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Entrevista com Heloisa, por Luciano Trigo

Atualizado em 27 de maio | 1:33 AM

Publicado originalmente no Blog Acesso, do Instituto Votorantim.

 

Você nasceu em Ribeirão Preto. Fale um pouco sobre sua infância e a atmosfera familiar. Quais eram as conversas em casa, que lembranças foram marcantes? Houve episódios, já na adolescência, que de certa forma determinaram ou ajudaram a traçar seu futuro itinerário?

Heloisa Buarque. Minha família era um família de folhetim: Minha mãe filha de fazendeiros de Minas Gerais, meio princesa, e meio pai um plebeu baiano medico, violinista e comunista, que chega em ribeirão Preto para tentar a vida. É claro que minha mãe se apaixonou por ele. É claro que a familia dela foi contra. Ela fugiu com ele e foram felizes para sempre. Acho que nesse panorama eu tinha que acreditar na aventura e na transgressão…

Tendo vivido o sonho e a utopia dos anos 60, como você enxerga a relação da juventude hoje com a cultura e a política?

Heloisa Buarque. Acho que os jovens de hoje tem um quadro político e sobretudo econômico bem diferente do nosso e também bem mais difícil.  Nos anos 60 estávamos vivendo uma época de estabilidade econômica e mesmo de fartura, portanto o sonho era totalmente permitido. Hoje, o pesadelo do desemprego é um fato real e os jovens tem que lidar com isso. Entretanto, vejo em termos de micro políticas como igualdade sexual e racial, meio ambiente e outras, uma consciência bem politizada nesses jovens. Acho também que os anos 60 de certa forma foram movidos pela euforia mas também pelo autoritarismo. Quem não vestisse a camisa do sonho era “quadrado” e excluído de qualquer debate, sem direito a apelação. Hoje faz-se politica através de um código de negociações e não de voluntarismos. Mas que viver sob a desvairada utopia dos 60 era bom,  era!

No mundo globalizado de hoje ainda há espaço para uma contracultura que não seja rapidamente apropriada e enquadrada pelo mercado? Quais são os principais efeitos culturais da globalização?

Heloisa Buarque. A globalização traz a possibilidade de redes culturais transnacionais. Isso junto cm a internet pode se tornar uma força política considerável. É interessante porque a maioria dos teóricos da cultura de internet atribuem seu nascimento às forças politicas da contracultura. O que não deixa de ser bastante interessante , na medida em que tendemos a opor a cultura globalizada à contracultura…

Em momentos diferentes, você organizou antologias de novos poetas. Como avalia a produção poética brasileira hoje? Depois da poesia marginal, houve algum movimento digno de nota? Por que a poesia parece não repercutir mais como antes?

Heloisa Buarque. Acho que hoje a idéia de movimento ou de vanguarda está meio esvaziada. Movimentos não temos mas proliferação sim. Temos poesia de todas as formas e formatos , incluisive a poesia marginal da periferia, o que não é dizer muito para definir uma época. Uma coisa que possa talvez ser um diferencial é o volume da produção que me parece sem igualTemos também a influência da convergência de mídias ,  possibilitada pela innternet que faz com que a poesia possa ser experimentada e expandida em plataformas diversas o que é bem interessante e talvez atraia os jovens justificando a quantidade praticamente inédita da produção de hoje.

Em que momento a questão do gênero entrou com mais força na sua atividade como pesquisadora? E o que mudou de lá pra cá?

Heloisa Buarque. Entrou só quando fui fazer um pos doutorado nos estados Unidos. Só de longe me permiti assumir uma postura mais feminista e perceber a importância das teorias de gênero como instrumento de análise. É interessante porque existe um estudo de Cíntia Sarti que mostra que as lideranças feministas tanto da militância quando da academia tiveram uma passagem no exterior no começo de suas atividades. No Brasil, é complicado você assumir sem constrangimento posições explicitamente feministas. Isso nos anos 70/80. Hoje em dia já é bem diferente. As coisas mudam para melhor…

Como você analisa o fenômeno das redes sociais na Internet e seu impacto sobre a sociedade, a cultura e o comportamento? Aliás, que lições você tira do Portal Literal em relação ao real impacto da Internet?

Heloisa Buarque. As redes sociais são interessantes para a área de literatura porque fazem com que os jovens percam o medo de escrever e exercitem a expressão escrita com desenvoltura seja lá em que dialeto for. Mas reconheço que essa pergunta é mais complexa d que isso… Quanto ao Portal Literal, vem sendo um experiência que muda dia a dia. Não só pela rapidez da mudança dos softwares, códigos e mesmo  plataformas da web mas também porque o específico do campo literário resiste muito a algumas transformações em curso. E isso me chama diartiamnte atenção. Por exemplo, mudamos para 2.0 pensando em poder abrigar a demanda reprimida da diversas regiões do Brasil e a discussão sobre a qualidade dos textos  veiculada pelo Portal esquentou. Tivemos que dividir em dois o Portal: uma parte editorial fechada , cheia de assinaturas que legitimam textos e outra mais democrática que aceita postagenes sob o critério da votação dos usuários. Isso é curioso porque não acontece no Overmundo que é um portal cultural e não só de literatura…

Ainda sobre a Internet e a digitalização geral da vida, como enxerga a perspectiva real do fim do livro de papel? Como a Internet afeta a literatura e outras formas de expressão e consumo de produtos artísticos?

Heloisa Buarque. A internet é uma cultura hoje  não dá pra escapar. O livro vai sobreviver mas vai certamente se reconfigurar. Assim como o sistema do livro inteiro. O que mais me parece a perigo não ºe o livro mas a livraria. Essa posição de intermediário vai ter que ser reinventada radicalemnte ou vai desaparecer. Enfim a internet afeta claramente comportamento, a criação e o o consumo culturais. Ainda é um pouco cedo para avaliarmos o alcance desses efeitos mas a sorte já está lançada.

Com que intelectuais, vivos ou mortos, você mais dialoga hoje, e por quê? Qual é, por assim dizer, a sua agenda hoje? Quais são as questões que estão te mobilizando agora, e quais autores te interessam mais?

Heloisa Buarque. Dialogo com poetas, com ativistas e com os amigos de sempre como o Silviano Santiago, o Boaventura de Souza Santos, a Beatriz Resende. Mas meu trabalho como é muito centrado no conetemporâneo me leva ao campo e aí se estabelecem relações insdispensáveis para o meu trabalho. É o caso atualmente dos autores e artistas da periferia  com os quais diariamente me comunico e troco informações e idéias.

Como avalia o jornalismo cultural praticado hoje? Existe um excesso de agenda de “artes e espetáculos” e uma carência de textos mais criativos e profundos – como havia, por exemplo, no caderno B dos anos 70 e 80?

Heloisa Buarque. Eu protejo os cadernos culturais com unhas e dentes porque sei que eles são sobreviventes e estão resistindo com muita dificuldade ao momento de crise dos jornais e nesse quadro fazendo o melhor que podem. Me parece mesmo heróico o que os jornalistas culturais ainda conseguem fazer nessa situação de precariedade e ameaça continua de fechamento. É uma situação bem diferente de 70/80 quando o jornal ainda era o canal de informação mais prestigiado que tínhamos.

Para concluir: cite algumas das melhores escolhas que você fez na vida. E, se possível, algumas que você repensaria hoje.

Heloisa Buarque. As melhores escolhas foram as afetivas. Teria os mesmos amigos, casaria com os mesmos maridos. A que eu repensaria seria a escolha profissional. Provavelmente eu teria escolhido uma profissão mais por lados da arquitetura e do design se me fosse permitido começar tudo de novo.