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Entrevista com Rui Campos

Atualizado em 15 de setembro | 11:51 AM

Por Heloísa Buarque de Hollanda

Rui Campos, bonito, sorridente e mineiríssimo é hoje um dos personagens mais populares e queridos da vida cultural carioca. Livreiro das antigas, foi dono das livrarias Muro e Dazibao, ícones dos anos 70/80. Hoje domina o mercado livreiro independente com as várias Travessas que pontuam o mapa cultural do Rio de Janeiro. Além de contar os bastidores da vida de um livreiro de sucesso, Rui, nessa entrevista, analisa os problemas e as perspectivas comerciais das livrarias frente à onda do monopólio das grandes cadeiras multinacionais de livrarias e do mercado virtual de livros.

 

HBH : Rui, como personagem  você é imediatamente associado ao livro, às novidades editoriais, às livrarias acolhedoras. Há mesmo quem afirme que você é o último livreiro, essa figura em vias de desaparecimento. Quando e como você se tornou livreiro?

RUI: Tudo isto começou muito cedo, eu tinha 19 anos. Nesta fase, nada é muito planejado, a vida vai atropelando, uma semana vale por quinze anos de vida adulta..

Como todo mineiro, eu tinha fascínio pelo Rio de Janeiro. Na época eu namorava a Marta Luz e ela também tinha esse desejo de vir para o Rio trabalhar com cinema. Eu não tinha em mente nada muito profissional. A gente resolveu sair de Belo Horizonte e vir juntos para o Rio. Eu vim trabalhar numa livraria, da qual o primo dela era um dos donos. Essa livraria, era a Carlitos, cuja matriz era em Copacabana, com uma filial em Ipanema. Era um bando de loucos, tipo o incrível Exército de Brancaleone, que tinha feito a livraria com o objetivo de ganhar dinheiro para poder fazer cinema. Eu vim para trabalhar na filial de Ipanema e, no meu quarto dia de trabalho, eles me comunicaram que estavam em crise econômica e iam fechar a filial.

Aí, pintou a idéia de comprar a loja. A Carlitos ficava na Visconde de Pirajá, 82, sobreloja, era até muito bonitinha, mas ficava no fundo da galeria, onde não dava mesmo muito movimento. Comprei então a Carlitos e a transformei na Muro, para poder separá-la da matriz de Copacabana, que acabou fechando também mais ou menos dois anos depois.

HBH: Foi quando esse tremendo DNA de livreiro que você tem entrou em ação?

RUI: Foi… Eu, com todo o entusiasmo da juventude, tinha uma dedicação total à Muro.

Chegava até a abalar meu casamento, eu ficava na Muro até meia noite, fissurado em aprender tudo, afinal eu nunca tinha lidado com comércio, nem com nada daquilo.

Ao mesmo tempo fui fazendo contatos no Rio de Janeiro, amizade com pessoas parecidas comigo, pessoas que, assim como eu, também freqüentavam a praia no Posto 9. Comecei a me aproximar do pessoal da Nuvem Cigana, do pessoal da poesia independente, emblemáticos na época e eles começaram a freqüentar a Muro, dando a ela uma marca.

Um amigo, o Luís Augusto Diogo de Souza, recentemente falecido, propôs que fizéssemos uma grande feira – os livrinhos eram todos em mimeógrafo, parecendo cordel – um evento com produção de feira nordestina, com os livros pendurados no varal. Isto foi em 1975 e eu topei. Tudo aconteceu rápido. A minha entrada, foi em janeiro de 1975 e, em novembro daquele mesmo ano, a gente já estava realizando este evento, que chamamos de Artimanhas em Geral.

HBH: Eu me lembro. Foi um evento que repercutiu na cidade toda.

RUI: Foi, o evento foi uma grande loucura. A galeria onde ficava a livraria era toda metida a chique, com regras de condomínio, etc e tal. E aí, aquele bando de malucos lá dentro, ameaçando a ordem e o decoro… Lembro que era um sábado. Chegou o Tavinho Paes com uma lata de grude, ainda quente, querendo colar os poemas nos vidros das lojas e eu falei – cara, se você fizer isto eu vou preso. Tinha também um grupo dissidente da poesia urbana, que achou legal jogar umas bombas, o que fazia um barulho muito grande dentro da galeria. Todo mundo se divertiu muito, menos eu, que estava em pânico com toda aquela fauna. Muitos amigos, até mais experientes, achavam que a Livraria não podia conviver com isto, que não era o caminho comercialmente mais viável.

