A questão agora é outra

Atualizado em 10 de maio | 12:13 AM

Ferrez está na guerra há um bom tempo. Acredito que ele vem atuando desde quando o hip hop começa a ganhar essa voz rouca e forte que está ecoando na marra e com garra na cena cultural brasileira.

Nessa época, também surgia, de forma mais explicita, o interesse das classes medias pela intensificação da violência e dos confrontos policiais que se multiplicavam nas periferias urbanas. Alguns emblemáticos como, no Rio, o massacre da Candelária, com o assassinato brutal de 8 crianças das 50 que dormiam nas escadarias da Igreja por policiais, logo seguido por outro massacre não menos traumático que foi o massacre de Vigário Geral responsável pela morte de 21 inocentes também pela polícia.

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O declínio do efeito “Cidade Partida”

Atualizado em 11 de setembro | 7:08 PM

Publicado originalmente na Revista Carioquice, n. 1, ano I, em abr/mai/jun de 2004.


“O funk carioca é a atitude de soltar o corpo ao escracho, reinventar o ridículo para transformá-lo em estilo, conforme um texto quase manifesto que defende a sua índole libertária”

Foi admirando o Paço Imperial, visto da perspectiva da Praça XV, que me veio à cabeça um dado precioso para a compreensão do perfil cultural do Rio de Janeiro. Se hoje, o Paço é um centro cultural ativo, contemporâneo e, sobretudo, múltiplo, houve um dia que, deixando de ser a Casa dos Governadores, foi transformado, às pressas, no Paço Real tornando-se o cenário de um fato tão anacrônico como significativo. Foi no Paço que se instalou, em estado de emergência, D. João VI, a família real e aproximadamente 18 mil pessoas entre empregados e membros da corte portuguesa. Ou seja: num momento em que as colônias portuguesas e espanholas exercitavam seu direito de rebelião e conflito contra o jugo dos colonizadores europeus, no Rio de Janeiro em plena Praça XV, oferecíamos abrigo à corte portuguesa que chegava às pressas, fugida, pedindo asilo a seus súditos, formatando na comunidade local estranhos sistemas de hierarquia e de articulação entre culturas, valores e poderes.

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Marginais, alternativos, independentes

Atualizado em 11 de setembro | 7:07 PM

Publicado originalmente no Caderno B, do Jornal do Brasil, em 19.09.1981.


Não sei bem se por coincidência ou provocação, a literatura emergente da última década vem insistindo, obstinadamente, em se nomear, num primeiro momento, como marginal e alternativa e, desde algum tempo, como independente. Ainda que se possa notar nessa mudança certos sintomas de reavaliação daquilo que seria o papel da poesia, a ênfase no eixo da autonomia de sua prática parece permanecer como ponto de honra no que diz respeito aos novos poetas 70/80.

Nas mais variadas circunstâncias, a definição das noções alternativa-marginal-independente vem carregada de sentido objetivo: o controle total da produção e a distribuição do trabalho de poesia, o que traria consigo, entre várias vantagens, como uma maior liberdade de criação, aquela de procurar redefinir o espaço e o alcance social da literatura. Entretanto, à revelia da evidente clareza do argumento, invariavelmente, mal se ouve a “colocação” dos novos poetas, instala-se uma incontrolável confusão: ” qual a poesia que não é independente?”; “Carlos Drummond de Andrade não seria o maior de nossos marginais?”; “Qual literatura que, em seu sentido profundo, não se revela alternativa?”. Nada de estranho na confusão, se levarmos em conta que, pelo menos desde Platão, o poeta é visto e sentido como excluído da República.

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Maldito.com

Atualizado em 11 de setembro | 7:06 PM

No século XX, eles deram o tom. Na pele de malditos, outsiders, alternativos ou marginais, mantiveram o nível do protesto e da insatisfação numa altura suficiente para que a arte moderna se sentisse confortavelmente crítica e desafinada do chamado coro dos contentes. Foram  dandies e flaneurs à la Baudelaire, foram  iconoclastas incediando museus e exibindo manifestos irascíveis, foram rebeldes sem causa nos anos dourados, foram yippies implodindo o “sistema” e hippies saltando fora do mesmo.

Na nossa história mais recente,  marcaram com fortes tintas o movimento tropicalista, a cultura alternativa dos anos 70 e, na década seguinte, encontraram sua expressão mais legítima no “rock com atitude” e no repertório raivoso do Rock Brasil.

Daí para frente, as perspectivas da maldição tornam-se mais e mais nebulosas. O quadro geral impresso pela lógica do consumo e dos fluxos globalizantes  leva a crer que os alternativos perderam o rumo ou, pelo menos, perderam de vista aqueles contra quem desafinar.

O primeiro desconcerto vem com a perda do valor crítico da “diferença”, maior bandeira e capital da cultura marginal. A difusão do consumo de massa traz como seqüela a visão da homogeneização como valor negativo e o desenvolvimento de estratégias de  diversificação em todos os níveis e sentidos da produção.

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Literatura Marginal

Atualizado em 11 de setembro | 7:05 PM

No quadro que estamos tratando aqui, ou seja, a cultura como exemplo de resistência e produção de novos sentidos políticos em países em desenvolvimento inseridos no contexto da globalização, a literatura também mostra algumas propostas e mudanças estruturais no sentido de sua criação e divulgação. Nestes casos, a própria noção de cultura, e por tabela a de literatura, é forçada a repensar seus parâmetros e até mesmo, – o que mais interessante -, sua função social.

É neste sentido que reafirmo que as características e as estratégias das expressões artísticas vindas das periferias vêm surpreendendo como a grande novidade deste início de século com o desejo de responder ao acirramento da intolerância racial e às taxas crescentes de desemprego provenientes dos quadros econômicos e culturais globalizados.

A literatura também não ficou imune a estes novos inputs. É da tradição da série literária brasileira, uma atenção significativa aos temas da miséria, da fome, das desigualdades sociais e, ultimamente, da violência urbana. E, como já mencionei anteriormente, é da nossa tradição cultural, o engajamento político e o compromisso social do intelectual, neste caso, do escritor. Nesse sentido, um detalhe interessante no conjunto de nossa produção literária é o fato de que, ao contrário de nossos irmãos latino-americanos, nunca tivemos o testemonio como gênero literário.

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