Carpeggiani

Atualizado em 18 de agosto | 4:53 PM

1 – Como surgiu o interesse de, em épocas distintas, reunir novos autores para uma antologia, quando é que você percebeu que havia algo de novo na literatura brasileira?

 

Eu sou viciada em poesia. Eu leio um poema, olho um poema , ouço o poema. Isso me fez ler sempre muito poesia.  E por isso, os poetas novos sempre me mandam seus trabalhos e comecei a perceber como é forte a poesia enquanto expressão de uma época. Talvez pelo péssimo motivo de a poesia não ter mercado, ela é bem mais livre do que a prosa para experimentar, divagar, traduzir o ethos de um momento. Foi assim que, de leitora de poesia  passei a usar a poesia também para compreender meu momento.

Quando nos anos 70, o consenso era de que havia-se aberto um inexorável vazio cultural diante da censura e dos limites impostos pela ditadura, observei que a poesia começa exatamente a se proliferar de modo ainda inédito na história. Eram muitos os poetas, eram muitos os livros de poesia que circulavam de mão em mão. Comecei a me deter um pouco mais naqueles textos de jovens poeta e pareceu claro para mim a importância do testemunho geracional que aquela poesia continha.

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Blooks

Atualizado em 18 de agosto | 4:52 PM

1. Nesta exposição você cria um conceito que parte da junção do conceito de Blog com Book (livro) = Blooks. Poderia explicar como chegou a esta nova forma de produção e difusão da informação e leitura?

 

Eu não criei esse conceito. Ele é até relativamente antigo , apenas me apropriei porque achei uma noção instigante. Ou seja a pergunta tradicional “a internet matou o livro?” se mostra desatualizada. O que existe é uma enorme produção literária na rede  que usa o recurso interativo do blog e o ambiente descentralizado da internet para desenvolver a criação literária. Do blog ao book é um pulo.

 

2. Temos os mais diversos tipos de blogs, tratando dos mais diferentes assuntos. Todavia, um traço marcante em muitos deles é a dissolução entre os limites da vida privada e pública. Como os antigos diários que escrevíamos sobre os fatos que marcavam nossa vida, agora perdem a questão da privacidade e entram no domínio da esfera pública. Podemos considerá-los como uma nova forma de crônica da vida cotidiana?

 

Podemos. O que parece mais flagrante é a necessidade do criador e do produtor de cultura de pertencer a comunidades de troca e de compartilhamento de saberes e  textos, ambiente que a vida literária não facilita em função de seu mercado reduzido especialmente aquele da poesia. 

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Livros e Editora

Atualizado em 18 de agosto | 4:44 PM

Como uma das sócias da Aeroplano Editora, autora, organizadora de livros e crítica literária, que considerações você faz sobre o Mercado Editorial Brasileiro hoje – tanto do ponto de vista do autor quanto do editor?

HBH: Minha experiência na Aeroplano foi sempre mais de “fazer livros” – que é um prazer imenso e um exercício conceitual literário, – do que “fazer uma editora”. Acho portanto que não sou exatamente uma editora. Venho de uma experiência anterior também muito fora da realidade do mercado que foi o de diretora da Editora UFRJ.  Nesses dois casos a ênfase é a da importância da publicação e seu impacto no debate intelectual do momento. Mas tenho consciência de que o trabalho de um editor vai bem alem disso. Como autora, não tenho tido queixas. Fui autora da Brasileinse desde minha tese de doutorado e em seguida fui autora da Rocco. Ambas me abriram grandes possibilidades profissionais e sempre foram muito corretas. Atualmente publico meus trabalhos pela Aeroplano mas não sei se é o ideal para mim enquanto autora. É muito “familiar” demais a relação entre editor e autor….

 

Como você vê o papel do escritor e do editor na sociedade?

HBH: Vejo como indispensável porque o livro e a literatura são bens simbólicos de formação e divulgação sem rivais.

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Revista Cultura e Pensamento 2007

Atualizado em 18 de agosto | 4:17 PM

P – Como surgiu a idéia da exposição “Blooks”?

 

A idéia do Blooks veio de uma certa  desconfiança e mesmo intolerância da critica literária com a produção e com a linguagem desenvolvida na internet.  Eu acredito sempre que as novas formas  culturais estão  fermentando e sendo gestadas nas margens do mercado cultural  tradicional. Por isso fiz minha tese sobre a poesia marginal dos anos 70, depois me apliquei na produção cultural da mulheres e dos negros  e mais recentemente das perspectivas  que apontam tanto  no território das novas tecnologias quando nas vozes ácidas e cheias de marra que estão chegando com força total vindas das periferias. Fui então ver com mais cuidado e sem pressupostos formados a literatura da web. Surpresa total. O grau de criatividade, possibilidades abertas para a experimentação da linguagem, a vizinhança com outras mídias que se cruzam e, principalmente, se contaminam de fora recorrente na www abre um espaço de criação novo para a literatura que esta nunca conheceu antes. Acho incrível certas reações contrárias que vêem esses fenômenos como  desaprendizado, como corrupção da língua , da norma  culta. Pode ser até que os blogs mais pessoais tenham inventado seu dialeto próprio o  que é absolutamente normal em qualquer comunidade jovem.

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Esses Poetas

Atualizado em 18 de agosto | 3:40 PM

Como é que você está vendo as primeiras reações críticas à Antologia Esses Poetas?

 

Acho totalmente normal a reação, até porque a outra antologia (26 Poetas Hoje) já teve essa reacão polêmica.  Eu acho que a antologia de agora pega uma ressaca da outra. A antologia de agora ficou importante porque a anterior lançou nomes e fez um cânone. Um cânone absolutamente malcriado, porque era contra tudo que prestava na época. Era contra o concretismo e era contra a dicção solene. Você tinha os poetas estabelecidos, tipo Nejar e outros, e tinha a coisa “nova” na época que era o experimentalismo. Tudo isso foi afastado pela 26 Poetas Hoje, sendo eleitos aqueles que até então não estavam em lugar nenhum. Foi uma astúcia, uma travessura do destino. Oitenta por cento daqueles poetas ficaram. Tornaram-se alguma coisa e estão aí. Essa reação de agora, esse segundo round, tem muito a ver com a expectativa criada pelo impacto e pela permanência da 26 Poetas Hoje. Se eu fosse poeta, eu gostaria de entrar para essa antologia de agora, porque já veria como tipo loteca, tipo sorte grande. O poeta pensa, “de repente eu entro pro cânone”. Se para aquela valeu, por que não valeria para esta?

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