HBH: Quanto tempo durou a Muro? Me lembro que inclusive ela mudou de loja nessa mesma galeria, não foi?

RUI: Foi. Depois do primeiro ano, parecia que a Muro ia a pique. A General Osório era muito valorizada e, o aluguel nesta sobreloja caro. Então, o proprietário, que também era dono de algumas lojas no subsolo, me propôs passar para as “catacumbas”, onde o aluguel cairia para 1/3 do que eu pagava na sobreloja. Topei, a Livraria passou para o subsolo, isto foi em 1976..

Por toda a agitação cultural que promovia, a Livraria foi ficando conhecida e, no primeiro mês de subsolo, já teve um desempenho bastante razoável. Foi crescendo, crescendo e se transformou numa livraria de sucesso. Entre 75 e 80, tornou-se uma referência. Promovia muitos eventos, encontros, lançamentos, importávamos livros. Essa época ainda tinha muito a ver com a ditadura – conseguir literatura marxista e outras que a ditadura não permitia, era nosso grande objetivo. Tivemos grandes problemas com a Polícia Federal, prestamos depoimentos, a mercadoria era aprendida. Isto era a nossa contribuição contra a ditadura. Uma vez eu importei um livro que poderia ter se transformado num grande abacaxi. O nome é “Pau de Arara, a Ditadura Militar no Brasil”, no qual presos políticos denunciavam a tortura. Este livro foi editado pela Maspero , na França, e relatava a prática de tortura nos porões do regime militar brasileiro. Esse, “os homens” não viram…. Às vezes, porém, apreendiam tudo, o motivo podia ser até mesmo o livro ter capa vermelha. O meu despachante ficava louco.

Em 1981, saí e fui para a Dazibao. Quem ficou com a Muro foi o Antônio Henrique Abranches, um professor de filosofia da PUC, que ficou com ela por mais ou menos um ano, fechando em 82.

HBH: Foi ainda na época da Muro que você se associou ao Aluísio Leite?

RUI: Foi.. A entrada do Aluísio foi gloriosa. O Aluísio era o nosso melhor freguês, comprava tudo, especialmente dicionários e biografias. Ele tinha até uma conta, mas era muito enrolado, atrapalhado e demorava a pagar. Quando eu ia cobrar, ele falava assim: “Estou usando a tática chinesa. A Rússia e a China entraram em guerra e, na primeira semana de guerra, 10 milhões de chineses se renderam, na terceira semana mais 50 milhões, até chegar a hora em que a China havia invadido a Rússia, só com prisioneiros”. Ou seja, a conta dele ia ficar tão grande que ou eu o admitia como sócio ou então ele não pagava a conta e a livraria quebrava. Ele acabou entrando de sócio e foi um período maravilhoso,  ele tinha um carisma enorme. Isto foi em 1978 – 80. Mas, ao mesmo tempo em que a Muro cresceu muito, virou também uma grande confusão. Ele era uma pessoa de projetos muito ambiciosos. Contra a minha vontade, ele acabou abrindo uma filial da Muro na Tijuca. Nesta filial eu não entrei de sócio . Então, na de Ipanema éramos ele e eu eele e outros cinco sócios na Tijuca.

Muita coisa aconteceu, foi uma brigalhada tremenda, ele acabou saindo e eu me tornando sócio destas cinco pessoas, todas do “Partidão”. Em seguida Aluísio ficou muito seduzido pelos projetos da Nova Fronteira e aí é que complicou de vez. Não tinha como colocar o pessoal do “Partidão” e da Nova Fronteira no mesmo saco. A confusão foi ficando grande demais, a discordância crescendo e eu acabei pulando fora, zerado, mas pulei.

