Tendências da nova poesia brasileira

Atualizado em 10 de setembro | 7:05 PM

O estudo da nova poesia para mim tem muito de encanto, mas também algo de interesseiro. Explico melhor essa afirmação um tanto insólita.

Certamente, pela própria natureza quase mágica da poesia, são infinitas as formas de se definir e abordar o fenômeno complexo da produção poética. No meu caso, além de leitora aficionada, sou, na realidade, uma profissional e professora de crítica da cultura contemporânea o que me coloca numa posição de observadora um pouco diferenciada daquela dos críticos literários, dos professores de literatura ou dos próprios poetas que constituem o público mais fiel de livros de poesia.

E é nessa categoria que venho me dedicando ao exame da poesia jovem emergente em momentos identificados como de crise ou de colapso ou pelo menos, decréscimo, da liberdade e da qualidade da criação artística. Os dois momentos aos quais dediquei maior atenção neste sentido foram a poesia marginal – produzida nos anos 70 em plena vigência da ditadura militar – e a estética do rigor – como vem sendo caracterizada a poesia jovem produzida nos anos 90 sob a mais nova forma de ditadura, a ditadura exercida pela lógica do consumo e dos processos de globalização.

Sobre a poesia marginal que hoje, ironicamente, virou a poesia “oficial” dos anos 70, poderemos voltar a qualquer momento quando estivermos discutindo essa apresentação.

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Quem tem medo da tecnologia?

Atualizado em 10 de setembro | 7:04 PM

O tom apocalíptico diante do aparecimento de novas tecnologias tem sido, até agora, praticamente inevitável. Não seria muito diferente com a chegada definitiva da cultura digital e da comunicação virtual entre nós.

Provavelmente é por isso que a agenda atual da maioria absoluta de nossos encontros acadêmicos ou eventos culturais venha incluindo, de forma praticamente obrigatória, temas e questões sobre as possíveis conseqüências fatais do sucesso de edições on-line, do advento dos non-books ou publicações digitais, de novos hardwares como os e-books e do acelerado desenvolvimento do comércio eletrônico. Qual seria, nesse novíssimo quadro, o futuro da produção editorial impressa e do mercado livreiro presencial? E, sobretudo, quais as reais perspectivas do risco aí implicado: o fim da criação literária, do prazer da leitura linear tradicional, e, com eles, o dramático fim da cultura do livro.

Realmente, a agilidade da circulação dos produtos culturais hospedados na rede, ao lado de gêneros literários que começam a desafiar a “leitura sustentável” como no caso da hiperficção, são temas que oferecem uma pauta infinita para os críticos de cultura e os profissionais do livro.

Do ponto de vista prático ou apenas material, esse temor não parece justificar-se de imediato. Uma observação, mesmo apressada e superficial, do processo que liga a criação ao consumo literário, vai identificar o atual sistema de distribuição do livro como sendo a  caixa preta do mercado do livro.

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Professando as Letras: Identidades em construção

Atualizado em 10 de setembro | 7:02 PM

Em 1972, ou seja, há quase trinta anos atrás, Mikhail Bakhtin de certa forma previa, o que hoje é referido por muitos como a crise da área de Letras e que prefiro chamar de uma atual e saudável flexibilização teórica e metodológica nestes estudos.

Bakhtin referia-se à situação da pesquisa literária na União Soviética no início da década de 70, e lamentava duramente a falta de articulação entre os estudos literários e os problemas mais gerais da sociedade, denunciando a ausência de empenho, por parte dos pesquisadores, na identificação de novas áreas ou fenômenos significantes no campo praticamente ilimitado da produção literária.

Avaliando estes impasses, Bakhtin observa que a ênfase que, por longo tempo, vinha sendo dada à definição das especificidades da literatura, terminou por preterir as questões da interdependência das várias áreas da produção cultural. A ausência de articulações mais concretas entre a literatura e o contexto global da cultura de uma dada época, de certa forma estaria promovendo a marginalização da própria idéia de literatura.

Bakhtin chama ainda a atenção para a flutuação histórica das fronteiras das áreas da produção cultural e observa que sua vida mais intensa e produtiva sempre ocorre nas fronteiras de suas áreas individuais e não nos espaços onde estas áreas tornam-se encerradas em sua própria especificidade.[1]

Na década de 80, a área de Letras começa a responder com mais nitidez às demandas das transformações sociais que vão marcar o final do século XX.

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Políticas culturais ao sul da web

Atualizado em 10 de setembro | 7:01 PM

Com a colaboração de Cristina Câmara.

 

A presença da América Latina na internet hoje deve se vista mais como uma perspectiva otimista do que como uma realidade concreta. Mesmo assim, alguns dados podem surpreender. Estima-se, por exemplo, que o número de usuários da internet na América Latina aumenta 33% anualmente e que os 5.7 milhões de usuários em 1998 passarão à 24.3 milhões em 2003.[1] A evidência deste crescimento acelerado aliada à expectativa de uma abertura até hoje impensável em relação ao amplo acesso à informação e à novos canais de comunicação e intercâmbios científicos, políticos, culturais e comerciais, coloca em pauta novas e urgentes questões para as regiões e segmentos culturais ao sul do cyberspace.

Apesar de ser difícil afirmar qual a população mundial de usuários da internet e quem são estes usuários, há alguns indícios quantitativos e qualitativos trazidos pelas pesquisas que vêm sendo realizadas na rede ou sobre ela e que estão disponíveis on line. Estima-se em 171.25 milhões o total mundial de usuários da internet. Destes, 97.03 milhões encontram-se nos Estados Unidos e no Canadá. A Europa concentra 40.09 milhões de usuários, a Asia/Pacífico 26.97 milhões, a América Latina 5.29 milhões e a África 1.14 milhões de usuários.[2]

Evidentemente, devemos estar atentos ao excessivo otimismo e aos interesses comerciais em jogo, como assinala Delarbre (1998), [3] mas é interessante observar, os índices apontados pelas pesquisas e o expressivo crescimento da presença latinoamericana na internet nos últimos anos, especialmente no Brasil.

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Passeata dos Carapintadas mostra a que veio às novas gerações

Atualizado em 10 de setembro | 6:58 PM

JB, 15 de agosto de 1992, manchete da página 5, primeiro caderno: “Manifestantes Dão um Show de Cidadania”. Veterana, pertencente à geração que hoje comemora – publicamente e com falsa naturalidade – os cinquenta anos, participante das manifestações estudantis dos anos rebeldes, acompanho com curiosidade o novo tom das passeatas. Há quase três décadas, vivi aquele momento de agitação política como uma das grandes descobertas que as mulheres experimentavam. A participação política da mulher, além de posição ideológica para aquelas que se ligaram ao movimento organizado e até à luta a armada, era o reflexo natural das profundas modificações que moldavam o comportamento feminino naqueles dias emancipadores.

Hoje, nos anos 90, assisto a um verdadeiro show de cidadania. Da Candelária à Cinelândia, uma multidão, cujo contingente jovem é impressionante, dramatiza _ com evidente estilo próprio _ o nevrálgico momento nacional pós-CPI. Camisetas eloquentes, fantasmas, ratazanas e uma ala de lavadeiras, lavam a roupa suja da casa da Dinda. O som do sufoco de 1968 está longe: “o povo unido jamais será vencido”. Mas ainda ecoa na teatralização da passeata do último dia 15. Há um forte tom de citação no ar.  Vivemos, sem dúvida, a era da citação e do pastiche. 

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