Entrevista para Carlos Willian Leite

Atualizado em 19 de agosto | 4:34 PM

Francisco Perna Filho – Passados vinte e oito anos da primeira edição da antologia “26 Poetas hoje” que, naquela época, foi tida como ousada ao propor, no seu prefácio, uma subversão da expressão intelectualizada; a recuperação do coloquial numa determinada dicção poética, bem como, um circuito de produção e distribuição independente. Para senhora, os resultados foram satisfatórios. Fale-nos um pouco sobre isso.

R: Para mim foram satisfatórios e ao mesmo tempo inesperados. Satisfatórios porque me interessava estimular o debate entre os pesquisadores e criadores de literatura sobre a quebra de paradigmas que se processava naquele momento em todas as áreas do conhecimento e da produção artística. E isso foi muito bom. Na repercussão crítica da antologia, fosse ela negativa ou positiva, discutiram-se como nunca as questões de valor, qualidade, tendências e relações da literatura com o mercado editorial e com a sociedade em geral. Inesperados porque aqueles poetas rebeldes e marginais de ontem entraram para o cânone literário.

Carlos Willian Leite – A poesia marginal foi mais um sintoma de uma época do que uma elaboração da linguagem. Passados 30 anos, por que continua existindo esse fascínio exagerado com os poetas malditos?

R: Porque a maldição é fascinantes mesmo. Ela contém uma taxa alta de resistência, de atuação fora da norma, de liberdade, que se oferece de forma irresistível para os criadores e para nós, pobres trabalhadores intelectuais com baixa expectativa de transformação a curto e médio prazos.

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O Tempo

Atualizado em 19 de agosto | 4:26 PM

Qual sua avaliação sobre a produção literária brasileira contemporânea? Faça um panorama da nossa literatura.

R: A literatura contemporânea (falo aqui da literatura jovem) está surpreendendo porque, se não me engano, os novos autores começam a ter uma relação mais saudável com a tradição. Ao contrário do que aconteceu tantas vezes na nossa história literária, essa geração não pretende lançar algo novo, oposto aos clássicos ou aos movimentos anteriores. Paradoxalmente, isso leva com que essa nova literatura apresente uma independência grande em relação à literatura canônica. Ela lê, conhece, respeita e gosta da “grande literatura” mas não quer ser como ela. Se pretende plural, testa novas mídias e seus efeitos na linguagem, absorve o ethos cultural desse momento e vai à luta inventando relações diferenciadas com o mercado e  com a linguagem. As mulheres, nesse caso, comparecem em massa e com uma força bastante diferenciada do que se chamava de “escrita feminina”. Não diria que exista uma literatura de internet porque os novos autores não se confundem com os blogueiros. Mas diria que ela é produzida numa nova dinâmica de atenção, sensibilidades e formas de apreensão do mundo de caráter mais verticalizado e mais receptiva dos vários “inputs” simultâneos.  Outro diferencial interessante e a forma como esta literatura se beneficia claramente com as novas dinâmicas da vida e da troca literária que a internet permite.

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Jornalismo cultural e mercado literário

Atualizado em 19 de agosto | 4:22 PM

Março de 2009

 

A principal crítica que se faz hoje ao jornalismo cultural, principalmente ao dos veículos impressos, é ser demasiadamente pautado pelo mercado em todas as áreas: cinema, literatura, teatro, etc. A senhora concorda com esta crítica? O jornalismo cultural da grande imprensa a seduz ou a irrita?

H: Eu acho que temos que dar um desconto para os suplementos e não pensar como se eles fossem independentes do jornal. Os suplementos fazem o que podem e, o que é mais importante, SOBREVIVEM. Tenho certeza de que os jornalistas, especialmente na área da literatura que é minha área, adorariam publicar matérias tudo o que sai e fazer uma política editorial inovadora e de traços independentes. Mas o próprio jornal está com grandes problemas financeiros e a primeira coisa a ser cortada é claro que seriam os cadernos literários.  É claro que o sonho é que esses suplementos tivessem um perfil independente. Mas nesse momento eu dou graças adeus por eles existirem ainda.

De que maneira o jornalismo cultural consegue ser um retrato da produção atual brasileira? Ou é apenas um esboço, levando em consideração a verdadeira avalanche que inunda a imprensa diariamente? A vastíssima produção do mercado editorial brasileiro é um exemplo claro da angústia que ronda qualquer editor de cultura.

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Entrevista Luizilá

Atualizado em 18 de agosto | 6:23 PM

1-Heloísa, você dedica sua vida à atividade artística e intelectual. Como você encara e enfrenta os dilemas colocados a todo brasileiro que se compromete com essas atividades, num país de tantos analfabetos?

Acho que enfrentei esses dilemas de formas bastante diferentes em dois momentos de minha vida também bastante diferentes. Digamos que o primeiro momento foi o da juventude em plena paixão dos anos 60. Aí eu tinha a certeza de que o sonho e ação vitalista seriam capazes de salvar o país. Essa a missão do intelectual responsável e consciente. O segundo, pós-sonho e pós-voluntarismo, já me deu a noção dos limites de minha atuação e, digamos, do “poder da imaginação” e me levou ao trabalho mais minimalista com as mulheres, com as demandas de caráter mais segmentados, com a reflexão sobre as contradições experimentadas diariamente na nossa própria condição de intelectual. Fiquei humilde, menos militante strito senso e talvez mais trabalhadora latu senso.

 2-Você fundou e dirigiu, durante anos, o Centro Interdisciplinar de Estudos Contemporâneos na UFRJ, muito antes de a interdisciplinaridade estar na moda, como agora. Como você vê os estudos interdisciplinares na Universidade brasileira, seus desafios, utilidade e futuro?

Estou respondendo a essa pergunta depois do 11 de setembro de 2001.

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Literatura Contemporânea

Atualizado em 18 de agosto | 5:52 PM

 1 – É possível fazer hoje uma cartografia da literatura contemporânea? Existem algumas especificidades estéticas capazes de definir essa produção? 

R: Com a entrada da internet na “vida da literatura”, das formas digitais de impressão e acabamento de livros mais baratas e ágeis e com o tsunami da periferia afirmando uma nova  dicção literária, não há como continuar trabalhando com o mapeamento çlássico que informa a historiografia literária.  Essas alterações emergentes são muito novas e desconcertantes do ponto de vista dos modelos canônicos vigentes para a literatura mas, não tem jeito, temos que enfrentá-los se não quizermos perdermos o bonde da História. 

2 – Se uma das características dos jovens poetas e ficcionistas atuais é terem nascido (ou sua literatura) na internet, especialmente com a publicação de seus escritos em blogs, você acha que ela redefine a literatura atual? 

R: Ela certamente não redefine a literatura atual mas expande o campo de atuação e criação do autor e disponibiliza para o escritor jovem (ou não tão jovem)   modos e lógicas diferenciadas de criação produção,  divulgação e comercialização dos produtos literários. 

3 – Você tem se dedicado à criação de um acervo documental sobre a produção  das minorias, os Arquivos de Cultura Contemporânea, um dos projetos do Programa Avançado de Literatura Contemporânea (PACC) que você coordena na UFRJ.

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