HBH: Se não me engano, nesse momento, você foi para a Dazibao e ele para a Timbre…

RUI: É, me juntei ao pessoal da Dazibao que tinha uma loja numa galeria em Ipanema. A gente alugou uma loja na rua, na Visconde de Pirajá. Éramos quatro:  a Rita, uma excelente livreira, a Graça jornalista, o Chico economista e eu, com minha experiência. A Livraria fez sucesso, marcou época.

Em 1996, abrimos a primeira filial na Travessa do Ouvidor, a Dazibao – Centro. Mais ou menos nesta mesma época eu comecei a ter alguns desentendimentos na sociedade, resultando na decisão de separá-la. Eu fiquei com a filial Centro e eles com a loja de Ipanema. A Dazibao – Centro passou a se chamar Dazibao da Travessa, para poder diferenciar de Ipanema e, um tempo depois, saiu o nome Dazibao, passando a ser Livraria da Travessa. Mas, a época Dazibao foi ótima, o relacionamento com este pessoal foi legal, foi um bom caminho.

HBH: Mas aí já eram outros tempos, mais pesados e menos festivos. Como você conseguiu marcar a identidade da Travessa que é tão forte?

RUI: Comecei a trabalhar mais com importação, ou seja, procurando marcá-la como uma livraria que tivesse um pouco de tudo do que está sendo feito no mundo, produção americana, francesa, espanhola, um pouquinho de cada coisa. A Travessa começou muito bem e o Roberto Guedes entrou como meu sócio. Abrimos uma filial no CCBB, mas que não levava a marca da Travessa. Tínhamos a consciência de que o trabalho estava bastante maduro, mas escondidinho. Começamos a achar que, no dia em que viéssemos para Ipanema, este trabalho apareceria. Tínhamos um estoque fantástico, um atendimento legal. Assim que a situação ficou mais saudável, viemos para Ipanema. Alugamos a loja que a gente chama hoje de “Travessinha” mas que, à época, era a maior loja de todas, quase o dobro da loja da Rua do Ouvidor. O passo seguinte foi ampliar a loja do centro, que quase triplicou de tamanho, passando de 100 para 280 metros. Depois abrimos a loja da Avenida Rio Branco, por achar que o centro da cidade tem espaço para mais de uma livraria daquele estilo.

O resultado da loja de Ipanema foi excelente e percebemos que havia uma grande demanda reprimida. Tivemos dificuldade em achar uma loja grande em Ipanema, mas, conseguimos e, em julho, inauguramos mais uma Livraria da Travessa, esta bem grande, o “Travessão”, que é um retumbante sucesso.

HBH: Você diria que a “Travessão” é uma mega livraria?

RUI: Não. A palavra mega dá idéia daquela livraria onde você tem o auto-atendimento e que a livraria é igual em qualquer lugar, a mesma coisa, seja num shopping de São Paulo ou de Belém, com vendedores padronizados, sem presença própria. Definitivamente não é isso  que a gente quer. A característica da Travessa é a mistura, a diversidade, a desarrumação meticulosa.

HBH: Como você escolhe os “livreirinhos”?

RUI: Cada dia isto vai ficando menos fácil, menos poético, porque agora a coisa já tem uma escala um pouco maior. Mas, basicamente, é por entrevista, olho no olho, procurando sentir se a pessoa tem curiosidade, se é rápida na associação de idéias. A grande questão é: um bom livreiro é o cara que faz uma boa associação de idéias. As vezes um livreiro extremamente intelectual pode ser ruim, porque impõe muito. O melhor livreiro é o que tem uma cultura de jornal, de revistas, uma rápida capacidade de associar idéias para atender bem ao cliente.

HBH: Qual é a demanda de trabalho na Travessa?

RUI: Enorme. Agora está numa fase em que temos gavetas cheias de currículos. A pessoa também precisa ter sorte, tipo estar no momento certo, na hora em que a vaga aparece.

