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Trabalhos acadêmicos que fazem a diferença na periferia

Atualizado em 1 de agosto | 9:53 AM

Cultura, literatura, tecnologias digitais e produção das periferias se encontram nos trabalhos da professora, jornalista, ensaísta e pesquisadora Heloísa Buarque de Hollanda. Paulista de Ribeirão Preto, Heloísa graduou-se em Letras na Pontifícia Universidade Católica (PUC/RJ) e fez mestrado e doutorado em Teoria da Literatura na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Na Columbia University, em Nova York, fez pós-doutorado na mesma área.

É professora emérita da UFRJ, onde coordena o Projeto Avançado de Cultura Contemporânea. No Jornalismo, atuou em diversos meios de comunicação, apresentando programas na TV e rádio e colaborando com veículos impressos e virtuais.Também exerceu funções de cunho executivo, sendo responsável pela direção do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS/RJ), entre 1983 e 1984.

Atualmente, Heloísa é diretora da Aeroplano Editora, voltada para projetos editoriais alternativos e curadora de um portal sobre cultura contemporânea. Autora de importantes publicações para a cultura brasileira e idealizadora de projetos que integram periferia e universo acadêmico, a pesquisadora conversou com o Ecaderno e contou sua trajetória profissional e as dificuldades e resultados de seus trabalhos.

Você ingressou na faculdade com apenas 17 anos. Houve incertezas na hora de escolher qual carreira seguir?

Hoje eu sinto que não escolhi na realidade. Por que será que eu escolheria fazer Letras Clássicas (Latim e Grego)? Inexplicável num momento de efervescência política e cultural. Uma época em que o movimento estudantil e a política esperavam grandes transformações, até que adveio o golpe de 64 e bloqueou o sonho de uma geração de jovens brasileiros. Realmente não me lembro desse momento de escolha. Só sei que tentei mudar de profissão a vida toda. Eu sempre estava ligada em outras coisas e fazendo ações e criações paralelas. Minha percepção é visual e no espaço. A lógica seria eu ter sido arquiteta ou designer, coisas que eu adoro e faço de forma amadora. Então nesse tempo sempre pensei em largar tudo e seguir outro caminho. Mas acabei ficando na área acadêmica mesmo.

A sua intensa produção como pesquisadora sempre esteve aliada ao trabalho fora da academia. Qual a importância dessa associação e como uma prática influencia a outra?

Acho que temos dois tipos de produção acadêmica. A Pesquisa pura e a aplicada. Eu optei pela aplicada. Para mim, sempre foi importante conjugar meus estudos com alguma ação. Foi muito bom porque me permitiu intervir de forma recorrente nos temas que trabalhei. Mas respeito também a opção da pesquisa e o estudo “puros”.

Quais as principais dificuldades que você enfrentou para executar pesquisas acadêmicas?

As dificuldades que enfrentei sempre foram relacionadas com os temas que eu elegi para estudo porque pareciam incompatíveis com os interesses acadêmicos e canônicos, como a poesia marginal, a questão racial, a questão das mulheres, a cultura digital e a cultura de periferia. Ou seja, os temas que ainda estão despontando e ainda não têm legitimidade acadêmica. Mas essas dificuldades tiveram apenas efeito na minha imagem profissional e não no próprio desenvolvimento das pesquisas.

Sua pesquisa sobre poesia marginal deu origem à antologia 26 Poetas Hoje, de 1976. Quais as características desse tipo de produção?

Essa poesia corria à margem do sistema editorial e da literatura oficial. Era uma poesia que recuperava a oralidade modernista, mas com dicção própria e vitalista. Na época, foi muito criticada por se apresentar como descartável, instantânea e por uma suposta falta de qualidade, mas hoje todos são reconhecidos como poetas referência na série literária. O tempo faz milagres…

A Universidade de Quebradas é um projeto de extensão da UFRJ, criado por você, que leva moradores das periferias para dentro da universidade. Como é feito este trabalho e qual a importância dessa interação para a instituição de ensino e para as pessoas envolvidas?

