama internacional

Uma avaliação dos estudos sobre a mulher  na década de 90, em qualquer área de conhecimento, é tarefa complicada. Fala-se em pós-feminismo, pós-modernismo, fim da ideologia, e, no tema talvez mais perigoso de todos, a emergência de um pluralismo neo-liberal que tornaria totalmente anacrônicas as reivindicações tradicionais do trabalho feminista.

Antes de tentar situar estes estudos no quadro mais geral das transformações por que vem passando o pensamento acadêmico, observaria que, apesar de considerados pensamento de vanguarda pela teoria crítica  contemporânea e de terem conquistado expressiva legitimidade acadêmica, os estudos feministas ainda revelam certo ressentimento e desconforto em relação às dificuldades surgidas nas tentativas de articular sua produção teórica com os compromissos políticos e as questões centrais da militância feminista.

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