Sobre Wally Salomão

Atualizado em 19 de agosto | 4:56 PM

1. Em 1972, “Me Segura…” foi recebido como o grande texto pós-tropicalista e rapidamente esgotou-se. Depois de 32 anos, que herança se resgata com a republicação do livro, além é claro, da homenagem a Wally Salomão?

Heloisa Buarque de Hollanda. A herança de um momento de grande importância na nossa formação cultural recente. Me segura, na área da poesia, foi pioneiro em oferecer um modelo de negociação entre o muito local, ou a cidade bahiana de Jequié, sempre muito referida por Waly e o momento contracultural efervescente da Nova York dos anos 70 e a filosofia européia, também cultivada com particular apreço por Waly.  E é importante que se perceba que esse modelo não é exatamente o mesmo da antropofagia modernista, que seria o de deglutir e digerir o estrangeiro, No caso da poesia de Waly não se trata de uma absorção antropofágica, trata-se de uma negociação bastante sutil ainda que anárquica e rebelde como pediam aquele tempos. Como o panorama internacional já dava sinais claros da emergência dos processos de transnacionalização do consumo cultural, essa forma de negociação seria, digamos, quase uma premonição dos possíveis comportamentos dos produtores culturais no quadro de um mercado globalizado. Um segundo ponto importante é o registro histórico de como a cultura jovem e transgressora daquele momento lidou com as pressões dos anos de chumbo.

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Revista RAIZ

Atualizado em 19 de agosto | 4:53 PM

12 de setembro de 2008

Coleção ‘TRAMAS URBANAS’ lança livro sobre movimento literário da periferia paulistana.

Por Thereza Dantas

 

Rap, hip-hop, a estética das artes urbanas, moda, os Coletivos e o Viva Favela foram os temas dos sete primeiros livros da série, que registra a cultura produzida na periferia. “Surge um fenômeno mais amplo, não restrito aos guetos, e que ressoa e estimula a cultura urbana de forma explosiva e irreversível”, diz a escritora, editora Heloisa Buarque de Hollanda, que idealizou a coleção Tramas Urbanas. Em 2007 foram lançados os livros Poesia revoltada, de Ecio Salles, Cidade ocupada, de Ericson Pires do Coletivo Hapax, Notícias da favela, da jornalista Cristiane Ramalho, Trajetória de um guerreiro, do DJ Raffa e Acorda Hip-hop!, DJ TR.

Em 2008, a editora continuou a lançar livros com temas muito atuais como Daspu, a moda sem vergonha, de Flavio Lenz, e História e memória de Vigário Geral, de Maria Paula Araújo e Écio Salles. Em setembro, dia 12 e 19 respectivamente serão lançados Cooperifa, antropofagia periférica, de Sérgio Vaz, e Favela tomam conta, de Alessandro Buzzo, um dos blogueiros da RAIZ. A safra de 2008 fecha com o título Tecnobrega: o Pará reinventando o negócio da música, de Ronaldo Lemos e OOna Castro. 

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Revista Diversa da UFMG

Atualizado em 19 de agosto | 4:50 PM

maio 2009

 

P: Como a senhora vê o movimento recente de ocupação das cidades por artistas e manifestações da arte e da cultura?

R: Esse movimento me parece,  na realidade, uma intensificação da cultura e da arte pública que vêm já desde a segunda metade do século XX. Com o simultâneo desenvolvimento de uma ressignificação urbanística que sublinha o uso  da cidade como espaço cultural, espaço de memória e espaço de contágio cultural, a ocupação das cidades expande-se em diversas estratégias políticas e artísticas de ações majoritariamente coletivas.

 P: Quais são as diferenças com relação a outras épocas, e também entre cidades (Rio e São Paulo, por exemplo)?

R: Acho que cada cidade tem sua gramática e por exemplo a atual emergência da cultura da periferia reage com clareza a essa gramática. Por exemplo, no Rio, onde as comunidades “periféricas” ou de baixa renda estão no interior do território considerado “centro” emergem expressões culturais mais articuladoras, que gera basicamente conexões entre mídias, linguagens, espaços, culturas e comunidades diferentes. Já em São Paulo a resistência territorial é fundamental. A cultura que produz e se volta nitidamente para as próprias comunidades e territórios geográficos e sociais.Portanto, cultura e território, cultura e cidade estão visceralmente relacionados nesse momento.   

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Portal Conexão Professor – Secretaria da Educação do Rio de Janeiro

Atualizado em 19 de agosto | 4:46 PM

1 – Gostaria de saber, agora passados quarenta anos, como a senhora vê o ano de 68, todos os acontecimentos e a sua importância para a história do Brasil.

Acho que 1968 marcou sobretudo a descoberta da alteridade. E, neste sentido, sua contribuição foi fundamental e até hoje ecoa na política e na produção intelectual e artística do Brasil.

2 – A senhora coordenou um projeto sobre a cultura alternativa durante o regime militar. Poderia falar um pouco sobre ele?

Eu me dediquei durante os anos da ditadura às várias  manifestações culturais alternativas que, naquele período, eram chamadas de “marginais”. Meu interesse por essa faixa de produção foi porque, sendo à margem do sistema e não se identificando diretamente com as ideologias da esquerda tradicional,  essa produção foi de certa forma “poupada” pela censura, ainda que, eventualmente, tenha tido sérios problemas com a repressão.  Assim talvez a cultura alternativa tenha sido uma das poucas áreas da produção cultural que pode se expressar com um certo grau de liberdade e tenha conseguido escrever o testemunho que se chamou a geração AI5.  Foi isso que me atraiu na cultura alternativa produzida durante o período do regime militar e que me estimulou a prosseguir com um grande entusiasmo atravessando aqueles tempos chamados de “vazio cultural”.

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Entrevista para Cintia Lima

Atualizado em 19 de agosto | 4:44 PM

 A poesia chamada marginal é poesia para quem a aceita como poesia, mas, por sua própria definição, situa-se à margem e, por isso mesmo, fora da literatura. Na realidade, é essa a visão de literatura marginal de alguns teóricos, mas o que gostaríamos que você explicasse se sua visão sobre o assunto diverge ou simplesmente consolida essa definição.

R: Não entendo a literatura marginal como “fora da literatura” e sim como uma produção literária “fora do sistema editorial” aqui entendido como o circuito tradicional de distribuição e comercialização do mercado livreiro, o que, na realidade, é o projeto explícito do grupo.  A dicção, na época, definida pelos próprios marginais como “anti-literária” refere-se não à literatura em geral ( vários, inclusive , referem-se à suas filiações modernistas, especialmente identificados com Manuel Bandeira e , em segundo lugar, com Carlos Drummond)

Para muitos, a década de 70 foi considerada a década do “vazio cultural”, alucinações: para outros, anos de revisões e ampliações. Gostaríamos de saber a sua percepção desses famosos anos 70 e uma definição sua para essa expressão “vazio cultural”.

Quando Zuenir Ventura batizou os primeiros anos da década de 1970 como vazio cultural, com muita propriedade, ele referia-se ao esvaziamento dos quadros de professores nas universidades, de intelectuais e artistas ativos no período pré-68, todos em exílio compulsório, voluntário ou presos.

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