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Entrevista com Paulo Lins

Atualizado em 15 de setembro | 11:47 AM

Por Heloísa Buarque de Hollanda

 

HBH: Quando você escreveu Cidade de Deus, você imaginou o sucesso e o impacto, tudo que esse livro ia render para si próprio e para o seu entorno? Você já tinha essa perspectiva, antes do livro ser lançado?

Paulo Lins: Eu tinha.  E por isso não desisti. Eu sabia, com a maior clareza, que eu estava fazendo alguma coisa que ia ser fora do normal e que ia repercutir.

HBH: Sei que você estudou Letras na UFRJ, mas com mundo literário propriamente dito, você tinha algum contato?

PL: Tinha um pouco. Nos anos 80 eu já estava nesse meio, fazia poesia, discutia com meus amigos da faculdade, portanto já dava para sacar o que ia acontecer.

HBH: Você começou a escrever esse livro ainda muito jovem, não foi?

PL: Era, quando comecei a escrever o livro eu estava na Universidade ainda, eu tinha 20 e poucos anos.

HBH: Mas eu também sei que Cidade de Deus levou anos sendo escrito.

PL: É verdade. Eu parei várias vezes, abandonei o livro por três anos, ia dar aula, batalhar a bolsa do CNPq, as verbas da Faperj, essa loucura que é a vida de estudante por aqui. Por outro lado, o mundo na Cidade de Deus também era intelectual. Já havia uma abertura da Universidade para as camadas populares. Tinha estudantes de História, de Direito, de Letras, todos entrando na faculdade e morando lá. E tinha também o COMOCID, que era o Conselho de Moradores da Cidade de Deus.

HBH: A Associação tinha também atividades culturais ou era só política?

PL: Tinha as duas coisas. Isso foi nos anos 80, quando o PT surgiu e começou um trabalho lá dentro. A gente discutia muito política e promovia atividades culturais. Eu tinha um Cine Clube lá. E por isso, quando eu comecei a entrevistar o pessoal, a malandragem, os bandidos mesmo, para o livro, eles invariavelmente diziam: “Você vai fazer o maior filmaço!”. Ninguém enxergava livro quando falava comigo, só filme. Quem me ajudou muito foi o Mauro – meu amigo. Ele nunca tinha lido um livro, mas me disse: “Você tem que fazer um desenho de como foi a história, desenha a história”. Ao mesmo tempo, fora da Cidade de Deus, dentro da Universidade, eu estava vivendo um momento de grandes polêmicas.

HBH: Se não me engano era a briga em torno dos 30 anos da poesia concreta que acabou em tiroteio para todos os lados. Mais ou menos em 1986 não era?

PL: Isso. O Afonso Romano brigando, Paulo Leminski, Roberto Schwarz, Antônio Cândido.

HBH: Era o tempo do Pós-tudo, que foi o nome de um poema do Augusto de Campos. Que chegou até a Universidade dividindo todo mundo em times apaixonados.

PL: E Nos anos 80, tinha aquela briga com a poesia marginal. Leminsky dizia: “Eu odeio poesia marginal!”. Ele odiava Cacaso, odiava Chico Alvim, todo mundo. Essas paixões chegam até nos poetas de hoje. O Heitor Ferraz, por exemplo, odeia poesia concreta. Nos anos 80, toda semana, saía na Folha de São Paulo, no Globo, um poema concreto…Eram sempre as mesmas pessoas, Arnaldo Antunes, Paulo Leminski, e mais uns pouquissimos, todos brigando. Eu não tinha esse problema. Eu gostava da poesia concreta. Quando eu conheci o Roberto Schwarz, até fiquei meio constrangido porque ele  odiava a poesia concreta!

HBH: Ele escreveu um artigo sobre o Pós-Tudo dizendo que era um poema que beira a tolice. E acendeu o estopim da briga de novo. Mas vamos voltar para o Cidade de Deus.

PL: Bem o clima de quando eu comecei a escrever era quente. Era a enxurrada cultural do final da ditadura. Gabeira, Brizola, Rock Brasil, Associação de Moradores, Movimento Feminista, Movimento Negro, Diretas Já… Aparece o Lula com a greves. Um momento e tanto.

HBH: Foi aí que você começou a trabalhar como bolsista da Alba Zaluar?