HBH: Nesse mercado selvagem e globalizado, a personagem livreiro ainda encontra seu lugar? Dizem mesmo que a categoria livreiro é uma categoria em extinção…

RUI: Não concordo. Os velhos livreiros, os verdadeiros, estão aí a pleno vapor. O Rio de Janeiro é a cidade que tem as livrarias mais interessantes e diversificadas. São Paulo, por exemplo, tem todo um potencial econômico e tal, tem excelentes livrarias como a Cultura,  mas o Rio de Janeiro é mais cultural.

HBH: A Livraria Cultura é uma livraria à moda antiga com direito a atendimento personalizado, com livreiros e etc?

RUI: É  sim. A diferença é  aquela coisa mais certinha, mais paulista. Os paulistas me falam sempre que as livrarias do Rio, a Travessa, principalmente, tem uma coisa mais parecida com a cultura francesa, mais plural, com maior diversidade de jeito, de forma, de arrumação, de design, é uma coisa mais viva.

HBH: Você falou dos livreiros que ainda existem no Rio, quem são?

RUI: Tem a velha guarda, que é fantástica. A D. Vanna, o seu Alberto Matias, da Padrão, que é uma verdadeira enciclopédia, o pessoal da Argumento, a Laurinha Gasparian, o Marcos. A Letras e Expressões, com as características que tem, isto é, uma livraria que veio de uma banca de jornal , tem  o Emílio Bruno. Eles são maravilhosos e eficientes para vender revistas e também a parte dos livros. Eles  não têm livreiro, mas têm características interessantes. Tem também a Kiki, da Timbre, Claudinha e D. Iaci da Malasartes apaixonados pelo que fazem. São pequenas livrarias, mas que têm o dom, a identidade do livreiro. E, na Dantes, tem a Ana Paula, que é o maior barato.

HBH: Mas, Rui, o crescimento de uma livraria não expulsa automaticamente o livreiro?

RUI: Quase. À medida que você cresce, perde realmente um pouco daquele contato direto, de detrás do balcão. Na Travessa gente faz um esforço muito grande para estar presente. Quando vou à loja do centro, por exemplo,  sinto que o cliente cobra, tipo “finalmente vejo você aqui!”. Mas também percebo que hoje, várias pessoas que iam me procurar, vão procurar o Marcelo, o Carlinhos, a Sandra. A gente acaba criando pessoas que tenham essas características. O Carlinhos, por exemplo, é um português maravilhoso, que trata o cliente de forma muito especial. Às vezes vai até almoçar na casa do cliente, conhecer a família. É o nosso estilo de atendimento.

HBH: Você falando parece estar se referindo a um médico ou a um padre. O livreiro é uma categoria estranhíssima, doméstica e pública, esquisita e interessante, ao mesmo tempo. Fico pensando se o livreiro não seria uma figura anti-econômica.

RUI: Aí entra a grande questão disso tudo, que é a de uma política cultural correta e eficaz.   É importante que se tenha  a preocupação em preservar as características culturais de cada país, de cada povo. Uma cadeia de livrarias tende a se impor e a eliminar as pequenas, as que têm identidade forte. O grande problema que as cadeias trazem é a guerra de preços. Uma grande cadeia, fazendo guerra de preços, massacra a livraria pequena que está ao lado.

HBH:  Nós temos, no Brasil,  alguma política específica de apoio às pequenas e médias livrarias?

RUI: No Brasil não se fala nisso. Apenas toda a venda de livros está isenta de ICM, o que melhora o desempenho do mercado. O livro é um produto muito peculiar, não pode ter o mesmo tratamento de uma lata de sardinhas.  um produto que pode ficar 20 anos, ou mais, na estante de uma livraria, não tem prazo de validade. Na Travessa do centro, tenho livros que estão lá há 16 anos, a idade da loja. Isto é um erro? Não, não é. Quantos exemplares de O Capital, de Carl Marx, eu vendo por ano? Mas, uma pessoa não pode chegar para procurá-lo e eu não ter o livro. Por isso, o livro é um investimento complicado para o livreiro.  20% da produção de livros sustenta os outros 80%. Uma livraria existe se consegue vender, trabalhar bem, com estes 20%, que são os livros de venda rápida. Esses são os livros que quando você vai pagar a duplicata da editora, você já vendeu o livro e recebeu o dinheiro. Os outros 80% são os que, quando você paga a duplicata, o título ainda está na estante e você vai  empatando o seu capital. Por isso, o mercado de livros não pode estar sujeito à livre concorrência. Nestas grandes operações de mega livrarias, de vendas em supermercados ou de venda direta em bancas, eles trabalham com estes 20% que vendem muito. Eles não têm livros em estoque. Então, se você tirar das livrarias estes 20% que vendem rápido, como elas vão pagar os 80%? Precisamos destas vendas para sustentar o todo. Por exemplo, um livro sobre música andaluza do século XVI, você não vai achar nas mega livrarias nem nos pontos de venda diversificados.

