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Coletivos

Atualizado em 10 de setembro | 7:09 PM

No quadro da intensificação da produção cultural de caráter urbano no final do século XX, um segmento que vem surpreendendo é o da atuação dos coletivos de artistas plásticos em formas diversas daquelas utilizadas pelo graffite, a expressão visual, digamos oficial, da cultura hip hop.

Os coletivos começam a surgir no final dos anos 90 e realizam um  trabalho  de intervenção no espaço urbano.

Rapidamente essas intervenções, também imbuídas do lead “o importante é agir”, começam a assumir função política de denúncia social, agora em vias e praças públicas. Simultaneamente, esses trabalhos discutem a própria estrutura da produção nos moldes do circuito e do mercado de  arte.

Os coletivos, que se propagam em proporção geométrica pelo Brasil, trazem um plus de novidade. Os coletivos não se configuram por seus integrantes e sim por determinadas ações, agindo sempre num contexto de intervenção pública. Os coletivos também não são cooperativas, não são grupos, não têm número de participantes determinado, nem podem ser caracterizados como movimentos artísticos. Sua forma de organização é independente e, para cada ação ou conjunto de ações, os coletivos buscam patrocínio, oferecendo cursos, vendendo trabalhos ou realizando serviços como ilustração, design, vídeo etc. Esta auto-gestão elimina, portanto a figura do curador, personagem cujo poder seletivo e decisório cresceram muito nos últimos 20 anos, adquirindo uma função de autoridade centralizadora no sistema das artes.

Ao contrário, a forma de organização dos coletivos é rizomática e nômade, o que marca sua diferença no campo das artes. Os coletivos são formados apenas em função da produção de um ou mais projetos. Estruturam-se para aquele fim específico e em seguida se recompõem com novos participantes em função de um outro projeto. Isso quer dizer que a composição de um coletivo não é fixa. É móvel. Um artista pode pertencer a um coletivo em função de um projeto e no projeto seguinte juntar-se a outro coletivo para a realização de um outro projeto.

A comunicação organizacional entre os coletivos é feita de forma bastante intensa através de blogs e listas de discussão na internet. Alguns sites reúnem as informações de forma mais nodal, explicitando melhor a lógica de rede que rege essa produção. Existem neste sentido, por exemplo, o site www.redecoro.zip.net (blog comunitário com informação sobre os sites) ou ainda a rede dos teóricos de arte no site www.artesquema.com. Portanto, os coletivos são organizações auto geridas, descentralizadas, flexíveis e situacionais. Essa a sua grande novidade.  Nas auto-definições dos coletivos percebe-se uma sintomática recorrência à citações de Antonio Negri em termos das noções de “ multidão”, de “trabalho-afeto” e “vida-arte”. Essa forma de produção e agrupamento vem sendo típica do trabalho dos artistas visuais jovens e mais precisamente de trabalhos de arte pública de natureza crítica e social.

Diferenciam-se dos grupos ou cooperativas de produção,  frequentes nos anos 70,  porque são estruturalmente  nômades, unem-se apenas em função de projetos tópicos e caracterizam-se pela reunião em torno de ações concretas e imediatas, rejeitando a idéia de projetos a longo ou médio prazos. Segundo os integrantes de alguns coletivos estes surgiram não por desejo, mas por necessidade. “O urgente é o real”.

Um bom exemplo é a ação a “Ocupação na Ocupação”. Durante 3 semanas de dezembro de 2003, 120 artistas realizaram uma intervenção no Edifício Prestes Maia no centro de São Paulo, que estava ocupado por 470 famílias do Movimento dos Sem Teto (MSTC). Nessa ação, que levou a sigla ACMSTC (Arte Contemporânea no Movimento dos Sem Teto do Centro), os artistas realizaram trabalhos em colaboração com os ocupantes, promovendo uma grande interação entre os artistas e os integrantes do MSTC, dando um sentido de desagravo á intervenção.

É o que se conhece como a explosão do “Artevismo”, um híbrido de arte + ativismo. Ou como eles mesmo denominam de “Arrivismo”: “s.m. Procedimento de arrivista, de quem quer vencer na vida de qualquer modo” (dic.). Essa priorização da ação transformadora nos remete à estética do rap, do grafitte e da literatura marginal, abordados anteriormente e cuja forma de fazer política é priorizar a ação imediata e a divulgação agressiva da informação.

