Josely – Musa Paradisíaca

Atualizado em 19 de agosto | 12:33 AM

Não há quem não se lembre do impacto causado pela página Poesia-Experiência de Mario Faustino no não menos importante Suplemento Dominical do Jornal do Brasil , documento definitivo da inquietação intelectual que marcou a passagem dos anos 50 para os 60 no Brasil.

É igualmente difícil não pensar nesta página quando examinamos Musa Paradisíaca, realizada por Josely Vianna Batista e Francisco Faria, ela poeta, crítica e tradutora, ele arquiteto, artista plástico, designer.

O curioso é que, se a turbulência político cultural da década de 1960 mostrou-se o momento propício para um trabalho como o do SDJB, a década de 90, ao contrário, se mostrava pouco receptiva ao debate de idéias ou experimentações formais e autorais. Pressinto que esse foi o principal motivo pelo qual Josely e Faria entraram em campo e enfrentaram, com arte e inteligência, esse nosso final de século apaziguado pela bandeira da heterogeneidade permitida.

Partindo precisamente da pluralidade estrutural da produção artística dos anos 90, o projeto editorial da Musa procurou colocar a heterogeneidade em perspectiva – e mesmo em movimento – , através do diálogo e do confronto, promovendo com isto uma dinâmica possível para a reflexão crítica sobre o momento.

Sem dúvida, os anos 90 e sua diversidade de dicções, filiações e procedimentos estéticos e políticos, precisavam ser mapeados criticamente.

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Joelle Rouchou – Noites de verão com cheiro de jasmim

Atualizado em 19 de agosto | 12:32 AM

Primeiro vieram os movimentos sociais dos lendários anos 60 com sua guerra de posição afirmando as “diferenças” e as então chamadas “minorias” sexuais e raciais como constituintes de sujeitos políticos legítimos. Guerra linda e apaixonada. Depois vieram outras décadas mais maduras, mais seguras no lidar com as “identidades minoritárias”. Aqui, as guerras de posição tornaram-se guerras de manobra feitas de negociações epistemológicas, estéticas, semânticas, políticas. Não se falava mais em minorias mas em identidades posicionais, processos de subjetivação. Não se falava mas em “raças” mas em grupos ou identidades étnicas. Foi então que passamos a lidar com um novo sonho, o sonho multicultural. O sonho de uma democracia radical onde fossem construídos canais de expressão igualitários para todas as vozes que teciam o ethos do capitalismo tardio, nesta virada de milênio.

E sobreveio o susto. O novo milênio é inaugurado sob o impacto da intolerância, dos novos racismos extremados, das xenofobias violentas, do personalismo soberano. Onde perdeu-se o fio multiculturalista?

É inegável que o século XXI reconhece a presença política e os direitos das antigas minorias. É inegável que a epistemologia ocidental moderna foi cansativamente interpelada em todos os seus viézes e subtextos etnocêntricos. Tudo indica que aprendemos a reconhecer e respeitar as diferenças.

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João Almino – As Cinco Estações do Amor

Atualizado em 19 de agosto | 12:31 AM

As Cinco Estações do Amor é o último volume da trilogia de Brasília do escritor, crítico, fotógrafo e diplomata João Almino. Um autor que começa a escrever nos tempos quentes do Planalto, que traz o cenário de Brasília e dos bastidores do poder, um diplomata convictamente diaspórico, um romance que fala de amor. Resumindo, um mix que, em princípio, promete. Foi com essa expectativa que comecei ler As Cinco Estações. Os ingredientes esperados estava todos lá: a luminosidade incisiva do planalto, as idas e vindas das utopias da geração AI5, a marca distintiva dos afetos, invejas e conflitos desenrolando-se no design das superquadras, o balanço existencial dos protagonistas desse projeto algumas décadas depois. Tudo certo.

O que eu não esperava era que o narrador fosse uma mulher e mais: uma mulher com a dicção mais ortodoxamente feminina que se pudesse prever. Essa mulher era, sem dúvida da minha geração ou da que veio imediatamente depois. Sua experiência social, revelada nas entrelinhas e sentimentos explícitos e implícitos trazia cicatrizes dos anos 60-70. Apresenta-se no romance através do acting out da clássica divisão entre os dois lados da Eva pré feminista. Diana, nome escolhido e registrado legalmente pela mãe e Ana, preferência paterna, como ficou sendo efetivamente conhecida.

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Ieda Magri – Tinha uma coisa aqui

Atualizado em 19 de agosto | 12:30 AM

Li Tinha uma coisa aqui, o primeiro livro de Ieda Magri, de um só fôlego. Alguma coisa de pegou de jeito e eu não conseguia parar. Alguma identificação, alguma dor antiga, alguma tela perdida. Talvez o que nos ligue visceralmente à leitura deste texto seja seu caráter prismático. Talvez seja o entrelugar do leitor, entre o narrador e a projeção de suas lembranças. A cena de um sujeito ao mesmo tempo dentro e fora da ação. Cúmplice do leitor em seu distanciamento calculado.

Não seria correto definir Tinha uma coisa aqui nem como um livro de contos, nem mesmo como três novelas reunidas num só volume. Do ponto de vista do enredo, temos Pema e suas memórias, como personagem central ou, melhor, como personagem que permite o real leitmotiv deste livro: as várias faces, sombras, reflexos em cadeia , as indisfarçáveis dores da perda. As três partes cujo eixo é Pema, são moduladas pelo sentimento agudo de “inabilidade que se reflete na hora em que o mundo pesa, torna-se imenso” .

No primeiro, digamos, “tempo” dessa rapsódia, Pema vê sob o prisma de suas lembranças, cenários, projeções, imagens do passado, presente e futuro , cenários longínquos, temores de infância, o silêncio e peso da morte do pai.

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Evelyna Avenida Presidente Vargas Uma Drástica Cirurgia

Atualizado em 19 de agosto | 12:30 AM

O tema cidade vem se insinuando com tal insistência na crítica da cultura contemporânea que sugere uma indagação: O que significa, hoje, falar sobre a cidade? Que espaço privilegiado seria este que, como vem mostrando os estudos mais recentes, é sintomático e revelador não só das representações que uma cultura se faz de si mesma mas também das relações e conflitos entre os diversos sujeitos sociais que determinam a própria idéia de cidade? O trabalho “A Avenida Presidente Vargas: Uma Drástica Cirurgia” é, sem dúvida, uma tentativa de resposta neste sentido.

Várias são as razões pelas quais esta pesquisa me despertou um interesse especial. Num primeiro momento, foi o levantamento cuidadoso dos dados e projetos que marcaram a turbulenta renovação da paisagem urbana do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX e, particularmente, no período do Estado Novo quando a urgência em definir um programa político modernizador para o país, muitas vezes, se impôs, de forma arbitrária e polêmica, com claro prejuizo do diálogo democrático e da própria noção de cidadania. Num segundo, foi a consciência da noção de cidade enquanto prática discursiva que este trabalho evidencia. Através da observação das articulações dos espaços sagrados/profanos, públicos/privados e da tessitura da rede dos discursos que permitem e promovem estas articulações, Evelyn toca em alguns pontos nevrálgicos do debate cultural brasileiro da época: as armadilhas que a idéia de Progresso, eixo estruturante da política de urbanização e higienização do início do século, colocaram para os intelectuais do período, os limites do projeto nacionalista de Vargas, a demolição não racional ou a “diáspora da memória” que – de forma tão recorrente – revela um sintomático descaso com nosso patrimônio cultural e, enfim, a construção de um discurso arquitetônico do Poder expresso tanto no seleção e uso de materiais quanto na morfologia dos prédios e monumentos.

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