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As antologias de Heloisa Buarque

Atualizado em 9 de dezembro | 7:51 AM

Publicado originalmente por Ramon Mello no SaraivaConteúdo, em 07.12.2009.

Heloisa Buarque de Hollanda tem mais de 45 anos de magistério, onde construiu uma carreira singular. Agora, ela lança o livro Escolhas: uma autobiografia intelectual pelas editoras Língua Geral e Carpe Diem, onde é possível conhecer seu percurso que acompanha nomes e fatos importantes do pensamento e da arte do século XX. A obra se destaca também pelo seu hibridismo, mistura de ensaio e autobiografia, apego à tradição e ao futuro. 

> Assista à entrevista exclusiva de Heloisa Buarque de Hollanda ao SaraivaConteúdo

Leia  a seguir um trecho da introdução de Ramon Mello, que organizou o livro, além de outro trecho de Escolhas, onde Heloisa comenta sobre as antologias que organizou.

HELÔ 7.0

Por Ramon Mello

“O que leva uma renomada professora de setenta anos, com mais de quarenta e cinco anos de magistério, entregar a organização de sua biografia a um jovem poeta?”, foi o que me perguntei ao longo da organização deste livro. E ainda busco a resposta.

Através da poeta Maria Rezende e do cineasta Murilo Salles, tive o privilégio de conhecer a professora Heloisa Buarque de Hollanda, num debate sobre o universo dos blogs, o Blografias. A ocasião não poderia ser mais adequada, já que se trata de uma intelectual inquieta, curiosa com a produção contemporânea.

A certeza do nosso encontro (e não de um esbarrão) fez com que a confiança mútua resultasse numa profícua troca de idéias. Logo trabalhamos juntos. Primeiro no Portal Literal e depois na realização de ENTER — antologia digital. Com um misto de medo e admiração, tive a ousadia de propor a Heloisa Buarque a publicação de uma biografia intelectual no ano de comemoração de seus setenta anos. Sem hesitação, Helô aceitou.

Por sugestão do escritor Bernardo Carneiro Horta, biógrafo de Nise da Silveira, apresentei a idéia ao editor da Língua Geral, Eduardo Coelho, responsável pela estruturação do projeto. Escolhas — título criado por Heloisa — é um livro-memória sobre a trajetória da mais “antenada” intelectual brasileira. Uma “contemporânea da contemporaneidade”, como bem a definiu Luiz Ruffato.

A primeira parte do livro é composta pelo memorial apresentado por Heloisa Buarque ao departamento de Teoria da Comunicação da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro para o concurso de provimento do cargo de professor titular no setor Teoria Crítica da Cultura, em 1993. Através de uma narrativa biográfica, Heloisa passeia por fragmentos de memórias para estruturar formalmente seu trajeto intelectual. Episódios de infância, a relação com os livros, as aulas, tudo é esmiuçado com rigor e afeto.

E a segunda parte é um texto atual de Heloisa, escrito a partir de mais de oito horas de entrevistas realizadas em seu apartamento no Leblon, zona Sul do Rio de Janeiro. Os encontros foram aulas sobre cultura brasileira — a cada dia uma descoberta, fragmentos da memória aos poucos se transformavam numa emocionante história. Um inesquecível aprendizado. Por fim, a conversa serviu apenas como guia do texto final que Heloisa escreveu para o segundo capítulo de sua biografia, revisitando pontos importantes do memorial e analisando os temas que estão despertando seu interesse, principalmente a internet e a periferia.

ANTOLOGIAS, SINTOMA, PREGUIÇA OU COMPULSÃO?

Por Heloisa Buarque de Hollanda

(…)

A poesia para mim tem múltiplas funções, entre elas, a função de I Ching. Quando tento compreender novas tendências ainda mal definidas, novos ethos emergentes, paro tudo e leio os poetas emergentes. É provável que o próprio desprestígio da poesia como valor de mercado permita que os poetas arrisquem mais, vejam mais longe. Sem nada a perder, sem muito a ganhar, os poetas ganham em liberdade e lucidez. E, como o eixo de meu trabalho sempre foi a identificação e a análise de micro-tendências do horizonte cultural e intelectual, a poesia pode ter se tornado um instrumento operacional interessante para esse trabalho.

Mas será que as minhas antologias são mesmo instrumentais? Provavelmente não. A eleição do campo criativo da poesia como objeto principal de trabalho deve ter mais variáveis em jogo. Talvez o risco envolvido na identificação de novas dicções e projetos poéticos também me atraia. Esse tipo de trabalho oferece uma margem de erro grande. O que torna uma antologia sobre poetas emergentes um tipo de jogo de sorte.

Mas talvez tenha sido também o impacto do lançamento do 26 poetas hoje (Aeroplano) que me tenha inoculado o vírus de antologista. A poesia marginal, ou qualquer outro nome que ela possa ter, havia surgido em meados dos anos 1970 ligada ao rock, que, num quadro de repressão política, tornou-se um dos únicos canais possíveis para a expressão do que então se chamava a geração AI-5. Essa poesia surgiu com todos os traços da contracultura, trazendo um tom irreverente e de interpelação, recusando o sistema de produção e distribuição editoriais, desafiando a tradição literária, trabalhando e vivendo em cooperativas. Como, no caso brasileiro, o panorama político era substancialmente diverso daquele da contracultura européia e norte-americana, rapidamente os movimentos culturais a ela ligados viraram o espaço de expressão de uma geração marcada pelo medo e pelo silêncio.

Como já mencionei há algumas linhas, a poesia não é uma forma de arte que tenha um impacto público significativo. Assim, ao contrário da imprensa, da TV, do cinema, teatro e música, a poesia não conheceu integralmente a mão pesada da censura. Especialmente a nova poesia que vendia de mão em mão, publicava em folhas mimeografadas e circulava fora da mídia. Com uma relativa facilidade, os poetas começaram a reunir em torno de si uma respeitável massa de jovens interessados em rock’n’roll e poesia falada.

(…)