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Livro, leitura e era digital

Atualizado em 27 de maio | 1:38 AM

Livro, leitura e era digital

1- Livro, para Arlindo Machado, é “todo e qualquer dispositivo através do qual uma civilização grava, fixa, memoriza para si e para a posteridade o conjunto de seus conhecimentos, de suas descobertas, de seus sistemas de crenças e os vôos de sua imaginação”. Essa definição transcende a própria ideia de registro escrito. O que está em crise: o paradigma seqüencial e linear do livro impresso ou o livro propriamente segundo a concepção de Machado?

R: Acho que os dois. De um lado o texto , cada vez mais, se faz na foram de hiper links, não linear, e não seqüencial. Essa tendência vc pode inclusive aferir na própria escrita dos autores mais jovens que foram criados sob a égide da internet. É um comportamento que está estruturando a percepção e a escrita das novas gerações e o livro começa a acompanhar a necessidade de novos modelos não lineares. De outro, o registro da memória e o registro de praticas culturais cada vez mais se dá em suportes vários, inclusive  o livro, mas não apenas no papel impresso do livro. Existem ainda experiências cada vez mais freqüentes de utilização de convergência de mídias, ou seja da utilização simultânea de suportes diversos.

2- A redução de custos pode levar os meios digitais e os sistemas de hipertextos a substituírem o livro impresso?

R: acho que não. O livro impresso se torna certamente obsoleto como referencia , como suporte para a divulgação técnica e científica e para outros nichos da produção outrora confinada às editoras. Mas certamente o livro impresso encontrará seu novo perfil e seus novos usos no caso do crescimento desse sistema editorial de base digital.

3- A velocidade da geração de informações é muito diferente do tempo do conhecimento. Essa velocidade torna obsoletas ideias recentes, isto é, informações tecnológicas, por exemplo, têm data de validade. Alguns especialistas afirmam que é quase impossível dar conta de editar essa produção frenética de informação sem correr o risco de retificação e perda de material impresso. Isso vai de encontro à publicação de livros “de papel”?

R: Acho que sim. As publicações marcadas pela urgência de informação e divulgação encontrarão melhor canal nas mídias digitais.

4- Os escritores cujas obras são divulgadas na internet (sites, blogs, etc) sofriam, a princípio, certo preconceito, por serem rotulados como aqueles que não conseguiram atrair editores. Como está essa situação?

R: acho que o preconceito é mais em torno da qualificação de “ literário” para os textos hospedados na internet. Porque em termos de visibilidade todos já concordam que a internet é um ambiente extraordinário para divulgar novos autores, estimular a vida literária e mesmo para ajudar o editor a encontrar novos títulos.

5- Apesar da crescente publicação de obras digitais, há autores que tentam restringir o acesso a suas obras por esses meios. Essa resistência tem dias contados, na sua opinião?

R: essa é uma questão comandada unicamente pelo mercado. E o mercado está dando mostras de que  o acesso de obras na internet vem induzindo a compra desses textos. Paulo Coelho, por exemplo, tem disponibilizado sua obra na íntegra para download gratuito. E não se pode dizer que Paulo Coelho não sabe vender….

6- Como fica a questão da autoria em tempos de produção digital?

R: fica irreversivelmente mais aberta a experiências de criação compartilhada e novas formas não proprietárias de criação. O que é novo e promete um longo caminho pela frente.

7- A tão divulgada facilidade digital de ser compartimentada e transportada pode, como anunciam alguns especialistas, promover a leitura?

R: pode sim. Se vc olhar em volta a divulgação e o consumo da musica e do cinema por exemplo dão provas disso. Por que não a literatura?

8- Na sua opinião, o surgimento de um pequeno equipamento como o kindle redimensiona o conceito de aquisição de livros impressos? A ideia de ter uma biblioteca pessoal pode dar lugar, no futuro, a um acervo digital?

R: Depende apenas do seu projeto de leitura. Ou a rapidez e a agilidade  do acesso aos textos e, sua portabilidade, e os leitores estão cada vez mais móveis e migrantes, ou se vc quer o livro como fruição e contato físico. Acho que o livro do futuro vai ter que atender aos dois tipos de consumo.

9- Como fica a literatura diante de todas essas mudanças?

R: Fica super feliz. Ela vai ganhar mais espaço, mais visibilidade, mais leitores e mais facilidade de criação. Se ela não gostar disso, ela estará vivendo  um problema sério….

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