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O livro em transição

Atualizado em 15 de setembro | 11:00 AM

Mercado livreiro do mundo já retira 10% do faturamento da venda de títulos digitais; no Brasil, resistência inicial dos leitores cede facilmente ao apelo dos e-readers, estimulando editoras e livrarias
Thiago Corrêa

Quando entrou em cartaz no ano de 2002, o filme Minority Report – A nova lei do diretor Steven Spielberg causou espanto por apresentar um futuro com painéis interativos que respondiam ao toque das mãos e jornais flexíveis em que as fotografias davam lugar a vídeos. Pois bem, menos de uma década depois, esse futuro se torna realidade com o surgimento e a difusão dos chamados e-readers, aparelhos que servem de suporte para a leitura de livros e periódicos, dando uma nova dimensão ao ato de ler, permitindo a simbiose entre a palavra escrita, sons e animações.

“Estamos falando mais de tecnologia que de livros”, diz o diretor comercial da Livraria Cultura, Fabio Herz Foto: Claudio Wakahara/Divulgacao
Embora tudo nessa área ainda seja incipiente – com muitas perguntas sem repostas sobre o modelo de negócios a ser adotado, o tipo de arquivo utilizado e qual o aparelho que vai emplacar -, essa revolução digital que já atingiu em cheio a indústria da música começa a aparecer em grandes centros, como a cidade de Nova York (EUA). Por lá, deixou de ser raro encontrar pessoas aproveitando o tempo de transporte no metrôpara curtir a leitura de um romance ou de uma revista através do Kindle ou do iPad.

Uma impressão que se traduz em números. Em julho, a loja virtual Amazon.com anunciou que a venda dos chamados e-books ultrapassou a dos livros convencionais de capa dura. Atentos a esse crescimento, publicações como a Wired, Times e a Sports Illustrated vêm explorando as possibilidades desse novo suporte com anúncios interativos, gráficos animados e vídeos que somam informações ao texto.

Brasil

No Brasil, porém, os e-readers ainda são vistos como fetiches proféticos, as novas fogueiras da inquisição, que ameaçam a existência do objeto livro. Uma resistência que se revelou apenas inicial em pesquisa realizada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Divulgado durante o 1º Congresso Internacional do Livro Digital, o estudo mostrou que depois de apresentados aos aparelhos, os leitores demonstraram uma rápida empatia com os dispositivos portáteis de leitura.

De olho nisso, as principais editoras e livrarias do país começaram a correr para se adaptar ao novo cenário. A Livraria Cultura e a Saraiva colocaram no ar suas plataformas de venda de e-books. “Essa transformação fez com que o mercado editorial e livreiro passasse a estudar tecnologia, estamos falando mais de tecnologia que de livros”, relata o diretor-comercial da Livraria Cultura, Fabio Herz. Segundo ele, a adesão da empresa ao novo mercado, no momento, serve como aprendizagem. “A receita porenquanto é ínfima, mas não restam dúvidas de que o negócio é viável. Em outros países vemos que os livros digitais já representam 10% das vendas, acredito que vamos chegar a isso rápido”, aponta Herz.

Mercado

Por outro lado, a oferta de títulos nacionais ainda é pequena. Do catálogo de 150 mil títulos vendidos pela Livraria Cultura em formato digital, apenas 1% tem conteúdo brasileiro. “As editoras precisaram fazer a revisão de todos os contratos para incluir a comercialização digital, por isso o ritmo foi mais lento. Mas já estamos recebendo conteúdo diariamente”, aponta Herz. Para preencher essa lacuna, as editoras Rocco, Record, L&PM, Sextante, Objetiva e Planeta se uniram para criar a joint-venture Distribuidora de Livros Digitais, que vai fornecer títulos para as livrarias através de uma plataforma que deve entrar em funcionamento em dezembro.

Outra questão que precisa ser resolvida é a do preço das obras. Na Cultura, os títulos digitais custam em média R$ 30, cerca de 30% mais baratos que as versões impressas, enquanto na Amazon a média é de US$ 10. “O preço é fundamental para que isso possa vingar. A questão econômica no Brasil faz com que o livro digital seja consumo de luxo. Agora os escritores brasileiros estão colocando isso na Amazon e vão começar a pressionar aqui”, observa a crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda.

Ações do poder público podem acelerar o ritmo da mudança. A exemplo do que ocorreu na Califórnia (EUA), onde o governo optou pela migração dos livros impressos para os digitais por questão econômica. Se eram gastos US$ 600/ano com cada aluno, esse valor caiu pela metade com a aquisição dos dispositivos de leitura. Um caminho que seduziu um candidato ao governo de Pernambuco, que promete, caso eleito, oferecer e-readers a cada aluno das 500 escolas públicos de ensino integral. O investimento representa cerca 0,5% do gasto com livro didático, com base no orçamento do Ministério da Educação.

Publicado em Diário de Pernambuco:12/09/2010