Diário de Pernambuco

Atualizado em 18 de agosto | 5:02 PM

29 de dez. 2006

1) Quais as conexões entre a contracultura dos anos 60/70 e a cultura digital desse início de milênio?

Heloisa Buarque. Assim de imediato , não vejo uma semelhança definida. Vejo sim pequenos pontos de encontro como a ênfase na idéia de comunidade, a relação mais instantânea e menos formal, o prazer no trabalho coletivo, e o improviso como modelo criativo.

2) Uma certa crítica de inspiração frankfurtiana (Robert Kurz e o pessoal do grupo Krisis) afirma que o debate em torno do software livre concentra suas atenções na esfera da circulação e “esquece” a esfera da produção, onde a mercadoria continua a reinar. O que você acha desse ponto de vista?

Heloisa Buarque. Não concordo não. O software livre está possibilitando inúmeras experiências de criação compartilhada e de difusão intensa dos canais produtivos e criativos por grupos e comunidades que sem este tipo de software flexível, praticamente gratuito e com assistência técnica on line, não poderiam ter acesso ao mundo digital.

3) Setores da esquerda fizeram sérias críticas à atuação da grande mídia na recente eleição presidencial. “Tendenciosa” e “preconceituosa” foram alguns dos adjetivos mais amenos. A internet – no caso brasileiro – teria se configurado no espaço público privilegiado para o debate político e cultural?

Continue lendo »

Blooks

Atualizado em 18 de agosto | 4:52 PM

1. Nesta exposição você cria um conceito que parte da junção do conceito de Blog com Book (livro) = Blooks. Poderia explicar como chegou a esta nova forma de produção e difusão da informação e leitura?

 

Eu não criei esse conceito. Ele é até relativamente antigo , apenas me apropriei porque achei uma noção instigante. Ou seja a pergunta tradicional “a internet matou o livro?” se mostra desatualizada. O que existe é uma enorme produção literária na rede  que usa o recurso interativo do blog e o ambiente descentralizado da internet para desenvolver a criação literária. Do blog ao book é um pulo.

 

2. Temos os mais diversos tipos de blogs, tratando dos mais diferentes assuntos. Todavia, um traço marcante em muitos deles é a dissolução entre os limites da vida privada e pública. Como os antigos diários que escrevíamos sobre os fatos que marcavam nossa vida, agora perdem a questão da privacidade e entram no domínio da esfera pública. Podemos considerá-los como uma nova forma de crônica da vida cotidiana?

 

Podemos. O que parece mais flagrante é a necessidade do criador e do produtor de cultura de pertencer a comunidades de troca e de compartilhamento de saberes e  textos, ambiente que a vida literária não facilita em função de seu mercado reduzido especialmente aquele da poesia. 

Continue lendo »

Revista Cultura e Pensamento 2007

Atualizado em 18 de agosto | 4:17 PM

P – Como surgiu a idéia da exposição “Blooks”?

 

A idéia do Blooks veio de uma certa  desconfiança e mesmo intolerância da critica literária com a produção e com a linguagem desenvolvida na internet.  Eu acredito sempre que as novas formas  culturais estão  fermentando e sendo gestadas nas margens do mercado cultural  tradicional. Por isso fiz minha tese sobre a poesia marginal dos anos 70, depois me apliquei na produção cultural da mulheres e dos negros  e mais recentemente das perspectivas  que apontam tanto  no território das novas tecnologias quando nas vozes ácidas e cheias de marra que estão chegando com força total vindas das periferias. Fui então ver com mais cuidado e sem pressupostos formados a literatura da web. Surpresa total. O grau de criatividade, possibilidades abertas para a experimentação da linguagem, a vizinhança com outras mídias que se cruzam e, principalmente, se contaminam de fora recorrente na www abre um espaço de criação novo para a literatura que esta nunca conheceu antes. Acho incrível certas reações contrárias que vêem esses fenômenos como  desaprendizado, como corrupção da língua , da norma  culta. Pode ser até que os blogs mais pessoais tenham inventado seu dialeto próprio o  que é absolutamente normal em qualquer comunidade jovem.

Continue lendo »