PL: Foi. Eu fazia etnografia da violência na Cidade de Deus para ela. E, por isso, voltei para Cidade de Deus de maneira mais profunda. Fui escolhido por ela porque eu estava na faculdade de Letras e fazia samba enredo na Cidade de Deus e, por conta do samba,  acabei conhecendo a bandidagem toda. Até ganhei dois Sambas-Enredo dos blocos “Anjinho” e “Coroado” na Cidade de Deus, fazendo música e letra. Eu e Etelvino Henrique Ramos, o Teo, que hoje é PM. O samba desfilou na Avenida e tudo.

HBH:  Essa de ser sambista premiado eu não sabia.

PL: Pois é, minha mãe não deixava eu ir pro samba dizendo que samba é lugar de bandido. Eu tinha que ir escondido. Com essa acabei conhecendo todos os bandidos mesmo. Quando eu entrei pra Universidade, eu dei uma esnobada no samba, fui fazer poesia… Enfim eu sabia muito e tinha acesso aos bandidos o que ajudou meu trabalho com a Alba. Naquela época, na verdade, eu já estava começando a escrever um romance, que é esse que eu vou escrever agora. É a história do Marlon que vive num manicômio judiciário. Mas Alba, vendo que eu fazia etnografias ruins, me pediu para eu escrever alguma coisa sobre a minha vida, em prosa ou mesmo poesia. Ela sacou que, meu negócio é com as letras, não com a antropologia. E ela levou para o Roberto Schwarz ver. Morri de medo. Ele tinha acabado de ser indicado como o “Intelectual do Ano” pelo JB. Era o super star do momento.

Roberto lê, liga pra mim, e me chama a São Paulo porque queria conversar comigo. E sentou e falou assim: “O seu poema está muito legal, mas voce deve escrever um romance.” Eu te arranjo uma bolsa para escrever esse romance. E eu estava duro… Aí eu fui para casa e comecei a escrever o romance Cidade de Deus. E eu não tinha a menor idéia de como se escrevia uma romance. Minha referência era a poesia porque havia aquelea polêmica na época e eu participava dela. O romance seguia a linha modernista sem grandes conflitos. Achei que ia ser difícil eu escrever um romance. Aí comecei a falar com os amigos. Aí o Paulo Futeco, um amigo meu, que fazia farmácia e hoje trabalha com Publicidade, sugeriu: “Rapaz, faz um romance sem personagem. Ou faz personagens numerados”. Todo mundo esperava que eu fizesse alguma coisa que fosse diferente. Que fosse “pós”.

HBH: Mas você não botou os números, botou o que então?

PL: Botei um monte de gíria. Sai procurando gíria, pegando a linguagem, tudo o que se falava na Cidade de Deus e não se falava fora.

HBH: E você foi pela linguagem off.

PL: É. E fui trabalhando o vocabulário, as palavras que só eram usadas lá, fui jundando utod e saquei que o assunto lá tinha que ser o crime… e não parava de ler desesperadamente poesia. Comecei tentando a fazer variações com os versos dos poemas. E quando eu vi a tradução do Maiakowsky do Haroldo de Campos e do Décio Pignatari, eles diziam que Maiakowsky  fazia 60 variações do mesmo verso. Sabe, o cara batalhava! Era aquela coisa do labor da poesia..90% da poesia era expiração, o resto é inspiração… E eu fiquei com isso na cabeça e comecei a fichar romance. Eu fichava romance, Na realidade eu reescrevia os romances que admirava. Eu pegava os capítulos e ia fazendo mutações no texto. Eu reescrevi o Fogo Morto inteiro. Fiquei 6 menses mentindo para a Alba. Olha, já escrevi isso tudo. E era o Fogo Morto. Aquele romance é maravilhoso, Fogo Morto me deixou louco com o sentimento pela linguagem. Que o José Lins do Rego expressa. Porque o Roberto falou uma coisa: “Oh Paulo, põe sentimento”. Então eu roubei passagens inteiras do “Fogo Morto”.. Quando o Manuel Galinha vê o irmão dele morto, é a mesma coisa que falava o José Lins do Rego. Quando o Lula Chacon de Holanda fala pro Mestre José Amaro, “Vai embora da minha fazenda!” E ele pega e sai. Falando assim “Vai passando assim pela estrada, com o diabo no seu coração batendo forte…”

HBH: Isso é lindo!

