Entrevista para Zuenir Ventura

Atualizado em 19 de agosto | 6:01 PM

– Você , que foi ícone daqueles tempos, como ficou depois que a festa acabou?

HB: Eu não fui ícone nada. Você é que inventou isso, que criou esse personagem, que, aliás, adorei e vivo dele! Mas quem inventou foi você.

– Mas, enfim, como você ficou depois de 68?

HB: Fiquei com a herança. Acho que o que 68 deu pra gente foi uma alforria, uma energia_ não sei se o nome é utopia _ uma vontade quase obsessiva de que as coisas acontecessem e, sobretudo, mudassem. Não é difícil conferir como, em muitos,  casos essa energia ainda está ativa. Existe um teórico americano muito bom, o Fredric Jameson, que, como nós padece da orfandade das utopias dos anos 60, que procura identificar para onde foi essa superinflação de energias da nossa geração. Uma primeira coisa , que não é dele, mas que ´é muito interessante é que , pelo menos na academia, muitos inconformados com a perda daquele momento eufórico, que participaram na New Left Review, da nova esquerda, dos movimentos sociais que emergiram  pós 60, foram se abrigar numa disciplina nova, muito interessante nesse sentido de abrigo possível da academia de esquerda, que são os Estudos Culturais, especialmente em sua corrente saxônica.

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Viva Favela

Atualizado em 19 de agosto | 4:59 PM

Julho de 2007

 

1 – Qual a importância política da chamada Literatura Marginal?

R: É enorme. A nossa tradição literária ou, melhor, nossa “missão” como autores  literários,  como diz Antonio Cândido, sempre foi a de falar pelos “pobres” de mostrar um engajamento com a questão social. Existe até um livro importante do crítico Roberto Schwartz chamado O Pobre na Literatura Brasileira. Portanto como tema, a periferia sempre foi um eixo literário importante. Mas agora, pela primeira vez, desde de Carolina Maria de Jesus, temos realmente uma literatura feita pelos sujeitos dessa periferia, com uma grande força literária e com forte impacto político.

 

2 – Desde o lançamento de Cidade de Deus, como você acha que os círculos literários estão reagindo ao movimento?

R: Os círculos literários são vários na realidade. O da academia e Universidades reagem um pouco, discutindo seu valor literário propriamente dito. Mas também esse aspecto reativo da Universidade a qualquer manifestação nova ou não “classificada” sempre acontece. Com honrosas exceções, como a de Roberto Schwartz, o grande incentivador e responsável pela publicação de Cidade de Deus. O círculo dos críticos aceitaram razoavelmente bem e o círculo dos editores está ainda meio temeroso. Paulo Lins, por ter sido um best seller, conquistou seu lugar no mercado.

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Sobre Wally Salomão

Atualizado em 19 de agosto | 4:56 PM

1. Em 1972, “Me Segura…” foi recebido como o grande texto pós-tropicalista e rapidamente esgotou-se. Depois de 32 anos, que herança se resgata com a republicação do livro, além é claro, da homenagem a Wally Salomão?

Heloisa Buarque de Hollanda. A herança de um momento de grande importância na nossa formação cultural recente. Me segura, na área da poesia, foi pioneiro em oferecer um modelo de negociação entre o muito local, ou a cidade bahiana de Jequié, sempre muito referida por Waly e o momento contracultural efervescente da Nova York dos anos 70 e a filosofia européia, também cultivada com particular apreço por Waly.  E é importante que se perceba que esse modelo não é exatamente o mesmo da antropofagia modernista, que seria o de deglutir e digerir o estrangeiro, No caso da poesia de Waly não se trata de uma absorção antropofágica, trata-se de uma negociação bastante sutil ainda que anárquica e rebelde como pediam aquele tempos. Como o panorama internacional já dava sinais claros da emergência dos processos de transnacionalização do consumo cultural, essa forma de negociação seria, digamos, quase uma premonição dos possíveis comportamentos dos produtores culturais no quadro de um mercado globalizado. Um segundo ponto importante é o registro histórico de como a cultura jovem e transgressora daquele momento lidou com as pressões dos anos de chumbo.

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Revista RAIZ

Atualizado em 19 de agosto | 4:53 PM

12 de setembro de 2008

Coleção ‘TRAMAS URBANAS’ lança livro sobre movimento literário da periferia paulistana.

Por Thereza Dantas

 

Rap, hip-hop, a estética das artes urbanas, moda, os Coletivos e o Viva Favela foram os temas dos sete primeiros livros da série, que registra a cultura produzida na periferia. “Surge um fenômeno mais amplo, não restrito aos guetos, e que ressoa e estimula a cultura urbana de forma explosiva e irreversível”, diz a escritora, editora Heloisa Buarque de Hollanda, que idealizou a coleção Tramas Urbanas. Em 2007 foram lançados os livros Poesia revoltada, de Ecio Salles, Cidade ocupada, de Ericson Pires do Coletivo Hapax, Notícias da favela, da jornalista Cristiane Ramalho, Trajetória de um guerreiro, do DJ Raffa e Acorda Hip-hop!, DJ TR.

Em 2008, a editora continuou a lançar livros com temas muito atuais como Daspu, a moda sem vergonha, de Flavio Lenz, e História e memória de Vigário Geral, de Maria Paula Araújo e Écio Salles. Em setembro, dia 12 e 19 respectivamente serão lançados Cooperifa, antropofagia periférica, de Sérgio Vaz, e Favela tomam conta, de Alessandro Buzzo, um dos blogueiros da RAIZ. A safra de 2008 fecha com o título Tecnobrega: o Pará reinventando o negócio da música, de Ronaldo Lemos e OOna Castro. 

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Entrevista para Cintia Lima

Atualizado em 19 de agosto | 4:44 PM

 A poesia chamada marginal é poesia para quem a aceita como poesia, mas, por sua própria definição, situa-se à margem e, por isso mesmo, fora da literatura. Na realidade, é essa a visão de literatura marginal de alguns teóricos, mas o que gostaríamos que você explicasse se sua visão sobre o assunto diverge ou simplesmente consolida essa definição.

R: Não entendo a literatura marginal como “fora da literatura” e sim como uma produção literária “fora do sistema editorial” aqui entendido como o circuito tradicional de distribuição e comercialização do mercado livreiro, o que, na realidade, é o projeto explícito do grupo.  A dicção, na época, definida pelos próprios marginais como “anti-literária” refere-se não à literatura em geral ( vários, inclusive , referem-se à suas filiações modernistas, especialmente identificados com Manuel Bandeira e , em segundo lugar, com Carlos Drummond)

Para muitos, a década de 70 foi considerada a década do “vazio cultural”, alucinações: para outros, anos de revisões e ampliações. Gostaríamos de saber a sua percepção desses famosos anos 70 e uma definição sua para essa expressão “vazio cultural”.

Quando Zuenir Ventura batizou os primeiros anos da década de 1970 como vazio cultural, com muita propriedade, ele referia-se ao esvaziamento dos quadros de professores nas universidades, de intelectuais e artistas ativos no período pré-68, todos em exílio compulsório, voluntário ou presos.

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