Professando as Letras: Identidades em construção

Atualizado em 10 de setembro | 7:02 PM

Em 1972, ou seja, há quase trinta anos atrás, Mikhail Bakhtin de certa forma previa, o que hoje é referido por muitos como a crise da área de Letras e que prefiro chamar de uma atual e saudável flexibilização teórica e metodológica nestes estudos.

Bakhtin referia-se à situação da pesquisa literária na União Soviética no início da década de 70, e lamentava duramente a falta de articulação entre os estudos literários e os problemas mais gerais da sociedade, denunciando a ausência de empenho, por parte dos pesquisadores, na identificação de novas áreas ou fenômenos significantes no campo praticamente ilimitado da produção literária.

Avaliando estes impasses, Bakhtin observa que a ênfase que, por longo tempo, vinha sendo dada à definição das especificidades da literatura, terminou por preterir as questões da interdependência das várias áreas da produção cultural. A ausência de articulações mais concretas entre a literatura e o contexto global da cultura de uma dada época, de certa forma estaria promovendo a marginalização da própria idéia de literatura.

Bakhtin chama ainda a atenção para a flutuação histórica das fronteiras das áreas da produção cultural e observa que sua vida mais intensa e produtiva sempre ocorre nas fronteiras de suas áreas individuais e não nos espaços onde estas áreas tornam-se encerradas em sua própria especificidade.[1]

Na década de 80, a área de Letras começa a responder com mais nitidez às demandas das transformações sociais que vão marcar o final do século XX.

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Políticas culturais ao sul da web

Atualizado em 10 de setembro | 7:01 PM

Com a colaboração de Cristina Câmara.

 

A presença da América Latina na internet hoje deve se vista mais como uma perspectiva otimista do que como uma realidade concreta. Mesmo assim, alguns dados podem surpreender. Estima-se, por exemplo, que o número de usuários da internet na América Latina aumenta 33% anualmente e que os 5.7 milhões de usuários em 1998 passarão à 24.3 milhões em 2003.[1] A evidência deste crescimento acelerado aliada à expectativa de uma abertura até hoje impensável em relação ao amplo acesso à informação e à novos canais de comunicação e intercâmbios científicos, políticos, culturais e comerciais, coloca em pauta novas e urgentes questões para as regiões e segmentos culturais ao sul do cyberspace.

Apesar de ser difícil afirmar qual a população mundial de usuários da internet e quem são estes usuários, há alguns indícios quantitativos e qualitativos trazidos pelas pesquisas que vêm sendo realizadas na rede ou sobre ela e que estão disponíveis on line. Estima-se em 171.25 milhões o total mundial de usuários da internet. Destes, 97.03 milhões encontram-se nos Estados Unidos e no Canadá. A Europa concentra 40.09 milhões de usuários, a Asia/Pacífico 26.97 milhões, a América Latina 5.29 milhões e a África 1.14 milhões de usuários.[2]

Evidentemente, devemos estar atentos ao excessivo otimismo e aos interesses comerciais em jogo, como assinala Delarbre (1998), [3] mas é interessante observar, os índices apontados pelas pesquisas e o expressivo crescimento da presença latinoamericana na internet nos últimos anos, especialmente no Brasil.

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O declínio da autoria na web & nas artes

Atualizado em 10 de setembro | 6:51 PM

Curiosamente, o tema a teatralidade do humano – ainda que, no mais das vezes, refira-se à práticas artísticas e comportamentais que atravessam a História, encontra um terreno fértil nas práticas artísticas e comunitárias  da web.

Aqui, ela vem em diálogo direto e intenso com as novas práticas identitárias e autorais no ambiente www e seu reflexo na criação off line.

Não fosse assim, a cultura do século XXI não seria tão profundamente marcada pela abertura de um  debate radical acerca da questão da autoria.

Voltando um pouco no tempo, é interessante lembrar que o surgimento da noção de autoria, tal como a experimentamos hoje, vem mais ou menos sincronizada com o ascenso do individualismo e da economia de mercado  pós Revolução Francesa. É nesse momento que surgem as primeiras leis reguladoras da propriedade intelectual como a inglesa copyright e a francesa droit d’auteur. Ainda que com pequenas distinções, ambas geraram um debate forte que já naquela época reforçava os dois eixos do problema: o direito do indivíduo  x o interesse público. O direito do autor, bem como seu corolário a importância da autoria, é, portanto, um direito relativamente novo, que surge gerando polêmicas e cujo DNA sinaliza conflitos de base.

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Estudos Culturais na web – uma crônica tecno-sentimental

Atualizado em 10 de setembro | 6:38 PM

Se há alguma coisa da qual me orgulho é de ter merecido a confiança da Professora Yone Chastinet para coordenar o projeto piloto em repositórios de informação especializada do Projeto Prossiga, um projeto de ponta do CNPQ, cheio de novidades e que nascia obstinadamente comprometido com uma causa nobre: viabilizar e agilizar a comunicação entre produtores científicos nacional e transnacionalmente e assim fomentar a atualização e o desenvolvimento da pesquisa no Brasil.

Para falar a verdade eu não sabia o que era um repositório de informação especializada. Mas sabia que eu queria fazer de qualquer maneira esse projeto e intuía que o próprio conceito de repositório ainda não estava de todo definido o que era para mim fascinante na medida em que eu seria cobaia, mas também parceira numa aventura acadêmica novíssima para mim que, de certa forma, já estava me arriscando no trabalho teórico e de pesquisa com uma área de saber emergente e também ainda não totalmente definida institucionalmente que são os Estudos Culturais…

Não vou falar agora sobre Estudos Culturais porque seria muito longo, um “assunto em si” e, sobretudo porque não é o ponto que me interessa trazer para este seminário.  Mas creio que devo pelo menos dar alguma informação sobre o campo de saber que nossa BV pretende cobrir.

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A academia ao sul do cyberspace

Atualizado em 25 de agosto | 5:29 PM

Trabalho apresentado no seminário Políticas Culturales en el Fin de Siglo,  realizado pela Rockefeller Foundation – Universidad de la Republica – CEIL e organizado pelo Prof. Hugo Achugar, em Montevidéu, Uruguai, entre 05 e 09 de agosto de 1999.


Para falar das questões que se colocam para os intelectuais “periféricos”  que navegam na internet,  vou contar a minha experiência pessoal, a história de uma intelectual minoritária em todos os sentidos, tentando achar meu equilíbrio  nas ondas, muitas vezes agitadas, da web.

Esta história começa no México, mais precisamente, num seminário também ligado a este Programa da Fundação Rockefeller e organizado pelo Néstor Garcia Canclini e pelo George Yúdice no final da década de 90 na UNAM. A cena era a de um encontro preparatório para a criação da Interamerican Cultural Studies Network, a IACSN. Ao mesmo tempo, em se tratando de um rede específica de Estudos Culturais, propunha-se um diagnóstico do estado da arte ou melhor, uma possível definição da prática, na América Latina, desta polêmica nova disciplina (ou quase-disciplina), que, naquela época, ainda era vista como um fenômeno suspeito no panorama das formações disciplinares emergentes.

Tínhamos então na agenda daquele encontro, pelo menos dois compromissos explícitos – o primeiro, definir a área de Estudos Culturais e suas variáveis na América Latina e o segundo, estabelecer os parâmetros para uma colaboração intercontinental, através da criação de uma rede eletrônica de produção e divulgação de conhecimento no campo da cultura e de suas políticas.

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