HBH: Mas no Brasil, não temos esta cultura de vender livros em supermercados, como nos Estados Unidos ou alguns países da Europa…

RUI: Temos aqui o Carrefour e algumas outras redes. A França, por exemplo, protege muito bem e resiste a imposição da massificação, assim como todo o resto da Europa, com exceção da Inglaterra e da Bélgica. Na França, os supermercados vendem livros, mas a Lei Lang determina que o livro tenha o mesmo preço, fixado pelo editora, em todos os lugares. O livro não pode ser usado como boi de piranha.

HBH: Mas obter livros mais baratos é o sonho do público consumidor de livros. E não dá para repreender esse sonhador….

RUI: Só que isso é uma a falsa ilusão. Você, como editora, sabe que o que dá ao livro um preço competitivo é a tiragem, uma boa tiragem reduz efetivamente o preço do livro. Na medida em que você enxuga os pontos de distribuição, que as livrarias desaparecem, você reduz muito a possibilidade de fazer uma grande tiragem, o que, obviamente, aumenta o preço do livro. O mesmo acontece com as cadeias de livros. Você sabe que é assim: a venda para a Travessa é com 45% sobre o preço de venda, já para uma Siciliano passa para 55%. Se você vivesse só de vender livros para a Siciliano, o preço dos livros da Aeroplano não poderiam ser os mesmos. O que acontece é que com a Siciliano uma editora troca dinheiro, só se capitaliza. Ela só tem lucro vendendo para a Argumento, Da Vinci, Travessa, Padrão, por conta da percentagem menor que estas livrarias cobram. As cadeias têm este efeito perverso e, nelas, os livros de pequenas editoras não são nem aceitos. Se você for à Siciliano e procurar um livro de uma pequena editora, eles vão informar que não trabalham com ela. Eles trabalham com aqueles 20%, enchem as gôndolas de best-sellers e, assim mesmo, se não venderem aquele título, devolvem. O perigo é o mercado virar a indústria do best-seller , onde os livros de venda lenta, de autores mais sofisticados, não encontrem mais espaço. A preservação das pequenas livrarias não é para preservar o livreiro, como se fosse um mico-leão dourado, mas sim para preservação da pluralidade, da diversidade de títulos, de características, de idéias, de pequenos editores, para que estes garantam seu lugar no mercado.

Até as grandes cadeias, como a Siciliano, não podem abrir mão de ganhar 45 – 50% ou mais em cada livro. Elas não podem ficar fazendo guerra de preços o tempo inteiro, salvo se tiverem fôlego suficiente e resolverem atacar e limpar uma determinada área. Isto é o que a FNAC faz no Brasil hoje e isso é uma loucura. Na França, a FNAC tem uma margem de descontos  de 5%, a lei não permite que venda por menos.

HBH:  A Lei Lang que, parece, é a mais elaborada das políticas de proteção ao livro, é também o centro de polêmicas acirradas, não é?

RUI: A Lei Lang  está em vigor na França, (com similares na Espanha, Portugal, Alemanha, Italia etc) desde 1971 – 72. Durante anos, depois de aprovada, houve uma verdadeira guerra na França, entre a FNAC e similares e a lei. As mega livrarias colocavam dois preços no livro, o preço Mitterrand e o preço FNAC. O que valia era o preço Mitterrand e, com isto, o que eles queriam mostrar é que, se não fosse pela lei, poderiam vender mais barato. O governo sofreu muitas pressões, mas resistiu. Hoje, quando conversamos com os editores franceses, com o mercado, constatamos que 95% é a favor da Lei Lang. A maior propaganda para a Lei Lang, foi as declarações dos candidatos à presidência nas últimas eleições. Os candidatos se colocaram  sobre diversas questões culturais e diante da pergunta sobre o que achavam da Lei Lang, que é a lei do preço fixo. Todos se manifestaram favoráveis à Lei Lang, com exceção apenas de um candidato, o Le Pen.

