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Entrevista para Revista do Parlamento Paulistano

Atualizado em 14 de abril | 11:47 AM

Entrevista original disponível em: http://www.camara.sp.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=11032&Itemid=240

 

Quando a periferia começa a fazer saraus, ela se apropria de um formato criado por uma elite cultural e tradicionalmente associado a amenidades sociais, prosecco em bandeja e piano de cauda. Quem já foi a um sarau de periferia percebe que eventos deste tipo têm um significado forte para seus participantes, a ponto de vários sauzeiros cruzarem a cidade, de trem ou de ônibus, para participar de um deles. Além do mais, os saraus da periferia reúnem vários elementos que vão além do que a gente costuma chamar de “estético”: há contestação social, formação literária, discussão de problemas da comunidade… Afinal, qual é o significado de um sarau da periferia?

HB: Acho que os saraus sempre foram importantes, no séc. XIX por exemplo foi uma oportunidade importante para as mulheres sairem do espaço doméstico interno das casas e começarem a se socializar. Há estudos sobre isso. De qualquer forma os saraus são oportunidades de encontros e confrontos nada desprezíveis. Acho que a tradição do sarau conta essa história. No caso atual é uma oportunidade única de agregar uma comunidade em torno destímulo à criação e a literatura que é uma expressão vista como de elite por essas mesmas comunidades e se apropriar dela. E os saraus tem realmente múltiplas funções nesse caso: formação de leitores, divulgação da literatura,  estímulo à criação e à educação, letramento, empoderamento social, socialização em torno da cultura.

 

Como surge o fenômeno da literatura periférica?

HB: A literatura periferica sempre existiu. Este momento é especial porque os escritores se articularam e ganharam visibilidade. Vários fatores colaboraram para isso: a transnacionalidade e a voga do Hip Hop (nesse caso mais especificamente do Rap), as mídias sociais que divulgam e formam redes em torno dessa produção, a presença maior na imprensa do fenômeno das favelas, remoção, violência , o sucesso editorial de livros com esse tema. Então acho que o terreno estava pronto para a eclosão do movimento.

 

Até que ponto a literatura periférica é um fenômeno novo na literatura brasileira? Como ele se diferencia, por exemplo, da literatura de cordel?

HB: Acho que já respondi a primeira pergunta. A segunda, sobre o cordel acho que a expressão literária desse momento é bastante diferenciada daquela dos cordéis. O cordel tem um perfil mais conservador politicamente, e vem de tradições longínquas e medievais. A literatura periférica é moderna, anti stablishment, transformadora e tem metas literárias e políticas bastante definidas.

 

Como a literatura periférica se articula com outros movimentos da periferia, como as posses de Hip Hop e os movimentos de moradia?

HB: Ela é – em sua quase maioria, mas não sempre – a crônica dessas comunidades e portanto um instrumento importante para esses movimentos.

 

Por que o poder público tem uma atitude ambígua diante dos saraus? Há o caso do Bar do Binho, por exemplo, que era financiado por um programa da Secretaria Municipal de Cultura, mas que acabou fechado por uma ação de um outro órgão da prefeitura.

HB: Infelizmente eu não tenho informações sobre o fechamento do sarau do Binho.