Os estudos de gênero e a mágica da globalização

Atualizado em 14 de setembro | 8:01 PM

Falar sobre os estudos de gênero ou sobre qualquer assunto relacionado com a  utopia do dissenso, da convivência das diferenças ou da esperança no advento de uma democracia radical para lembrar, com certa saudade, a proposta de Laclau (cf. LACLAU: 1992, 127) pode soar, nestes dias pós 11 de setembro,  como uma idéia desafinada ou, digamos,  “levemente alienada”.

Se, em 85,  vivíamos o sonho pós-moderno multiculturalista, hoje, ao contrário, pensar a diferença é enfrentar um tempo no qual  emergem, sem aviso prévio, novos e ferozes racismos, xenofobias radicais, intolerâncias violentas.

Para nós, acadêmicos, o momento é também tão complexo quanto desafiador. Portanto, pensar gênero nesse novo contexto é ainda um horizonte enigmático porque passa necessariamente pelos problemas que multiculturalismo  e a globalização acabam de nos colocar  e que, de certa forma nos fazem renegociar as certezas & prioridades das agendas téoricas feministas.

Neste quadro uma questão me preocupa particularmente: que lugar têm as culturas e demandas feministas locais frente à mágica da globalização?

Durante estas últimas décadas, os estudos sobre gênero, raça (etnias) e nações pós-coloniais já consolidaram um saber hoje amplamente reconhecido. Por outro lado, os modelos teóricos propostos por esta área de conhecimento também provaram-se bastante eficazes no trato com as diferenças e/ou alteridades, suas hierarquias, estratificações sociais (como classe, castas ou religião) e a especificidade destas diferenças de acordo com suas histórias e contextos locais.

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O estranho horizonte da crítica feminista no Brasil

Atualizado em 14 de setembro | 7:51 PM

Trabalho realizado para o Colóquio “Celebración y Lecturas: La Critica Literária en Latinoamerica”, Ibero-Amerikanisches Institut Preussischer Kulturbesitz, Berlin, 20-24 de novembro de 1991


As teorias críticas feministas estão experimentando um momento bastante interessante. Nos países de formação saxônica, especialmente nos USA, conseguiram uma certa legitimidade acadêmica e constituem-se como uma inegável tendência dentro do mercado editorial. Muitos centros de women’s studies se formaram dentro das Universidades, desde a segunda metade dos anos 70, e seu projeto é claramente intervencionista e político-acadêmico. Na França, já o quadro é relativamente diverso. Os estudos feministas, cuja facção mais representativa e internacionalmente reconhecida é ligada à psicanálise, recusam a filiação institucional dentro das Universidades e preferem formas de organização independentes ou, pelo menos, desvinculadas da produção de acadêmica oficial.

De um modo geral, a formação desta área de conhecimento está intimamente ligada aos movimentos políticos dos anos 60, mas vai ganhar estatuto acadêmico um pouco mais tarde, no contexto da consolidação das teorias pós-estruturalistas e desconstrutivistas, cuja desconfiança sistemática em relação aos discursos totalizantes passa a ter uma posição central no debate teórico conhecido como pós-modernista.

É neste terreno – coexistindo com formações disciplinares emergentes como o novo historicismo, a história das mentalidades e os estudos pós-coloniais – que se move, e ganha prestigio, a maior parte do pensamento critico feminista internacional desenvolvido a partir da segunda metade da década de 70.

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O bug do feminismo

Atualizado em 14 de setembro | 7:49 PM

Bug, literalmente, quer dizer inseto. Traz também uma forte conotação de coisa desagradável – como a barata – de onde vem o sentido metafórico que lhe é atribuído de algo pequeno mas incômodo, que embola ou que impede o funcionamento suave de uma atividade. Em inglês, sugere também  o sentido de gosto ou mania como em “he’s got the travel bug”. É ainda usado para referir germes como em “the flu bug”, expressão comum nos Estados Unidos para os vírus mutantes da gripe. Na área da informática, nomeia tanto os vírus de computador quanto defeitos de programação ou de software, daí a expressão “de-bugging” que significa limpar, restabelecer um programa. Recentemente, foi especificado como bug do milênio, ameaça de um acidente fatal na lógica do reconhecimento das datas na  rede das redes,  graças a Deus controlado a tempo.

Como estamos no final da estação dos balanços de virada de século, não quero deixar passar em branco o que poderia ser considerado como o bug do feminismo, movimento libertário que foi a grande revolução do século passado, também conhecido como o século das mulheres. Talvez por isso, ainda sob o efeito das comemorações, tenha acordado nesta manhã de janeiro do novo milênio com um astral saudosistamente militante.

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Novos tempos

Atualizado em 14 de setembro | 7:48 PM

Em tempos de globalização e prevalência das lógicas do consumo, entra em cena uma variável que atinge de forma irreversível os modelos teóricos dos estudos cujo eixo são as noções de “diferença”. No lugar dos processos de massificação e homogeneização, característicos do modo de produção capitalista moderno, surgem agora as estratégias da diversificação como a bandeira por excelência da nova lógica das sociedades de consumo. Como potencializar então, neste novo panorama, as políticas da diferença?

Nesse quadro,  uma entre as várias questões que se colocam para os estudos e para as práticas políticas feministas é a pergunta sobre como as novas gerações estão experimentando e lidando com as conquistas feministas do velho século XX, também conhecido como o século das mulheres?

Do ponto de vista rigorosamente pessoal, me inquieta de forma insistente a pergunta: valeu a pena a luta feminista à qual minha geração dedicou-se com tanto empenho?

Na realidade, a trajetória das lutas em torno das discriminações da “diferença” não foi sempre a mesma. Apenas como lembrete, é importante registrar a variedade de táticas e contra-ataques das políticas feministas nesse passado recentíssimo. Nos anos 60, diria, prestando o devido tributo à Gramsci, que o feminismo atuou no diapasão de uma “guerra de posição”.

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Notas sobre o feminismo

Atualizado em 14 de setembro | 7:47 PM

A pergunta se existe ou não uma linguagem feminina vem povoando o universo critica as artes e letras desde o início do século. Hoje, com total clareza pode-se perceber a falácia dessa questão de conteúdo tacitamente excludente. O que existe, isso sim são estratégias, manobras, femininas para lidar com uma realidade que lhe definiu uma posição de desigualdade histórica entre homens e mulheres. Não foi por acaso que durante todo o século XX, também conhecido como o Século das Mulheres, as mulheres lutaram nas mais diversas frentes para conseguir marcar sua posição na sociedade, na cultura, na política. Foi o pique revolucionário internacional dos anos 60, com o feminismo sinalizando a entrada definitiva das mulheres na arena política e cultural, marcando uma guerra de posição, de definição de territórios, de demandas  pelo fim das diferenças entre homens e mulheres. Anos 60-70 de muita paixão e da experiência das primeiras vitórias, dos primeiros resultados concretos. Em 1975, a ONU sensibilizada pelas novas forças feministas e reconhecendo formalmente a discriminação contra a mulher, decreta a década de 1975 a 1985 como a Década Internacional da Mulher. Para nossos países da América Latina, onde os movimentos de mulheres ainda se mostravam fragmentários e incipientes, a declaração da Década foi de importância decisiva.

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