PL: E não precisa dizer mais nada, o sentimento dele, está ali. Então o Manuel Galinha também  sai “com uma tocha de fogo na mão para incendiar a casa do assassino do seu irmão com o diabo no seu coração batendo forte”. Eu nunca falei disso para ninguém, mas está tudo lá, no meu computador.

HBH: Paulo você é um pós-moderníssimo.

PL: Fiz isso com muitos romances. No Crime e Castigo, o Dostoiewski começa o romance  planejando e contando como ele vai matar a  velha proprietária avarenta da casa onde morava o personagem central. Eu fui pegando todos só os trechos em que ele bolava esse assassinato, dividi em vários e coloquei no computador. E botei isso em “Cidade de Deus” no episódio do sujeito que mata por vingança o filho, porque ele era preto e o filho nasceu branco. Essa parte é igual a do ‘Raskonicov’ Então é isso. Roubei e é meu! Ninguém viu, e se eu não falar ninguém vai saber.

HBH: Genial! Porque isso no fundo é o ato de fazer literatura, mas de uma forma inconsciente ou oculta. No seu caso é diferente, você age como um pivete e não como um “polifônico”.

PL: É porque romance é diferente de poesia. Poesia é mais fácil, você gosta de uma palavra, você começa um poema. E você fica com aquela palavra, ela se finca ali, você vai fazendo no ônibus, na bicicleta… Romance não, você tem que sentar, tem que escrever todo dia. Eu fui pra Unamar, uma praia virgem entre Cabo Frio e Macaé, para conseguir escrever. Porque eu escrevia lá, na Cidade de Deus. Mas quando dava 10:00 hs, pobre tem essa mania, começava todo mundo a aumentar o som pra dizer que o seu som é melhor do que o do vizinho.  Aí, fica aquela confusão! E eu queria escrever e não dava. Fiquei em Unamar 6 meses sozinho com meu filho, Frederico, que , na época  tinha uns 8, 9 anos, comendo miojo e ovo frito.

HBH: O que você levou para lá? As entrevistas feitas na Cidade de Deus e as partes dos romances roubados?

PL: Isso mesmo. Eu estava com o mosaico todo ali. Eu estava já com o livro todo lá e precisava reescrever o livro de novo. Mas eu estava já sem grana, sem saco e mandei uma carta para o Roberto dizendo que ia desistir do livro. O Roberto respondeu dizendo que me emprestava dinheiro, que eu não parasse. Coitado do Roberto, como eu perturbei a vida dele! Aí, logo depois eu ganhei a Bolsa Vitae e saí de Unamar, eu não agüentava mais o barulho do mar! Com a Vitae pude parar com tudo e terminei o romance. O livro, que tinha 850 páginas, caiu pra 500.

HBH: Mas volto para a minha primeira pergunta: Você achava que esse romance ia ter tanta repercussão? Que ia mudar sua vida?

PL: Sabia.

HBH: Mas sabia por quê?

PL: Pela própria natureza do livro. Do jeito como ele foi feito, da aventura que foi. E o Roberto Schwarz, na verdade, me deu essa segurança.

HBH: Nessa época você já tinha a Companhia das Letras interessada?

PL: Não, foi o Roberto que levou o livro para a editora. Roberto fez tudo! Ele conseguiu a Bolsa, levou o livro na Editora…

HBH: Deu um dinheirinho…

PL: E ainda me perguntou qual a editora que eu preferia, imagina! Antes do livro ser publicado, ele disse  que o livro ia ser traduzido no mundo todo, que ia virar filme…  E isso foi legal, porque eu tinha essa intuição, o Roberto veio e fez uma afirmação.

HBH: Acho que o Roberto estava esperando que esse livro aparecesse a muito tempo. Ele organizou um livro importante sobre o pobre na literatura brasileira. Mas ainda eram reflexões sobre a representação do pobre na literatura. Imagina quando ele descobre um pobre com voz literária? Apostou forte nisso. Porque o que Cidade de Deus oferece não um assunto novo, mas uma voz nova. .

PL: É o olhar interno e  acadêmico ao mesmo tempo. Porque eu estava e vivia a Academia, mas estava também lá com a bandidagem, eu conhecia aquilo lá.

HBH: Como é que você deu ponto final no Cidade de Deus?  Como é que você reconheceu que o livro estava pronto?