HBH: Como isto se dá no Brasil, se não existe nenhum instrumento de regulamentação?

RUI: Aqui não há nenhuma regulamentação. Existe uma ética do próprio mercado, que até há 20 anos estava intocada, todo mundo respeitava. O editor calcula: gastei tanto de papel, tanto de direitos autorais, tanto disso e daquilo, para eu ficar com tanto, o livro tem que custar R$ 20,00 e, todas as livrarias pegavam o livro e vendiam por este preço. É o que acontece hoje, todo mundo pega o preço com o editor, em cima deste preço uma parte fica com a livraria e ela respeita e vende por este preço. Mesmo as grandes cadeias aqui no Brasil, a Saraiva, a Siciliano, vendem por aquele preço, elas também precisam disso, senão não têm como pagar aluguel, empregado. Mas, de um tempo para cá, de vez em quando, encontramos atuações tipo assim, a Siciliano aperta o editor e diz: “ao invés dos 40% que você dá para o livreiro comum, eu vou querer 60%”. o editor  terá que aumentar o preço do livro , sem falar na eliminação dos livros de venda lenta, etc.

Hoje, o grande problema no Brasil, é a FNAC. A FNAC vende a preços salgados material fotográfico, aparelho de som, computador e outras coisas, ou seja, o livro não é o grande barato deles, mas eles estão fazendo a política de vender todos os lançamentos com 20%. Não temos controle, nem legislação para enfrentar essa situação. É a raposa solta no galinheiro. As restrições, as imposições que a FNAC tem na França e em quase toda a Europa, não existem no Brasil.

HBH: Como o mercado de livros americano enfrenta esse problema?

RUI: Nos Estados Unidos não existe uma legislação a respeito, porém todos os conceitos como trustes, dumpings, etc, nasceram lá. Se qualquer destas cadeias ameaça desestabilizar o mercado, os livreiros entram com um processo contra elas. É o Sherman Act, que são leis anti trustes, anti dumpings. Recentemente houve um processo milionário, de livreiros independentes, que se sentiram lesados porque a editora estava favorecendo determinadas cadeias de livrarias, vendendo em melhores condições.   Eles ganharam uma indenização de  milhões de dólares. Recentemente, cerca de dois meses atrás,  houve outro processo deste mesmo grupo de livrarias contra as cadeias, por dumpings. A indenização chegava a outros milhões de dólares e fecharam o acordo em alguns milhões .  Os americanos dizem que lei é coisa de francês maluco, que o mercado tem que ser livre. Mas eles têm esses mecanismos, para tentar equilibrar e manter o mercado. Mesmo assim, a perda da qualidade do mercado editorial americano tem sido tema de grandes debates locais.

Por outro lado, nos Estados Unidos a coisa acaba se viabilizando por outras formas, as bibliotecas são muito ricas, poderosas, muito bem equipadas, formam leitores.  A editora publica um livro, primeiramente com capa dura e o governo americano de saída compra mil exemplares para as bibliotecas. A editora já sai paga e esta acaba sendo uma outra forma de proteção ao livro. Mas, com certeza, eles estão procurando novas saídas para as livrarias, realmente isto é um problema.

HBH: Você diz que o editor descobre o autor e o livreiro descobre o leitor. Fale um pouco sobre isto.

RUI: A gente sempre discute qual é a grande função da livraria. E, a grande função da livraria, é promover o encontro do leitor com o livro. Se a Travessa tivesse que ter uma bandeira, seria esta. O livreiro é o grande parceiro do editor, juntos formam uma corrente.

HBH: Mas, muitas vezes batemos de frente, não é?

