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Heloisa Buarque de Hollanda, Personalidade 2013 do IAB-RJ

Atualizado em 9 de dezembro | 8:03 PM

O Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB-RJ) realizou,  na última sexta (6/12), a festa anual dos arquitetos e a entrega de um dos mais importantes e tradicionais prêmios da arquitetura do país, a 51ª Premiação IAB-RJ, além do 30º Prêmio Arquiteto do Amanhã, Homenagem a Paulo Casé e Personalidade do Ano, concedida a Heloisa Buarque de Hollanda. Leia a seguir texto de Cêça Guimaraens, arquiteta e diretora de Cultura do Instituto de Arquitetos do Brasil.

 

Por Cêça Guimaraens*

Cidade grande, metropolitana e também pequena vila, travessas e becos, o Rio de Janeiro é vasto e multifacetado lugar onde a professora Heloisa Buarque de Hollanda explode paradigmas.

Os títulos convencionais e acadêmicos – desde o bacharelato em Letras Clássicas até o pós-doutorado no exterior – foram portas e plataformas para estudar e desmanchar mitos da literatura, cultura e gênero. Longe das reuniões nas ruas de antigos e bucólicos bairros, é no entardecer confortável dos pátios da Escola de Comunicação no campus da UFRJ na Urca onde Heloisa, hoje, ilumina, com múltiplos saberes as favelas do Rio de Janeiro.

Ao inscrever a cidade na lista dos seus amores, ela, carioca de alma e coração, contraria realidades e transforma os personagens e as ruas. A cada virada de esquina, excepcionais ou cotidianos, os adjetivos do Rio de Heloisa costumam fazer história. No entanto, é com substantivos que ela, habitante do ar que se confunde com a cidade, refaz o aqui e agora da vida carioca.

Heloisa é o que o Rio lhe oportunizou. Paulista de Ribeirão Preto, moderna e sempre mulher do contemporâneo, ensina porque tem fé no poder da palavra. Traduzida não apenas em poesia e música, suas visuais falas são chamas a girarem céleres nas redes digitais.

O mundo de Heloisa começa no tempo da contracultura. Época de pragmatismo e construção da sociedade plural e inclusiva. Tempo da busca de (in)certa liberdade. A Zona Sul carioca se estendia em direção à Barra da Tijuca. Espigões concretizavam o desejo modernista. Fútil e muito louco, o Rio de Janeiro pairava antes do túnel e do viaduto do Joá. Pilotis da PUC na Gávea e dunas na praia de Ipanema criavam um ambiente difuso, mas claro de tanta luz. Longas pernas e cabeleiras desalinhadas desfilavam em desprotegidas festas e manifestos.

Então, a poesia marginal e os roteiros de filmes super-8 definiram a década de 1970 para Heloisa Buarque de Hollanda. A cultura e a sua cidade tornaram-se plano de voo e motivo para a superação e a quebra constante de cânones sociais e políticos.

Poetas marginais, meninas em ascensão, intelectuais em assunção povoaram o seu Rio que, imaginado, ansiava um fin de siècle anunciado em violência e frescor. O 26 poetas hoje, livro-rebelião contra as asperezas da ditadura militar, de 1976, reeditado em 1998, foi a forte reunião das vozes que marcaram um tempo de luta e definiram o espaço da liberdade no campo da poesia brasileira.

Pesquisadora e crítica de Literatura tem João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade nas prateleiras de seus preferidos, sim. Acreditar na ação libertária da leitura e na permanência dos livros impressos é fé que pratica para criar fatos e hora para agir.

“Finjo ser arquiteta”, disse um dia. Com esse saudável fingimento administrou a recuperação de sobrados antigos no Jardim Botânico e no Cosme Velho, e rejuvenesceu o neoclássico e sisudo Palácio Universitário. Heloisa afirma que um poema de Luiz Aranha é a referência do seu emblema. No entanto, o aeroplano, símbolo escolhido para a sua editora, é figura reconhecida por todos os arquitetos, pois ilustra as cidades do futuro em croquis de Le Corbusier.

Tramas urbanas, corolário de tecido, suporte e forma das cidades. Móveis brasileiros, produtos de artesãos, designers e arquitetos, junto com expressões transmidiáticas e danças, simbolismos populares e folclore, gênero e sexualidade, literatura infantil, games e histórias em quadrinhos, brotam nas mãos de Heloisa em linguagens plurais para dizerem novos rumos e desfazerem velhos modelos.

Os meios eletrônicos e a Internet ampliaram os seus diagnósticos e perspectivas de produção da cultura. A cidade tornou-se o seu planeta. Desde as primeiras experiências na universidade até as exposições em centros culturais, o digital foi campo de estudo e plataforma de lançamento de ideias e projetos. Divulgar e discutir as novas relações entre cultura e sociedade em ambientes de eruditos e nas periferias, no Rio de Janeiro, na América Latina e em Nova York, foram metas definidas com liberdade e consciência crítica.

Na entrada da segunda década do século XXI, a formação de artistas e de intelectuais nas favelas e áreas empobrecidas do Rio de Janeiro redirecionou o seu trabalho. Assim, Heloisa Buarque de Hollanda, a curadora de exposições, conheceu e revelou a literatura, as estéticas e as reivindicações dos excluídos. A alegria e a força do saber compartilhado fundamentaram a sua ecologia dos saberes.

Para articular as misturas incomuns das culturas urbanas cariocas, valorizou a literatura periférica e, neste processo, derrubou outras fronteiras.  As narrativas dos favelados sobre a violência das remoções, os testemunhos contrários à versão da polícia e dos traficantes, e as histórias vividas de acontecimentos políticos recentes, ao lado da criação da cultura audiovisual com os cineclubes da Baixada, região metropolitana do Rio, são matérias que ela expande em diferentes formatos.

Por tudo isso, a Universidade das Quebradas foi criação e consequência determinadas na força de indivíduos e famílias culturais situadas à margem da inflexível cena acadêmica e da decadente mídia tradicional. Personalidade do Ano de 2013 do Instituto de Arquitetos do Brasil, Heloisa Buarque de Hollanda, com sua prática ímpar e múltipla, faz do Rio de Janeiro lugar onde a Cultura é desejo em ato completo.
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* É arquiteta (FAU/UnB), doutora em Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ) e em Museologia (ULHT/Portugal). Realizou estudos de pós-doutorado na NYU/USA, onde foi professora-visitante. É professora associada (UFRJ/FAU-Proarq), pesquisadora do CNPq, autora de livros e coletâneas de artigos, coordenadora do Docomomo-Rio, e diretora e vice-presidente do IAB.