PL: Eu nunca falei isso, é muito intimo, mas para você eu falo. Cheguei num ponto que entrei numa crise terrível, porque eu não sabia como acabar. E, além disso eu estava mal, não ganhava dinheiro, tinha acabado de me separar de minha mulher, um inferno. Um dia me senti tão mal que fui até à Colônia Juliano Moreira e pedi um psiquiatra. Aí falei, falei e ele só me disse uma coisa: “Você vai para casa e vai acabar esse romance!”. Voltei pra casa e acabei o romance.

HBH: Quantos exemplares já foram vendidos?

PL: 80 mil mais ou menos.

HBH: E porque você fez agora essa versão reduzida?

PL: O corte foi para tradução. Mas tinha muita coisa que eu não gostava, muita coisa repetida, aproveitei e saí cortando. Ficou mais encadeado, eu acho que ficou melhor.

HBH: Mas é engraçado, porque os escritores se levam muito a sério e se o editor pedir para fazerem uma edição mais curtinha eles provavelmente não vão gostar…

PL: Mas eu não me estressei com isso não. Eu sabia que era para melhorar.

HBH: E quando veio a idéia do filme?

PL: Isso é ainda mais estranho. O livro ainda não tinha sido lançado, eu estava na minha casa e surge João Moreira Salles e a Kátia Lund. O João chegou assim, com aquela carinha dele, entrou na minha casa ficou me olhando… O João na época fazia estágio na Companhia das Letras, viu o livro e achou que dava filme. Ele estava terminando o “Notícias de uma guerra particular” que também é sobre criminalidade.  Ou melhor, sobre a transformação do crime no Brasil  através do tráfico de drogas e da corrupção.

HBH: É a isso que você chama de neo-favela?

PL: É. E é só olhar o que esta acontecendo na favela hoje, o poder que a favela tem hoje, os ídolos que está produzindo, os símbolos sexuais negros…

HBH: E os sambistas?

PL: Não tem nada a ver. Sambista é outra coisa. O Martinho da Vila nunca foi um símbolo sexual negro. Tem uma entrevista do Jorge Ben Jor, em que ele que fala assim: “Não somos bonitos. – falando dele e do Tim Maia – não somos símbolos sexuais, mas a gente faz um show e arrebata 200, 500 mil pessoas”. Porque que o Jorge Ben não é bonito? Porque ele não se acha bonito?

HBH: O pior é que ele é bonitaço.

PL: Mas naquela época ele não se achava. Olha só a diferença: hoje, quando você vê Cidade Negra, O Rappa, o MV Bill, o Planet Hemp, esse pessoal sabe que é bonito, tem orgulho disso. .E isso tudo é produzido. Eles surgem ali no meio uma coisa que não é samba, que não é cultura tradicional, mas é uma produção de cultura e de personagens que caem na mídia e no consumo, que acabam sendo referência, fazendo parte da conjuntura. E não são sambistas, nem jogadores de futebol. É MPB, que até então, era propriedade das elites.

HBH: Branquinha.

PL: Da elite branquinha. Os únicos representantes do morro que faziam música que podia ser colocada junto com o Chico, com Caetano, era o Luiz Melodia e o Djavan. Agora veio um monte!

HBH: E o Gilberto Gil?

PL: Mas o Gil é baiano. E baiano não conta!

HBH: Mas você acha que essa produção é colocada e recebida no mesmo nível da MPB?

PL: É Tem o reggae, as músicas do Rappa. O Rappa faz rock. Tem letras maravilhosas! O Marcelo Yuka é um grande letrista. O Falcão é um grande cantor, é um símbolo sexual. Eu acho isso bonito! E ao mesmo tempo…Só o rap que não entra nisso porque é uma coisa bem distinta.

HBH: E é claramente a favela está produzindo essa cultura.

PL: Produzindo essa cultura e está fazendo transformações sociais importantes. Por exemplo, na Cidade de Deus, o trabalho do  Gutti Fraga no grupo teatral “Nós no Morro” é totalmente inédito.  Os atores do Cidade de Deus começaram no “Nós do Morro”. E, de repente, esses negões estão na mídia ao lado das atrizes famosas, botando banca..O Jonathan, o leandro Firmino são hoje super stars.

HBH: Essa cultura da neo-favela é diretamente relacionada com a criminalidade?

PL: Esse novo aspecto cultural da favela tem seus efeitos sociais. O conceito de bandido, por exemplo, foi mudando. Bandido hoje não é mais assaltante só, ser bandido é ter poder. Descobriram isso agora.  Hoje os bandidos da favela sabem que podem parar Ipanema. E no livro do Zuenir, o Cidade Partida, você podia ver que o marginal não atravessava o túnel.