O projeto Universidade das Quebradas trabalha sobre o conceito de uma ecologia dos saberes. Assim, ele desenvolveu uma metodologia de troca e de diálogo que me parece inovadora e impactante tanto na universidade quanto nas ações atuais de capacitação que vem ocorrendo nas periferias. A literatura marginal vem se destacando com Ferrez, Sergio Vaz, Allan da Rosa, grafitte d’ Os Gêmeos (…), o rap Criolo, Emicida, entre tantos outros.

Seu campo de pesquisa privilegia a relação entre cultura e desenvolvimento. Explique como você vê essa relação.

A produção cultural e artística há bastante tempo deixou de ser uma esfera autônoma em relação à economia e à política com fins de fruição contemplativa. Hoje a cultura investe em suas possibilidades de se tornar um recurso econômico, político e social. Desta forma, o estudo e a produção cultural não podem dispensar mais a variável “desenvolvimento” em suas práticas, especialmente em momentos de transformação como o que estamos vivendo.
Nos últimos cinco anos, você vem trabalhando com o foco na cultura produzida nas periferias das grandes cidades. O que mais chama sua atenção nos trabalhos que estão sendo realizados nas periferias?

As características de “artivismo” ou a experimentação do potencial de inclusão social e econômica da cultura. Fora isso, é claro, o surgimento de uma nova dicção artística de articulação da cultura transnacional com a cultura de raízes. É uma cultura, sobretudo, moderna, neste sentido.

Suas pesquisas também têm relação com a influência das tecnologias digitais e da internet no consumo cultural. Como você avalia o impacto da internet na produção literária e de conhecimento?

Esse impacto é definitivo. A literatura tanto on line quanto off line já está dando sinais de mutações de base tanto na escrita quanto na leitura. O importante agora é ficar atento a este processo de transformação na própria percepção da obra criadora.

Em que medida as tecnologias digitais estão democratizando o acesso à cultura? Quais benefícios essa possibilidade oferece aos jovens?

A web é, até agora pelo menos, descentralizada e com acesso majoritariamente aberto. Isso é obviamente democratizante. Entretanto, estamos apenas no início da chamada era digital. Muita coisa ainda há por vir que pode provocar desestabilizações e grandes sustos na “liberdade” da internet. Os jovens nunca tiveram tanta informação disponível em nenhum outro momento histórico. Se souberem fazer bom uso disso, ou seja, aprender a procurar a informação correta e articula-la com outras, estarão passando por uma situação bastante privilegiada.

De forma paralela à docência e à pesquisa, você atuou no campo da comunicação como jornalista no Jornal do Brasil, radialista, na Rádio MEC e apresentadora de televisão, na TVE/RJ. Como era o programa em cada veículo e como foi a sua adaptação como jornalista nesses diferentes tipos de mídias?

Cada plataforma é uma plataforma e você necessariamente se transforma em cada adaptação que diferentes mídias requerem. Fico muito feliz de poder ter experimentado tantas linguagens. No JB eu tinha uma coluna assinada que discutia prioritariamente literatura. Na Rádio MEC eu tinha o programa “Café com Letra”, basicamente de entrevistas e uma parte chamada “radar sobre notícias literárias e musicais”. Na TVE, fiz um programa com os alunos de graduação em Comunicação da UFRJ chamado Culturama (cujo slogan era um programa estudantil sem drama) sobre a cultura e a política na véspera da abertura. Esse programa foi censurado e saiu abruptamente do ar. Fora isso fiz três filmes (Xarabovalha sobre o grupo teatral Asdrubal Trouxe o Trombone), Dr. Alceu (sobre Alceu Amoroso Lima no contexto da censura) , Joaquim Cardozo (poeta) e Raul Bopp (poeta). Fiz ainda cenografias e montagens de filmes. Agora, daqui pra frente, pretendo enfrentar o desafio da produção em base digital!

Publicado originalmente por Thais Caselli no ECaderno.