RUI: Pois é, fica aquela coisa de fazer um grande negócio que vai ser bom para mim e ruim para o outro. Editor e livreiro são jogados a disputar margens muito apertadas de lucro, cada um tentando puxar um pouco mais para o seu lado. É difícil conseguir que os dois tenham uma visão um pouco mais aberta de que o melhor é que o mercado tenha saúde, para que os dois possam sair ganhando. Como costumamos dizer, o negócio tem que ser ruim para os dois.

HBH: E a venda pela internet? Teve um boom, caiu, e agora?

RUI: Isto é uma tortura. Nos anos 99 – 2000, a todo momento entrava alguém na livraria e dizia que não ia haver mais livrarias. A internet precisava se lançar no mercado e os livros foram usados como isca, eles começaram vendendo mais barato, no prejuízo, para que pudessem criar um cadastro, uma carteira de clientes. Dava a idéia de que iam minar o mercado, acabar com as livrarias, mas a coisa não durou muito. Hoje você entra em qualquer livraria virtual e vê que a farra acabou, a internet não conseguiu sustentar os preços iniciais. A internet saiu então diversificando, não vende apenas livros, já é forte em outras áreas, conseguiu fazer uma coisa que deve agradar muito ao estilo americano que é o fato de se impor ao mundo inteiro. A Amazon  e as outras livrarias virtuais são subsidiadas pelo governo americano. Outro dia eu vi o Jonh Crugman,  economista, dizendo que as livrarias virtuais contrariam o mais sagrado dos princípios que formaram a nação americana – o livreiro, na esquina, vende o livro e paga imposto, enquanto a livraria virtual paga um terço do imposto, porque tem anistia fiscal para trabalhar. Isso é uma forma de dominação de mercado e o mais incrível ainda é que as livrarias virtuais americanas, além de serem subsidiadas pelo governo americano são também subsidiadas pelo governo brasileiro. A história é simples. Você entra no site da Amazon  para pedir um livro. Está lá, custa tanto, mais tanto de frete, você dá o número do seu cartão de crédito, é debitado e o livro chega na porta da sua casa. Você não paga imposto, nem passa pela alfândega. Em contrapartida, se a Livraria da Travessa resolve importar um livro, o que acontece? O livro chega na Alfândega, eu vou lá, vai ser feita uma guia de importação, vou pagar diversos tipos de impostos: armazenagem, taxa sindical, frete (até o frete para retirar a mercadoria e trazer para a livraria é o frete sindicalizado, eu não posso retirar) e o livro encarece 20%. Tudo bem, eu recebi o livro, vendi para o cliente e vou pagar o editor. Se eu fosse um cliente que estivesse pagando a Amazon,  eu daria o número do meu cartão de crédito e pronto. Mas, no meu caso, pagar o editor é uma loucura, é preciso abrir um contrato de câmbio, pagar taxas …

HBH: Então, porque a livraria virtual não deu certo, mesmo com toda esta proteção?

RUI: As americanas parecem que estão dando muito certo pelo menos no caso do livro importado. Já as brasileiras certamente encontrarão a sua fatia no mercado. Elas vendem pelo mesmo preço do que nós. No início venderam mais barato, como uma estratégia para se impor. Hoje, os preços das nossas livrarias virtuais são os mesmos, salvo algumas exceções, tipo promoções, que as livrarias habituais também fazem. A Travessa acaba de lançar sua versão virtual em regime de soft opening.

HBH: É impressão minha ou a classe está mais consciente ? Nas últimas eleições da CBL, falou-se muito, foi preciso apresentar chapa. Não sei se eu estava fora do mercado do livro, mas não me lembro de outra disputa neste nível.

RUI: Acho que foi uma coisa mais forte em São Paulo. No Rio foi menor, os editores souberam, participaram, mas tem um pouco isto, aqui é o SNEL e, em São Paulo, a CBL.

Historicamente, a  política do SNEL tem sido de ninguém comprar briga nenhuma. Sempre apresentam uma chapa única, fazem um belo trabalho, ficam acompanhando tudo, mas não se metem.