HBH: Como e quando você data a passagem da favela para a neo-favela?

PL: Foi quando a favela virou conjunto habitacional. Quando as favelas saíram da Zona Sul e foi lá pra Cidade de Deus, pra Cidade Alta, pra Vila Kennedy, são mais de 10 conjuntos habitacionais que migraram da Zona Sul. Foi aí que elas ganharam poder.  Saíram da Praia do Pinto, da Ilha das Dragas, do Parque da Pedra da Gávea, saiu muita gente da Rocinha, do São Carlos. Nas favelas originais, tinha briga de capoeira, tinha briga de navalha, morria muito gente, mas não chegava em Copacabana. Tinha gente que morava no São Carlo e nunca tinha descido lá em baixo. Isso a sociedade não sabe. Tem gente que morou 80 no São Carlo e nunca desceu no Estácio. O que tem de gente lá que não tem registro de nascimento, você não imagina. E quando você sai da favela e vai para o conjunto, você tem que ter documentação pra ter casa, você vira cidadão. Se não pagar impostos, você vai perder a casa, e por aí vai. Foi aí também que surgiu o Comando Vermelho, a Falange Vermelha.

HBH: Vindo de onde?

PL: Das cadeias, da Ilha Grande. Eles tomam as cadeias e chegam nas favelas, nascendo o Comando Organizado. Aí pronto. Organizam-se as facções e instala-se a violência. Os caras descobrem o que é ter poder. Não se valem só do medo de assalto, eles sabem que podem ameaçar o Governador. Dar tiro na casa do Governador? Isso em qualquer país do mundo é uma loucura! E os caras chegaram lá e atiraram no Palácio Guanabara, no Meridien, no Hotel Glória, nos ônibus… No dia do aniversário do governador ele recebeu uma carta ameaçando explodirem a ponte Rio-Niterói. Isso é assalto ou demonstração de poder?

HBH: E, além do mais, a favela torna-se um lugar rico, não é?

PL: É. E rico porque cresceu muito. É por isso que eu falo que a favela é igual à senzala e a neo-favela é igual aos Quilombos. Ela agora tem um comércio interno, tem mercado, tem tudo lá dentro criado pelos próprios moradores, e tem grandes empresas e muito dinheiro com o tráfico de drogas que emprega um monte de gente. Tem o comércio de ferro velho  que vendem peças roubadas, tem a feira de Acari…E tem a classe média que vai lá para gastar dinheiro, para ir a festas, para namorar. Na favela antiga a classe média não ia de jeito e maneira!

HBH: Em que direção você acha que vai essa nova produção cultural?

PL: Em direção ao mercado. E eu acho que não sai mais, como o samba não saiu. A descoberta que a periferia pode produzir outras coisas além de samba, como música, teatro,  moda, dança, funk. Não existe funk, como existe na favela, em lugar nenhum do mundo. É o fim do preconceito de que o destino do pobre é ser trabalhador.

HBH: Mas será que esse viés cultural é o único caminho de saída da pobreza? Por mais que eu simpatize com essa idéia, ela me soa um pouco estranha.

PL: De jeito nenhum Tem trabalhos como o CIASME na Maré que são excelentes.  São universitários dos anos 80 que decidiram criar uma casa de Cultura e de Ensino na Favela da Maré. Começaram formando o pessoal de lá e hoje já temos várias gerações de universitários dando aula lá para novos alunos. Quando a cultura se espalhar pelo interior aí sim isso aqui vai ser um país. E isso está acontecendo, isso já começou.

HBH: E não só esse aspecto mais diretamente pedagógico. Acho que o consumo cultural também já está chegando em locais onde nunca havia chegado.

PL: Sem dúvida. Até muito pouco tempo par ver um show de música só indo para a Zona Sul. Você não encontra um teatro em Campo Grande. Agora os artistas começam a considerar a periferia como mercado, porque não há dúvida que se o Caetano Veloso for lá vai fazer sucesso, se o Gil for, vai lotar a casa.

HBH: Mas esses shows de media stars ainda são um pouco assistenciais, com ingresso gratuito…

PL: Depende. Por exemplo, o Belo dá show aonde? Você já viu Belo no Canecão? Esses cantores mais populares não fazem show na zona sul, só fazem show na periferia e vendem muitos discos! Zeca Pagodinho vende milhões de discos, se fizer show, lota. Sempre foi assim.

