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Literatura Contemporânea

Atualizado em 18 de agosto | 5:52 PM

 1 – É possível fazer hoje uma cartografia da literatura contemporânea? Existem algumas especificidades estéticas capazes de definir essa produção? 

R: Com a entrada da internet na “vida da literatura”, das formas digitais de impressão e acabamento de livros mais baratas e ágeis e com o tsunami da periferia afirmando uma nova  dicção literária, não há como continuar trabalhando com o mapeamento çlássico que informa a historiografia literária.  Essas alterações emergentes são muito novas e desconcertantes do ponto de vista dos modelos canônicos vigentes para a literatura mas, não tem jeito, temos que enfrentá-los se não quizermos perdermos o bonde da História. 

2 – Se uma das características dos jovens poetas e ficcionistas atuais é terem nascido (ou sua literatura) na internet, especialmente com a publicação de seus escritos em blogs, você acha que ela redefine a literatura atual? 

R: Ela certamente não redefine a literatura atual mas expande o campo de atuação e criação do autor e disponibiliza para o escritor jovem (ou não tão jovem)   modos e lógicas diferenciadas de criação produção,  divulgação e comercialização dos produtos literários. 

3 – Você tem se dedicado à criação de um acervo documental sobre a produção  das minorias, os Arquivos de Cultura Contemporânea, um dos projetos do Programa Avançado de Literatura Contemporânea (PACC) que você coordena na UFRJ. Qual a implicação política de se fazer um levantamento da produção das minorias ou que se ocupe de sua representação na literatura e na mídia e em que medida ela pode contribuir para a formação de um novo ponto de vista sobre a história? 

R: Essa pergunta me deixa meio com vergonha de ser cabotina ,  porque acho que isso é minha contribuição mais importante para a área de letras. Desde 1970, minha preocupação central foi em torno o trabalho com a literatura marginal (ou contracultural), passando pela literatura de mulheres, pela literatura negra e agora me dedicando ao mapeamento da produção na internet e nas periferia e favelas.  Revisitando essas escolhas, acho que minha carreira valeu a pena. Dar visibilidade e legitimidade à produção de fronteiras foi o que mais me moveu politicamente nesses 50 anos de carreira. 

4 – Você acha que há padrões estéticos que apontem para uma diferença entre a escrita feminina e a masculina? 

R:  Essa pergunta é terrível. Dizer que não há diferença é estar mentindo, mas afirmar essa diferença é complicado. Certamente a diferença entre homens e mulheres não é essencial ou biológica. A diferença vem de uma estrutura cultural que manteve as mulheres sempre distantes do poder, da vida publica e do mercado. Sendo assim, elas desenvolveram estratégias de sobrevivência como a sensualidade , a delicadeza, o desempenho afetivo,  a dita “sensibilidade feminina” ou “inteligência emocional”, originalmente um processo de inclusão cultural que , sem dúvida,  foram linguagens eficazes para a realização de suas demandas mais imediatas. O que não se esperava é que essa capacidade gerencial e de conflitos desenvolvida pelas mulheres virasse um item de luxo na nova lógica empresarial da globalização. Nesse momento, as linguagens ditas femininas ganharam um bom preço de mercado… Na literatura e nas artes, as mulheres estão começando a trabalhar essa diferença como estereótipo.  Com resultados fantásticos. Vide a poesia de Bruna Beber, a prosa de Andréa del Fuego e de Cecília Gianetti, a escultura de Cristina Salgado ou as pinturas de Adriana Varejão. 

5 – Pensando que a geração que fez a poesia jovem em 70 está agora com uma produção madura e lida como a nossa literatura contemporânea, há uma outra poesia jovem de hoje que  se diferencie dela?

R: Claro que sim. E foi a internet que estabeleceu essa diferenciação. A produção daqueles que se formaram já sob a lógica interativa e descentralizada da web. Vemos uma nova capacidade gerencial de múltiplas atividades,  uma tendência de expansão de capacidades de percepção e de surgimento de novas lógicas de articulação. A maioria dos poetas que estão surgindo denunciam em seu  texto alguns desses traços como:  a articulação atividades diferenciadas, o deslizamento entre gêneros e mídias, a experiência com as possibilidades abertas pelos mecanismos de navegação como a presença de múltiplas janelas, seu potencial de articulação, o aprofundamento vertical do hipertexto,  além de uma sensibilidade colaborativa latente. Apesar de não evidente à primeira leitura, uma observação mais focal vai mostrar um diferencial efetivo nesses jovens poetas. 

6 – É possível ler a produção contemporânea como um todo que abriga diferenças ou só é possível a crítica obra a obra? 

R: Acho que um projeto critico tem mil possibilidades de ação e criação. Uma abordagem cultural opta sempre pela visão mais contextual e de conjunto da produçção de um dado momento. Enquanto que uma abordagem que privilegie o específico literário vai trabalhar obra a obra de forma mais analítica.  Uma não é melhor do que a outra necessariamente. Vai depender de cada critico, de suas paixões, seus subtextos políticos e do  seu projeto de intervenção no processos criativos e produtivos em curso em sua época. 

7 – A literatura mudou de função? Ainda é possível falar em função da literatura?

A literatura não mudou de função. 

R: A literatura, como a própria cultura, expandiu-se de forma inédita e desdobrou-se em diferentes usos, projetos e recursos. Chamo a isso de as novas práticas literárias que, entre outras, inclui a literatura como ela é vista tradicionalmente na série literária. 

8 – Na Aeroplano você se dedica, entre outras publicações, à edição de Tramas Urbanas que traz em seus títulos as vozes dos que estão à margem (da cidade, do cânone, da chamada alta cultura) mas que, demarcando seu território, se colocam no centro (da mídia, da moda, por exemplo). Desde o início de sua carreira você se afirmou interessada pelo que é marginal reconhecendo ali uma força geradora autêntica. Você acha que é dos chamados autores marginais de hoje que pode vir uma renovação literária? 

R: Isso é meu sintoma, chamemos assim.  Minha atuação profissional foi sempre de aposta e risco.  No momento, minhas fichas estão todas na periferia e na web. Vamos esperar o resultado do jogo. 

9 –  Quais os principais desafios para a edição de novos escritores no Brasil de hoje? 

R: Nosso mercado editorial não é um mercado forte. Nossa cultura de leitura, em escala,  menos ainda. Para a edição de novos autores uma editora tem que ter um catálogo com um lastro razoável. No nosso caso isso ainda é raro. São muito poucos editores aqueles  que podem arcar com projetos de risco. Portanto, o desafio é econômico , não literário. Não é certamente por maldade ou omissão que são poucos os editores que se dedicam a esse nicho de publicação. 

10 – O Portal Literal, a partir de 2008, transformou-se de revista literária que era, em um site colaborativo onde leitores de todo mundo podem postar vídeos, ensaios, resenhas, entrevistas. O que a levou, como curadora, a torná-lo coletivo? 

R: Eu comecei a me sentir mal com a centralização da palavra que a editoria de uma revista define. Num ambiente como a internet, no qual  o grande avanço é o potencial de interação, formação de redes, autorias compartilhadas & muito mais, a idéia de uma revista tal como as de papel impresso, é anacrônica. Assim que me caiu essa ficha,  reformulei o Portal.