Sobre livros, leituras, palavras & afins

Atualizado em 11 de dezembro | 8:48 AM

Vou me permitir responder ao convite da Superintendência da Leitura e do Conhecimento do Rio de Janeiro, para produzir um texto sobre bibliotecas, não como uma profissional do livro, mas como uma pessoa que no momento está apostando alto no livro, ou melhor, na palavra, como instrumento estratégico de transformação em vários níveis e perspectivas. Neste sentido, vejo hoje, no meu campo de trabalho que é o das microtendências culturais, uma agitação bastante focada na potencialidade da palavra como um recurso precioso para a experiência estética, mas também, o que é novidade,  social e econômica. Talvez por isso eu tenha ficado tão atraída pela declaração de Umberto Eco no final do século passado. Dizia ele em um seminário chamado o Futuro do Livro: Se o século XX foi o século da imagem, o Século XXI será o século da palavra. E todos os sinais indicam que o mestre estava certo.

Vou aqui, na realidade, oferecer um breve roteiro dos diversos panoramas de usos da palavra que estão me mobilizando nesse momento. Segue o roteiro com sete paradas:

1. Questão de tempo. Eu sou de uma época em que o livro – a biblioteca, a leitura – era um fato e um feito para poucos.

Continue lendo »

Vida literária na web

Atualizado em 11 de setembro | 7:11 PM

Há algo de anacrônico no temor de que a chegada da Internet venha golpear ou mesmo substituir o livro e, seu efeito colateral, o prazer da leitura linear tradicional. Anacrônico, mas parece que inevitável. Olhando para trás, esse script é velho e se reapresenta por ocasião do anúncio de toda e qualquer inovação tecnológica. Como não usamos jurisprudência nesses casos e experimentamos o susto e sua intensidade como se fosse pela primeira vez, essa obstinada recorrência merece ser considerada não como um problema real, mas como um saudável e provavelmente necessário rito de passagem. Talvez seja por isso mesmo que, hoje em dia, não haja seminário ou encontro que se preze no qual o tema não volte com um desconcertante frescor.

Na realidade, nestes debates, o sabor de déjà vu torna um pouco entediantes tanto os argumentos dos tecnofóbicos quanto aqueles dos tecnoaficcionados.  Mas deixando fetichismos à parte, a circulação intensa da cultura hospedada na rede, o advento das edições on-line, dos non-books ou publicações digitais, de novos hardwares como os e-books e o sucesso irreversível do comércio eletrônico, ao lado de gêneros literários que começam a desafiar a “leitura sustentável”  como no caso da novíssima hiperficção, são temas que oferecem uma pauta infinita para a reflexão dos críticos de cultura e dos profissionais do livro.

Continue lendo »

Coletivos

Atualizado em 10 de setembro | 7:09 PM

No quadro da intensificação da produção cultural de caráter urbano no final do século XX, um segmento que vem surpreendendo é o da atuação dos coletivos de artistas plásticos em formas diversas daquelas utilizadas pelo graffite, a expressão visual, digamos oficial, da cultura hip hop.

Os coletivos começam a surgir no final dos anos 90 e realizam um  trabalho  de intervenção no espaço urbano.

Rapidamente essas intervenções, também imbuídas do lead “o importante é agir”, começam a assumir função política de denúncia social, agora em vias e praças públicas. Simultaneamente, esses trabalhos discutem a própria estrutura da produção nos moldes do circuito e do mercado de  arte.

Os coletivos, que se propagam em proporção geométrica pelo Brasil, trazem um plus de novidade. Os coletivos não se configuram por seus integrantes e sim por determinadas ações, agindo sempre num contexto de intervenção pública. Os coletivos também não são cooperativas, não são grupos, não têm número de participantes determinado, nem podem ser caracterizados como movimentos artísticos. Sua forma de organização é independente e, para cada ação ou conjunto de ações, os coletivos buscam patrocínio, oferecendo cursos, vendendo trabalhos ou realizando serviços como ilustração, design, vídeo etc. Esta auto-gestão elimina, portanto a figura do curador, personagem cujo poder seletivo e decisório cresceram muito nos últimos 20 anos, adquirindo uma função de autoridade centralizadora no sistema das artes.

Continue lendo »

Autoria: uma morte anunciada

Atualizado em 10 de setembro | 7:07 PM

No campo da cultura hoje, acho que só tenho uma convicção: o que vai marcar a cultura deste século XXI vão ser as transformações nos paradigmas de autoria e propriedade intelectual e seus efeitos nas áreas da produção cultural e artística.

Essa é a pesquisa que estou iniciando e que, portanto, ainda está muito incipiente e hesitante. Mas assim mesmo vou tentar passar aqui minhas primeiras anotações sobre o tema e uns exemplos que estão apontando num ainda relativamente pequeno número de manifestações artísticas, quase sempre fora do mercado cultural.

Para me situar melhor, comecei minha pesquisa por uma revisão da história de quando e como o autor e a formalização de sua proteção jurídica surgiram como valor artístico ou patrimonial.

Uma primeira observação nesse sentido que ainda não tive tempo de analisar é a de que a figura do autor e a discussão de seus direitos patrimoniais não surgem no mesmo momento histórico. Surpreendentemente, a questão dos direitos antecede, em muito, o surgimento da noção de autoria nas letras e nas artes.

Começo essas observações no sentido contrário, ou seja, pelo aparecimento da figura do autor, acompanhando um estudo de Foucault, O que é um autor? [1], escrito em 1969, portanto no calor do debate sobre a morte do autor.

Continue lendo »

Quem tem medo da tecnologia?

Atualizado em 10 de setembro | 7:04 PM

O tom apocalíptico diante do aparecimento de novas tecnologias tem sido, até agora, praticamente inevitável. Não seria muito diferente com a chegada definitiva da cultura digital e da comunicação virtual entre nós.

Provavelmente é por isso que a agenda atual da maioria absoluta de nossos encontros acadêmicos ou eventos culturais venha incluindo, de forma praticamente obrigatória, temas e questões sobre as possíveis conseqüências fatais do sucesso de edições on-line, do advento dos non-books ou publicações digitais, de novos hardwares como os e-books e do acelerado desenvolvimento do comércio eletrônico. Qual seria, nesse novíssimo quadro, o futuro da produção editorial impressa e do mercado livreiro presencial? E, sobretudo, quais as reais perspectivas do risco aí implicado: o fim da criação literária, do prazer da leitura linear tradicional, e, com eles, o dramático fim da cultura do livro.

Realmente, a agilidade da circulação dos produtos culturais hospedados na rede, ao lado de gêneros literários que começam a desafiar a “leitura sustentável” como no caso da hiperficção, são temas que oferecem uma pauta infinita para os críticos de cultura e os profissionais do livro.

Do ponto de vista prático ou apenas material, esse temor não parece justificar-se de imediato. Uma observação, mesmo apressada e superficial, do processo que liga a criação ao consumo literário, vai identificar o atual sistema de distribuição do livro como sendo a  caixa preta do mercado do livro.

Continue lendo »