OS: E agora tem as Conexões Urbanas que vem tendo m sucesso incrível.

PL: É, mas isso é uma promoção da Prefeitura. O show é de graça. Como faz também aqui em Ipanema, na praia. Mas se alguém construir um teatro na Cidade de Deus vai ter público pagante. Quando será que Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque vão entrar na Cidade de Deus? Mesmo artistas no início da carreira vai dar público. E, com isso, a cultura só tem a ganhar. Porque isso, na realidade, é trabalho, emprego, renda.

OS: Eu estava conversando com o Yuka outro dia e ele estava falando que o que atrapalha um maior intercâmbio cultural na periferia é o Comando. Antigamente, se ia num morro, no outro pelo samba, hoje não mais.

PL: Eu me lembro que quando eu era garoto eu saía na sexta-feira, e só voltava pra casa no domingo de manhã. Eu ia para Vila Isabel, para Mangueira, para o Império Serrano, passava por todas as Escolas de Samba. Agora os Comandos, as facções diminuem o intercâmbio entre as favelas.

HBH: Não existe uma história de que os Comandos começaram dentro das prisões no contato entre bandidos e presos políticos?

PL: O poder das Falanges começa no interior das cadeias, na Ilha Grande.  Quando começa a ação política terrorista e da luta armada durante a ditadura, começa o sucesso dos assaltos a banco. Aí esses assaltantes de banco vão para a cadeia como presos especiais e entram em contato com os bandidos comuns. A favela gostou. Foi  assaltar banco também! Só que não tinha a mesma instrução, não sabiam quem é quem… De qualquer forma o primeiro assalto do Comando Vermelho foi uma obra de arte! Eles paravam cinco bancos. Um em Botafogo, um na Cidade, um em Copacabana, e foram por aí. Pararam umas kombis no sinal, todo mundo teve que parar também, eles furararam os pneus dos carros fazendo uma barreira que impediu a passagem da polícia. E marcaram uma mesma hora para todos os assaltos. A polícia ficou desbaratinada!

HBH: Foram presos e se juntaram mais uma vez aos terroristas…

PL: Juntou todo mundo. Os presos políticos dominavam a cadeia, esse setor B. Os presos políticos não queriam ser confundidos com os presos comuns, então estabeleceram algumas regras: não podiam fumar maconha, proibiram a pederastia, o roubo, não podiam fazer nada repreensível. Se fizesse, entrava na porrada. E pouco a pouco os presos políticos vão doutrinando os presos comuns. Quando os aparelhos vão sendo dizimados, quando a luta vai acabando, foi feito um muro dentro do Setor B da Ilha Grande que separou branquinho pra cá, pretinho pra lá. Mas os presos comuns aprenderam com eles. Deixaram a maconha mas proibiram o estupro, a  pederastia e o roubo. Foi aí que a Falange Vermelha tornou-se Comando Vermelho e dominou a cadeia. E implantaram de vez aquela moral adquirida por osmose. É proibido roubar em favela, por exemplo. .

HBH: Isso é da década de 80, ou antes?

PL: Isso é depois de 1980. A Falange Vermelha foi um marco muito bonito, porque, na prisão,  era espancamento dia e noite. Os presos comuns apanhavam, não comiam direito, suas visitas eram maltratadas… Eles inclusive conseguiram mandar uma carta para a Anistia Internacional e denunciar isso. Aí acabou espancamento, acabou tudo. A ditadura ficou com medo do Comando Vermelho…sacou: isso vai crescer! Mandou cortar o cabelo de todo mundo e dividiu os bandidos entre as cadeias. O que que aconteceu? Chega um monte de carecas da Ilha Grande, do Comando Vermelho, o pessoal medrou e êles dominaram a cadeia! Dominaram o sistema penitenciário todo! Então, quem está solto, se não mandar dinheiro pra cadeia, senão fizer tudo bonitinho, quando cair aqui, morre, está perdido! E foi que aconteceu. Quando o cara vai preso, ele avisa: “Sou da facção tal”. Ele vai pra cadeia da facção tal. Se botar um preso do Comando Vermelho, na cadeia do Terceiro Comando, o pessoal vai lá e mata.Isso é poder!

HBH: Malandro não tem mais a mínima vez, não é?

