Entrevista com Lauro Cavalcanti – Tudo é Brasil

Atualizado em 15 de setembro | 11:39 AM

Poesia no Museu

Por Heloísa Buarque de Hollanda

Heloisa – Para mim é um sonho a abertura dos Museus para a exposição da poesia. A poesia, mesmo a mais discursiva, sempre teve um encantamento para ser olhado, compartilhado, que raramente é explorado enquanto tal. Imagino que a possibilidade de ser mostrada em grandes espaços públicos vá estimular um campo de experimentação poética fascinante.

LC – Sem dúvida. Mas por outro lado, as vertentes mais visuais da poesia brasileira como os concretos e neoconcretos influenciaram claramente os artistas mais interessantes de hoje, como Lenora de Barros, Arnaldo Antunes e tantos outros.

HB – A obra do Gullar, a grande estrela da sala de poesia da exposição Tudo é Brasil do Paço Imperial, mostra também que da poesia visual para a obra de arte strito sensu, como o desenho e a pintura, é um pequeno passo.

LC – Eu estou certo que, de alguma maneira, os poemas visuais de
Gullar, além de extraordinários, mostram como esse tipo de poeisa foi uma espécie de balão de ensaio das artes plásticas de um período.

HB – Você tem exemplos disso antes do concretismo?

LC – Não exatamente na área da poesia. Mas vou dar um exemplo parecido no Modernismo.

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A hora e a vez de Gabriela Leite

Atualizado em 15 de setembro | 11:38 AM

Numa tarde de abril na sede da Ong Davida na Glória, RJ, Gabriela falou de sua vida na prostituiçao, sua família, sua militância obstinada.  Indentifica-se como parte da geração 60 e confessa  que se cansou das revoluções de botequim e radicalizou os avanços da questão sexual, indo experimentar a prostituição como uma alternativa profissional interessante. Fala ainda das questões politicas que hoje fazem a agenda do movimento nacional das prostitutas no país.

Heloisa: Vamos falar primeiro de você como pessoa física e depois da pessoa jurídica. De onde exatamente surgiu essa figura única que é a Gabriela Leite?

Gabriela: Nasci em São Paulo capital, na Vila Mariana em 22 de abril 1951. Como paulista não migra muito, eu saí de São Paulo pela primeira vez, só no começo da década de 80.

Heloisa: E sua vida em São Paulo, como foi?

Gabriela: Estudei lá toda a minha vida. Estudei em escola pública, num colégio muito bom de São Paulo, o Brasílio Machado na Vila Mariana. Depois, eu fiz clássico e prestei vestibular na USP e fui fazer Filosofia.

Heloisa: Mas você não é socióloga?

Gabriela: Não me dei bem com a  Filosofia e pedi transferência para Sociologia.

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Entrevista com Charles Peixoto sobre Cacaso

Atualizado em 15 de setembro | 11:36 AM

Depois de um grande jejum editorial, temos de volta a poesia de Antonio Carlos de Brito, o Cacaso.  Mesmo inaccessível por mais de 15 anos, a obra de Cacaso não desapareceu do nosso panorama poético. Ao contrário, imbatível, sua presença nos idos da década de 70 continua sendo uma forte referência para os poetas da geração 80/90 mantendo, como nos velhos tempos do “sufoco”, seu papel de aglutinador e de mentor da produção poética emergente. Cacaso foi um personagem totalmente particular numa hora em que a poesia foi eleita como a forma de expressão predileta da geração que experimentou au grand complet o peso dos anos de chumbo. Poeta tempo integral, letrista, principal articulador e teórico da poesia marginal, Cacaso reaparece hoje em Lero lero, volume que reúne sua obra completa. A conversa que se segue é com Charles Peixoto, o Charles, a quem Cacaso dedicou ironicamente o poema, “Natureza Morta” referindo a poética-instântanea dos marginais. Autor de Creme de Lua, Perpétuo Socorro e Coração de Cavalo, consideradas obras primas da poesia marginal, o codinome “Charles Peixoto” encobre estrategicamente um sobrenome ilustre no território da letras, Carlos Ronald de Carvalho, portanto, neto do famoso poeta modernista. Desafiando suas origens, Charles foi um malcriadíssimo poeta marginal de primeira hora, integrando o grupo Nuvem Cigana e mais tarde o Vida de Artista, já em companhia de Cacaso.

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Entrevista com Beatriz Resende

Atualizado em 15 de setembro | 11:34 AM

Por Heloisa Buarque de Hollanda

 

Heloisa – Quando e por que você, crítica literária ferrenha, aderiu aos estudos culturais e aos temas considerados como menos nobres pela academia?

Beatriz Resende – Os Estudos Culturais são justamente o viés, o olhar, a “atividade”, ou o desejo, como diz Frederic Jameson, através dos quais as manifestações culturais e artísticas não canônicas se incorporam aos estudos e pesquisas realizados nas Universidades.

Creio que, desde o Mestrado, quando estudei a literatura de Lima Barreto, nos anos 80 ainda considerado um autor “menor”, a literatura “off Brodway” já me interessava. Depois, no Doutorado, com o Lima já voltando à cena, preferi trabalhar com as crônicas e o estupendo Diário do Hospício. Aí percebi que não podia ficar só nos estudos literários, tinha que ler e investigar tudo que dizia respeito à cidade, ao Rio de Janeiro dos anos 10, 20. E mais, que era impossível trabalhar estes textos sem pensar na questão de raça no Brasil, na discriminação imposta aos pobres e aos loucos. Depois de defender a tese de Doutorado, em89, me juntei ao grupo que pesquisava questões de gênero e raça no CIEC. Criamos, depois, o PACC – Programa Avançado de Cultura Contemporânea – na UFRJ, especialmente dedicado aos Estudos Culturais.

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Entrevista com Armando Freitas Filho – O poeta que navega com o instinto

Atualizado em 15 de setembro | 11:33 AM

Publicado originalmente por Heloisa Buarque de Hollanda no Prosa & Verso, d’ O Globo, em 01/11/ 2003.

Em ‘Máquina de escrever’, o criador de 63 anos reúne 13 livros lançados ao longo de 40 anos de carreira.

 

Heloisa: Armando, Máquina de escrever é um título digamos “literal” referindo  seus 40 anos ininterruptos de poesia. Convenhamos que esses 40 anos, enquanto sua máquina disparava letras e poemas, nosso panorama poético passou por uma infinidade de momentos chave, escolas, tendências, debates e algumas (ou muitas) brigas interessantes. Como hoje você diria que sua máquina de escrever atravessou esses mares?

Armando: Nadando, aprendendo a nadar quando fazia a própria travessia. A reação veio por reflexo: tendo à minha retaguarda a  geração de 45, e à minha frente as vanguardas, optei pelo nado de peito e não pelo de costas, ou por não ficar boiando, passivo, repetitivo e diluído, no remanso da tradição. Se de qualquer forma o mar “não estava para peixes”, estava agitado e desconhecido, era mais fácil e, paradoxalmente, mais difícil acompanhar os meus cúmplices e competidores e procurar o risco da minha raia, a possibilidade de minha praia.

Heloisa: Voce estaria dizendo que optou por um caminho individual?

Armando: De jeito nenhum.

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