Já a CBL, pegou fogo. O grupo que perdeu, que era o pessoal que já estava lá, o Raul Wasserman e mais uma série de editores, estava lutando pela lei do livro no Brasil, apresentaram uma política neste sentido. Infelizmente a chapa vencedora foi a do Oswaldo Siciliano que, quem sabe, poderá vir a fazer uma gestão democrática, bacana.

HBH: O Minc parece estar determinado a mexer em vespeiro, a fazer uma reengenharia do Ministério todo. A Secretaria do Livro está se reestruturando, alterando coisas na Biblioteca Nacional. Qual deveria ser o papel da Secretaria do Livro, especificamente?

RUI: Eu acho que ela deveria atuar olhando para todos os segmentos. O importante é que, em seu novo projeto, consiga entender a cadeia como um todo, o livro como um produto completamente particular, diferente, e a livraria como sendo o lugar onde o leitor encontra o livro.      A coisa mais comum quando uma política cultural nova é proposta é querer logo tornar o livro acessível. Botar uma banquinha na praça, vendendo livro a preço de custo. O perigo é que, dessa forma, certamente vai matar os pardais, assim como aconteceu quando o Mao Tsé Tung mandou matar os pardais e terminou acabando com a lavoura chinesa, porque as pragas tomaram conta as plantações.

O aumento de pontos de distribuição tem que ser uma coisa sólida, não uma aventura de banquinha na praça. É preciso criar condições para que as livrarias apareçam. O que mais poderia propiciar isto, seria fazer com que os milhões gastos pelo governo brasileiro com a compra de livros, passassem pelo mercado livreiro. Hoje, a compra do governo é feita diretamente com as editoras, de forma até escorchante, porque eles acham que quanto mais barato melhor. Então o governo aperta e compra direto das editoras, que entregam diretamente às escolas, ficando o mercado livreiro completamente alijado. As bibliotecas não costumam comprar e, quando compram, é direto com as editoras. Esse dinheiro passando pelo mercado livreiro, seria muito enriquecedor.

A Câmara Brasileira do Livro tinha um estudo de projeção econômica mostrando que se metade destas compras do governo fossem feitas na rede de livrarias brasileiras, em cinco anos, esta rede teria seu tamanho quintuplicado, e as livrarias seriam viabilizadas. A Aeroplano, por exemplo, passaria a ter 200 livrarias fazendo pedido e não, cinco. Você pode até vender um livro para cada uma das 200 livrarias, mas vai vender e aí a coisa cresce, enriquece.

Na França é impossível você imaginar uma escola ligando diretamente para a editora e ela atendendo ao pedido. A editora não vende direto para o cliente, o livreiro é o parceiro.

HBH: Acho tudo isso corretíssimo. Mas a realidade é que, ao contrário da França,  temos poucas livrarias, temos lugares sem livrarias. Como se daria esse acesso?

RUI: Veja bem: se o sujeito de Teófilo Otoni vai à livraria para comprar o livro didático, ele está viabilizando a existência daquela livraria (em geral é livraria e papelaria). Então, essa livraria que tem o livro didático, vai experimentar colocar um romance e tal, e é mais um ponto de venda que se cria. Acho que uma das principais armas seria fazer com que os livros didáticos fossem comprados no comércio. Não estou falando em causa própria, porque este não é o público da Travessa, mas este é um problema do mercado.

HBH: Se você fosse editor , qual seria sua reinvindicação para a nova Secretaria do Livro e da Leitura?

RUI: Uma coisa bastante objetiva, sem muita filosofia. Pediria uma política de aquisição de livros pelo governo claramente democrática. A política de compras tem sido muito grande, viabiliza muita coisa, mas tem sido muito centrada e cheia de macetes, deixando sempre no final uma impressão de mutreta. Todo tipo de incentivo é legal, não deve haver nenhum pudor neo liberal de achar que está intervindo. O produto cultural não pode e não deve ficar a mercê das leis de mercado.

HBH: Rui, depois da Travessão, qual será a próxima travessura?

RUI: Este ano ainda não abri nenhuma livraria nova! Mas temos diversas propostas no Rio e em outras cidades. Minha grande travessura é a convicção de que a Travessa tem que crescer sem perder a ternura, sem deixar de ser a Meiga Travessa.