Entrevista com Waly Salomão

Atualizado em 15 de setembro | 12:03 PM

Por Heloisa Buarque de Hollanda

O poeta Waly Salomão é o novo Secretário Nacional do Livro integrando a nova equipe do Ministério da Cultura. Waly integra a nova equipe do Ministério da Cultura que tomou posse cantando, sugerindo uma gestão promissora pautada pelo sonho, pela catimba e pela bandeira da Imaginação no Poder.

HBH: Que você é poeta polivalente, radical e premiado eu já sei. O que me interessa agora descobrir é o Waly político, executivo, que acaba de assumir a Secretaria Nacional do Livro. Como esse personagem é muito novo para mim, vou com calma e pergunto primeiro: qual é a posição efetiva do livro e da leitura na sua vida?

WALY: Desde que me entendo por gente, o livro tem uma posição central, como se fosse um ícone dentro da casa. Ainda bem menino, me lembro de minha mãe discutindo com meus irmãos e irmãs mais velhos os dois volumes, daquela velha edição da Ed. Globo do Rio Grande do Sul, de Guerra e Paz de Tolstoi. Eles discutiam a trama dos livros e seus personagens, como se estivessem discutindo uma novela mexicana. Ana Karenina, por exemplo, era centro de conversa como se ela fosse uma personagem da Glória Perez.

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O destino dos bons rios

Atualizado em 15 de setembro | 12:00 PM

Publicado originalmente por Heloisa Buarque de Hollanda, no Caderno B, do Jornal do Brasil, em  14/05/1983.

 

A literatura (e a cultura) de resistência dos anos 70 — nossas barricadas do desejo — por volta de 1978, começa progressivamente a evidenciar uma saudável e altamente desejável tendência à “desburocratização” no que diz respeito a suas palavras de ordem e estratégias. A conquista de mercado (e a conseqüente dissolução de guetos), o desejo do diálogo amplo e irrestrito e a valorização da qualidade técnica e artística dos produtos são sintomas de um remanejamento visível no campo da produção cultural que empunhou a bandeira da contracultura e dos circuitos alternativos no período pré-abertura. Isso, entretanto, não significa que a produção independente ou marginal tenha desaparecido. A proliferação de grupos, autores e cooperativas neste sentido demonstram o contrário. Mas é importante ressaltar que a poesia marginal de hoje não se identifica com aquela que se firmou no início da década passada, marcada a ferro e fogo pela conjuntura político-social do momento e pela inquietação dos movimentos contestatários jovens e internacionais.

Retomando as sugestões da ideologia vitalista do começo do século, e mesmo radicalizando-as, os movimentos undergrounds que se definiram, no Brasil, na virada dos 60 para os 70, faziam explodir no discurso do comportamento e da produção cultural — ao som do rock e da granada — a guerrilha contra a cultura dominante em suas formas legitimadas de poder e do saber.

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Entrevista com JB Stuart Hall

Atualizado em 15 de setembro | 11:59 AM

Entrevista feita por Heloisa Buarque de Hollanda (professora da UFRJ e diretora da Aeroplano Editora e Consultoria) e Liv Sovik (professora da UFRJ e organizadora do livro de Stuart Hall,  Da Diáspora: identidades e mediações culturais, Editora UFMG, 2003) .

 

Stuart Hall é hoje, no Brasil, um reconhecidíssimo nome da cultura acadêmica. Um dos fundadores da polêmica “pós-disciplina”, os Estudos Culturais, Hall dirigiu o histórico Centro de Birmingham em seu período mais quente e produtivo.  Jamaicano, vive na Inglaterra desde 1951  onde é conhecido como um intelectual engajado nos debates sobre as dimensões político –culturais da globalização, a política nacional e os movimentos anti-racistas. Tem dois livros publicados no Brasil: Identidades culturais na Pós-Modernidade e Da diáspora: identidades e mediações culturais.

Nesta entrevista, Hall fala sobre  o impacto de sua condição de imigrante jamaicano  em sua produção intelectual, como nasceram os Estudos Culturais, porque não se preocupa em publicar livros, as perspectivas do engajamento do intelectual hoje e como ainda é possível se trabalhar criticamente a globalização.

Você deixou a Jamaica ainda como estudante e hoje é um dos intelectuais mais importantes da Inglaterra. Imagino que esse deslocamento da colônia para a metrópole tenha marcado seu pensamento e atuação profissional.

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Entrevista com Rui Campos

Atualizado em 15 de setembro | 11:51 AM

Por Heloísa Buarque de Hollanda

Rui Campos, bonito, sorridente e mineiríssimo é hoje um dos personagens mais populares e queridos da vida cultural carioca. Livreiro das antigas, foi dono das livrarias Muro e Dazibao, ícones dos anos 70/80. Hoje domina o mercado livreiro independente com as várias Travessas que pontuam o mapa cultural do Rio de Janeiro. Além de contar os bastidores da vida de um livreiro de sucesso, Rui, nessa entrevista, analisa os problemas e as perspectivas comerciais das livrarias frente à onda do monopólio das grandes cadeiras multinacionais de livrarias e do mercado virtual de livros.

 

HBH : Rui, como personagem  você é imediatamente associado ao livro, às novidades editoriais, às livrarias acolhedoras. Há mesmo quem afirme que você é o último livreiro, essa figura em vias de desaparecimento. Quando e como você se tornou livreiro?

RUI: Tudo isto começou muito cedo, eu tinha 19 anos. Nesta fase, nada é muito planejado, a vida vai atropelando, uma semana vale por quinze anos de vida adulta..

Como todo mineiro, eu tinha fascínio pelo Rio de Janeiro. Na época eu namorava a Marta Luz e ela também tinha esse desejo de vir para o Rio trabalhar com cinema. Eu não tinha em mente nada muito profissional.

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Entrevista com Raimundo Carrero

Atualizado em 15 de setembro | 11:49 AM

Por Heloísa Buarque de Hollanda

 

Heloisa – Raimundo, de onde é que você veio com tanta garra?

Raimundo Eu nasci em 30 de dezembro de 47 numa cidade chamada Salgueiro, no sertão de Pernambuco, sertãozão, o sertão mais distante.

Heloisa E foi lá que você descobriu a literatura?

Raimundo Foi eu tinha um irmão mais velho que era ator de circo e um intelectual seríssimo. Ele me deixou uma biblioteca inteira  debaixo dos balcões da loja de  roupas e chapéu de meu pai.. E eu fui descobrindo que , debaixo dos balcões, haviam muitos livros. Eu só não podia levar os livros para casa porque quando meu irmão voltasse, os livros deveriam estar lá.  E eu ficava horas lendo Zé Lins, Graciliano, Ibsen, Shakespere, Bernard Shaw.

Heloisa Aí você começou a escrever logo?

Raimundo – Comecei sim, comecei escrever usando os papeis lá da loja. A solidão do sertão é muito grande, é uma solidão bem diferente da solidão daqui. É uma solidão cheia de sol, de silêncio, mas muito pegajosa, muito pesada. A solidão da cidade grande é sombria, cinzenta, a do sertão é pesada, eu chamo de solidão oca. Parece que dentro a solidão tem outra solidão.

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