A imaginação feminina no poder

Atualizado em 6 de outubro | 12:43 PM

Artigo publicado originalmente no Jornal do Brasil, em 11.04.1981.

 

Trajando knickers amarelo, sandálias chinesas, cabelo punk, com diploma M. A em tradução literária from Essex, e um livro editado em Londres, acaba de retornar ao Brasil Ana Cristina Cesar. Pelo desempenho e visual não deixa margem à dúvida: trata-se do que se convencionou chamar de uma mulher moderna, independente e bem-sucedida. No livro, um título que desconcerta essa imagem: Luvas de Pelica. O desconcerto aumenta quando se observa o layout da capa, que traz um manequim em primeiro plano, oferecendo pó de arroz e perfumes numa vitrina de moda em semitons rosa shocking. Um diário de alcova? Rabiscos e sonhos de uma moça bem-comportada?

A mulher 80, até onde sei, deve ser consciente, liberada, batalhadora, atenta aos temas da realidade social e econômica, da profissionalização, de seus direitos e desejos — enfim, daquele universo interditado a quem fica confinado nos limites da família e/ou dos cosméticos.

Na década passada, a literatura produzida por mulheres trazia bem essa marca. Sublinhava-se a procura de um outro mundo e de um outro discurso para além daqueles que a empobrecida e frágil imaginação feminina poderia vislumbrar. Alguns setores mais jovens empenhados acentuavam a recusa ao que seriam os estereótipos da “sensibilidade feminina” e trabalhavam uma prosa e uma poesia de linguagem livre, num certo sentido até mesmo agressiva, no uso do palavrão e na transcrição da realidade nua e crua, propriedade até então do mundo dos homens.

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Um problema quase pessoal

Atualizado em 14 de setembro | 8:09 PM

No campo da análise do discurso, o que estaria sendo evitado pelos estudos feministas no Brasil?

O debate sobre a condição feminina, expresso nas obras literárias e na imprensa, conhece um pique na segunda metade do século XIX até os anos 20, quando emerge o movimento modernista nas artes e nas ciências sociais. A questão da mulher sai então do circuito da literatura e passa para as mãos da sociologia, da antropologia e, muito recentemente, para as da história e da psicologia.

Voltando de forma brevíssima ao século XIX, a partir dos anos 50, começa o processo urgente e inadiável de definir os contornos da nação brasileira. Os caminhos percorridos pelos discursos que imaginaram a nação trouxeram, sistematicamente, a metáfora da “maternidade republicana”, como figura fundamental, ou seja, a hiper-valorização do papel da mulher como “civilizadora” e responsável pela idéia de uma nação moderna, educada e homogênea.[1]  No caso brasileiro, evidenciam-se alguns traços peculiares.  Nos discursos de construção nacional, já é conhecido com quanto desconforto a importação das ideologias liberais conviviam  com a vigência do regime escravocrata. Por outro lado, as idéias de uma homogeneização racial, supostamente necessária para a definição de uma identidade nacional e moderna, passavam também por complicadores evidentes. 

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Tantos anos

Atualizado em 14 de setembro | 8:08 PM

Numa palestra recente em Montevidéu, Andreas Huyssen foi, como de costume, absolutamente didático. A figura de Huyssen nestes últimos anos vem crescendo no cenário acadêmico internacional, sem grandes saltos, mas de maneira segura e contínua. Pós-frankfurtiano convicto, Huyssen herdou de seus mestres o compromisso radical com sua época. Até agora, seus ensaios mais conhecidos tem sido uma espécie de cartografia do pensamento contemporâneo diante do advento da cultura do capitalismo tardio ou, como ele próprio prefere, da cultura pós-moderna. Mas, de algum tempo para cá, sua produção teórica parece ter afinal encontrado seu objeto “a”.  Uma reflexão que veio se fazendo através do estudo de uma nova experiência de museu, mais ligado ao consumo e ao lazer do que à preservação das tradições nacionais, que passa pela análise da irresistível “sedução da monumentalidade” (sic) evidenciada pela arquitetura e pela produção artística recentes, até que, agregando e refinando estas questões, aportou no tema atual de seu trabalho sobre a pós-modernidade: o advento de uma relação radicalmente nova com o passado. Ou melhor, a experiência da recodificação do passado como presente, que estaria começando a superar o modelo teleológico de um futuro-presente, eixo da temporalidade modernista.

Para simplificar a questão que Huyssen desenvolve com seu obstinado e complexo estilo de argumentação, vou direto à sua referência à noção de musealização do espaço contemporâneo proposta por Hermann Lubbe.

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Pós-Feminismo

Atualizado em 14 de setembro | 8:07 PM

Em tempos de globalização, descentralização dos fluxos da economia da informação e, sobretudo, de prevalência das lógicas do consumo,  entra em cena uma variável que atinge de forma irreversível os modelos teóricos dos estudos cujo eixo são as noções de “diferença”.

De fato, a sociedade do consumo, entre outras alterações profundas nos paradigmas modernos, nos apresenta uma novidade inesperada: ao invés dos processos de massificação e homogeneização, característicos do modo de produção capitalista, surgem agora as estratégias da diversificação como a bandeira por excelência da nova lógica das sociedades de consumo. Como potencializar então, neste novo panorama, as políticas da diferença?

Nesse quadro, uma entre as várias questões que se colocam para os estudos e para as práticas políticas feministas é a pergunta sobre como as novas gerações estão experimentando e lidando com as conquistas feministas do velho século XX, também conhecido como o século das mulheres?

Do ponto de vista rigorosamente pessoal, me inquieta de forma insistente a pergunta: valeu a pena a luta feminista à qual minha geração dedicou-se com tanto empenho?

Na realidade, a trajetória das lutas em torno das discriminações da “diferença” não foi sempre a mesma. Apenas como lembrete, é importante registrar a variedade de táticas e contra-ataques das políticas feministas nesse passado recentíssimo.

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Perspectivas para a criação de uma rede

Atualizado em 14 de setembro | 8:06 PM

A questão da criação de uma rede entre núcleos de estudo sobre a mulher envolve duas questões historica e teoricamente importantes no quadro da trajetória do pensamento feminista  as quais, ainda que não eu não me sinta capaz de desenvolvê-las agora, achei que deveria, pelo menos, levantá-as. São elas, a tradição da estratégia da formação de redes na história da praxis feminina e a questão polêmica da institucionalização do pensamento e das teorias feministas. Não vou analisá-las aqui, mas apenas observar o sentido que estas questões tem e tiveram no debate teórico feminista.

Em primeiro lugar a idéia de rede. É comovente que estejamos aqui, na USP, em 1991, retomando a preocupação absolutamente central das primeiríssimas atividades e estratégias das mulheres, feministas ou não. Recentemente fiz uma avaliação da minha área de estudos – letras – e, procurando, na prática literária feminina, os antecendentes da reflexão feminista sobre literatura, ou seja, a formação deste saber, me deparei com a evidência de que mais estrutural do que um possível interesse pela literatura,foi o interesse pela sobrevivência, circulação, disseminação e registro do pensamento e da atividade literária feminina. E esse é exatamente o nosso tema de hoje.

O exame da imprensa feminina do sec.

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