PL: De jeito enhum. Malandro era aquele sujeito que vivia na trampa, ele não assaltava, ele não roubava. Ele tirava dali, botava aqui…Ele jogava com as situações. É o Madame Satã, aquela coisa da Lapa. Ele era cafetão, brincava de navalha, mas não usava arma. Saia de casa com baralho. E hoje em dia não existe mais isso. O bandido mata mesmo. Quanto mais perigoso, melhor.

HBH: Como é que uma pessoa vira bandido?

PL: Tem o problema de  não ter perspectiva, não ter um referencial. Você sabe que você vai morrer assim. Amanhã é dia de branco e pronto, eu sou pobre. Isso não é todo mundo, é uma minoria. Porque tem muito pouco bandido no Brasil. Pelos tamanhos das favelas, pelo número de pessoas que habitam a Rocinha, o Hotel Internacional nãopoderia estar inteiro ainda. … Como é que pode ter uma favela em Ipanema? As pessoas mais ricas moram no Leblon e em Ipanema. Na Gávea, na Zona Sul tem favela… O pessoal anda na rua, vai, volta, passam o Ano Novo juntos na praia, vão pro Maracanã juntas…Então, não é violento. Tem um grupo que faz a violência. Mas esse grupo aí, eles vão começando bem devagarzinho. Vai se envolvendo, vai se envolvendo… Vai comprando pra um guaraná para o lanche do chefe, até que ele chega num ponto onde ele já pode ser bandido, aí… . O processo é lento.  Segura uma arma na mão, vai se envolvendo aos poucos, sai da escola, se separa dos amigos, vai se afastando da família… Aí a mãe sofre, a mãe vai falar com o dono da boca… O dono da boca pega e fala: “Tudo bem, você pode levar ele”. Ele pega fica um tempo, aí os amigos vão ajudar, a família ajuda…Aí, o moleque volta… A comunidade toda vai sabendo: “Hi, o filho do fulano tá virando bandido!”. E fica aquele processo durante anos.

OS: O bandido tem algum comprometimento com a Comunidade ali?

PL: Tem, se você mora numa favela, seguir as leis da favela… Ninguém mexe contigo. Não vai um bandido na sua casa te chamar pra ser bandido, você vai porque quer! Vai quem quer, e quem não quer não entra!

HBH: E você não ser bandido, não tem problema pro bandido?

PL: Problema nenhum. Você vai lá, sobe o moro…Você entra, deixa…se você for lá pedir alguma coisa: “Oh, assaltaram a minha casa.” Ele vai lá, pega as suas coisas e devolve… No começo era uma coisa assim, mais religiosa. Era assim: Dia das Crianças, os bandidos davam presente, São Cosme Damião, Dia das Mães… Depois da Falange Vermelha é que veio a questão social, construir rua, fazer encanamento de água, dar dinheiro pra mexer na rede elétrica. Hoje em dia não tem muito mais disso não. Mas se você precisar de uma grana, se estiver doente, vai na boca que o cara vai te dar.

OS: O Estado não tem lugar na favela, no sentindo de criar recreação, dar assistência… O Estado não comparece na favela, não é?

PL: Não. Mas o tráfico não chega a assumir esse papel também não. Já até tentaram fazer, mas não conseguiram.

HBH: Por quê?

PL: Não sei, não deu certo. A Comunidade também não aceitou toda, só um apequena parcela da comunidade. Porque não é todo mundo que vai lá pedir dinheiro. Nego passa fome, mas não vai lá pedir dinheiro.

HBH: Eu vou mudar de assunto. Eu estava lembrando das mulheres… Eu queria saber se as mulheres nessas comunidades, se elas estão mais politizadas? As mulheres estão assumindo posições de bandidas também?

PL: Tudo que aconteceu com as mulheres na sociedade inclusa, aconteceu também com as mulheres exclusas.

HBH: Sei, isso é que eu estava querendo saber. Mas dentro da comunidade você tem alguma liderança que são das mulheres?

PL: Tem, tem a Cleonice Dias, por exemplo. Ela foi maravilhosa… Ela foi do PT, criou o Conselho dos Moradores, e é a grande líder da Cidade de Deus…E ela foi a pessoa que me formou. Ela que me ajudou a me formar a minha cabeça, o meu pensamento político, social, artístico…

HBH: Na nova cultura produzida pela periferia a literatura tem vez?