Em outubro de 2003, foram publicados, numa pequena brochura, os Anais do primeiro congresso internacional de Ar(r)ivismo. Essa publicação traz algumas definições interessantes do projeto artístico e político dos coletivos.

Na leitura dos Anais, percebe-se a presença forte de alguns termos e noções recuperados das décadas anteriores e agora ressemantizados. As recorrências mais frequentes no correr destes Anais, são as idéias de guerrilha cultural e da aproximação arte/vida como prioridades estratégicas.

Revistando um pouco a função destas noções nos discursos dos anos 1960/70, conseguimos entender melhor as novas propostas da arte hoje. Não entrando muito no sentido mais profundo do uso original destas noções, eu diria que a idéia de guerrilha na década de 1960, implicava uma causa política e se manifestava através de um impulso utópico bastante forte. Hoje, a tática da guerrilha é usada de forma mais imediata e tática. A guerrilha, ou a intervenção que surpreende, é utilizada basicamente para se fazer ouvir ou para ser coberto pela mídia que passa a ser vista como um novo suporte possível para a obra de arte, com a vantagem de ter um caráter multiplicador.

Quanto a articulação direta entre Arte/ Vida, não é mais dirigida para a busca de uma indistinção entre o modo de viver e o modo de produzir arte ou literatura, como as produções alternativas dos anos 70,  momento no qual a idéia de viver artisticamente  e de criar de forma vitalista, se manifestava a partir de uma exemplaridade contracultural.

Hoje, a aproximação entre a Vida e a Arte é entendida de forma diversa. A ligação Arte/Vida torna-se funcional enquanto forma de levar a arte para o cotidiano das ruas e agrupar os indivíduos-espectadores em torno de uma intervenção em seus hábitos. Portanto essa idéia de levar a arte para a cena pública do cotidiano caracateriza-se claramente como uma tática de ação e não como um estilo de vida ou uma visão da arte como nos anos 70.

É ainda importante chamar a atenção para o fato de que a produção de um coletivo não valoriza a produção artística individual. O autor da obra é o coletivo e não o artista x, y, ou z. Um mini manifesto assinado por Tulio Tavares, integrante do coletivo A Nova Pasta, composto de apenas um artista.

A(r)tivismo é brincadeira?

O Ar(r)ivismo é sério?

Com quantos umbigos se faz um grupo?

Um(b)iguismo?

O fato da criação deste coletivo de apenas um participante não é apenas um lance de humor ou nonsense. A idéia implícita na criação deste coletivo é a interpelação do aqui referido como o Um(b)iguismo e que eu traduziria pelo individualismo e pela necessidade da autenticidade da autoria que estrutura o mercado de arte. E com isso chegamos a um ponto nevrálgico da atuação dos coletivos. A interpelação não apenas do sistema das artes, mas da lógica mais ampla da produção cultural em um de seus pontos mais sensíveis: a questão da autoria e da propriedade intelectual.

Num momento em que o software livre e a inclusão digital são discutidos  nos fórum industriais e sociais, com a bandeira “conhecimento bom é conhecimento compartilhado”, surge uma reivindicação similar nos movimentos culturais de vanguarda, a respeito do que é batizado por “plágio criativo”,  “estética do cut up” ou  “sampling”. É o movimento copyleft conduzido por artistas e escritores. A idéia do copyleft é permitir a reprodução e distribuição de obras sob a condição que permaneçam “abertas”. Os debates promovidos pelo movimento copyleft geraram um avanço e a regulamentação do creative commons, uma legislação com espectro flexível de proteções para artistas e escritores. As consultas ao Creative Commons são oferecidas num um site gratuito onde há vários tipos de licenças de uso para obras. Há licenças como “domínio público”, “uso não comercial”, “recombinação”, “some rights reserved” e muitas outras. O copyleft e o creative commons seriam inovações jurídicas que superariam a pirataria enfatizando o sentido de uma fábrica cultural com poder de criação e cooperação social.

Há ainda a mídia tática que propõe a reutilização das mídias tradicionais como tv, radio, vídeo, web sites, impressos e os demais tipos de mídia eletrônica para dar voz a minorias, comunidades alternativas , dissidentes políticos e artistas de rua.

Tanto o copyleft quanto a mídia tática prometem efeitos radicalmente transformadores não apenas do ponto de vista legal (que por si só é fascinante) mas principalmente como desafios aos modelos culturais vigentes,  em sua quase totalidade,  baseados nas idéias de autoria e autenticidade. Por mais que se possa duvidar, um processo irreversível.