PL: O problema é que não existe escritor que não leia, isso é impossível! Se não se tem leitura, se não se tem bibliotecas,  não aparece o escritor. As bibliotecas da Escola não são dinâmicas, não atraem. E não basta ir ao cinema, ao teatro, sem ler não há o gosto, o senso crítico do escritor. O único escritor da periferia que eu poderia citar é o Ferrez que escreveu Capão Pecado. As vezes aparece um escritor independente que parece que vai acontecer, mas não acontece.

HBH: E seu livro Cidade de Deus não despertou nenhum interesse local?

PL: Pouquíssimo. Quase ninguém leu. Mas o filme todo mundo viu.

HBH: E foi bem aceito?

PL: Parcialmente. Uma parte da comunidade reclamou da imagem sobre Cidade de Deus que o livro passa. Que só tem bandido, violência etc. Mas outra parte adorou. Entendeu que o livro é ficção, é literatura. Que isso deu um filme e não um documentário.

HBH: Mas nem essas oficinas que estão surgindo não formam escritores ou, pelo menos, leitores?

PL: O Gutti Fraga criou “Nós no Cinema”, “Nós no morro” há mais de 15 anos, apareceram vários atores, assistentes de direção, câmeras, mas não apareceu nenhum escritor, nenhum roteirista. Meu filho esta entrando agora para o “Nós no cinema” para escrever…

HBH: E se você não tivesse entrado para a universidade, estudado, virado escritor, o que você seria?  Um sambista? Um rapper? Um bandido?

PL: Eu acho que ia cair pra música porque eu já estava na música.

HBH: Você seria bandido? Um negão bonito assim como você e ainda por cima bandido seria sucesso na certa.

PL: Bandido morre muito cedo, passa a vida na cadeia… Bandido não se aburguesou. Eu poderia ate ser bicheiro, porque bicheiro conseguiu status.  Não dá para ser bandido não, tô fora!

OS: O que você acha do Rap como conscientização? O rap tem impacto político na favela?

PL: A música sempre teve esse lado social.  Não estou pensando no samba porque o samba não tem isso. Mas a MPB,  a música da elite, como a do Chico Buarque, do Taiguara, As músicas cabeça que eles faziam tinham todas esse lado conscientizante, engajado. .

HBH: O Rap tem o mesmo imput político do que a MPB? Ou é uma outra coisa?

PL: A diferença é que o Rap fala de dentro. Como foi o meu caso. O Rap fala com  sua própria linguagem, sobre os seus problemas e os da própria comunidade, e isso é interessantíssimo! O Mano Brown vendeu três milhões de discos sem aparecer na televisão, sem mídia nenhuma. Ninguém conhece a cara dele! Vendeu tudo isso nas favelas, rodou o Brasil inteiro!  Várias pessoas saíram da criminalidade por por causa do Rap, do Hip Hop, da break dance.. Dançam, ouvem aquelas letras imensas, barrocas, que falam da realidade deles, o cara acaba rejeitando a criminalidade. Os rappers são os ídolos das crianças na favela. Tudo isso está valendo a pena fazer. Tem o MVBill que sta fazendo um trabalho maravilhoso…

HBH: Você encontra equivalência desse tipo de trabalho fora do eixo Rio-São Paulo?

PL: Encontra. Fui a um show de rap em Pelotas impressionante. Um monte de maluco, aquela negada toda dançando Rap com consciência..Depois êles vão aos hospitais, às escolas, fazem bibliotecas. Cada um dá uma grana, é trabalho de mutirão mesmo!

HBH: O que você acha que vai ser do Brasil daqui a 20 anos?

PL: Eu estou muito otimista,  acho que agora a chegamos num momento que ficou claro que essa intolerância não dá mais. Que  a segregação social e racial não dá certo. O próprio sistema de informação, mais ágil, acaba dando uma consciência de que não dá para continuar tendo gente passando fome no país. Acho que está tendo uma tomada de consciência por parte das elites também. Até a própria Universidade esta abrindo mais, está mais preocupada com trabalhos sociais. A  própria eleição do Lula mostrou como está havendo hoje, no Brasil, um desejo de mudança muito grande. E isso vai acontecer.

HBH: E quais são seus planos pessoais agora?

PL: Ganhei a bolsa Guggenheim e vou escrever aquele livro que eu estava escrevendo quando escrevi Cidade de Deus, o Plano de Marlon.